Vamos Falar Sobre: A Grande Aposta

a grande aposta“A Grande Aposta” (2015), do diretor Adam McKay, é um filme que esperei ansiosamente desde suas primeiras peças publicitárias. O elenco de peso e as assinaturas da direção já pareciam uma receita pronta para algo com personalidade, mas foi o tema do longa que me colocou ainda mais em expectativa. McKay, apesar de dominar e reafirmar pontualmente seu domínio sobre a comédia, traz uma história complexa, dependente e permeada por termos e noções técnicas bastante específicas. Mesmo que ainda ansioso, foi com certa cautela que comecei a minha experiência com o filme. O prazer foi grande, fui conquistado logo de cara.

Michael Burry (Christian Bale) é uma figura estranha dentro do setor financeiro, normalmente vestindo-se de forma despojada e agindo com certa imprevisibilidade. Como se descobrisse uma falha singular e notável, o genial executivo começa a formatar uma terrível previsão lógica sobre o que viria a ser a crise imobiliária de 2008. Narrando os acontecimentos do longa, o ganancioso banqueiro Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe as bizarras movimentações financeiras de Burry e passa a montar um esquema para lucrar com o previsto desastre. Dentre aqueles que também acreditam na previsão e decidem apostar contra um dos mercados mais sólidos do país, está o irascível e idealista Mark Baum (Steve Carell) e sua equipe. De forma acidental e em menor escala, Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), dois jovens peixes pequenos recém-chegados em Wall Street, também começam a ir contra o mercado de habitação enquanto são aconselhados pelo experiente e sóbrio Ben Rickert (Brad Pitt). Com enormes quantias em risco, envolvendo um possível lucro ainda maior, acompanhamos os personagens durante seus conflitos financeiros, emocionais e éticos pelo período, previsto por Burry, de dois anos.

“A Grande Aposta” traz o humor cínico de Adam McKay (uma de suas marcas) somado a uma edição inteligente e bastante original. A câmera é um personagem por onde comentários, por vezes, são direcionados ao publico, seja para acrescentar ou desmentir pequenas liberdades poéticas dos acontecimentos. Nosso olhar, registrado pelo uso de câmera, é documental. A quarta parede parece existir quando é conveniente, da mesma forma que é quebrada quando o momento é ideal. Por mais que a narrativa se concentre em indivíduos gananciosos e de índole duvidosa (em sua maioria), sempre existe um elemento humano na inserção de fotografias de pessoas comuns em situações cotidianas. O longa sabe até onde levar suas piadas, respeitando o teor do tema. O filme é marcado, de forma pontual, por citações que conseguem enaltecer determinados momentos ou o tom humanizado destes (também deixando agudos momentos de calmaria onde é possível respirar e absorver a grande quantidade de informação que é constantemente despejada), passando por Mark Twain até Haruki Murakami. Quando os personagens se encontram discutindo termos e complicações específicas demais para o publico médio, o filme simplesmente engasga por um momento, quase sempre de súbito, e um convidado (novamente quebrando a quarta parede) aparece para explicar da melhor forma possível o que aquilo significa. Estes momentos podem parecer partir da pretensão da ignorância de quem assiste, mas o próprio longa faz questão de pontuar que aquele vocabulário existe para que as figuras de Wall Street se separem do resto, é artificialmente complexo e exagerado. Durante as devidas explicações existem pequenos erros de continuidade, que reforçam ainda mais a ideia da visão documental do filme. Toda a parte técnica de “A Grande Aposta” é carrega de personalidade e humor distinto, brincando com a noção comum de ficção e narrativa.

a grande aposta 2O longa se mantém focado no desenvolvimento e nas relações de poder durante os meses que antecedem a crise, mas ainda existem pequenos momentos onde mergulhamos, mesmo que de forma breve, nos personagens. Com o decorrer do filme, acabamos conhecendo um pouco do essencial de cada um. Sempre de forma cautelosa, evitando tornar-se uma narrativa puramente dramática e dependente do prolongado e constante desenvolvimento destes. O desempenho de Steve Carell parece caricato de inicio, mas logo entendemos a dinâmica de extremos por trás de sua interpretação. Seu personagem, Mark Baum, convence como compasso moral e emocional, sendo responsável por entregar sentenças poderosas e cheias de ideologias. Vale também elogiar a interpretação contida de Christian Bale, que mesmo tendo seu arco narrativo devidamente completo deixa um gosto amargo na garganta. Queria tê-lo por mais tempo na tela. Uma vez que a crise é consumada, ficamos totalmente dependentes dos personagens e de suas reações quanto ao terrível cenário catastrófico, obrigando o filme a amadurecer por completo. “A Grande Aposta” começa com tons de “O Lobo de Wall Street” (2013) e termina cruelmente trágico e realista.

Se existe algum problema que realmente chamou a atenção, estando eu procurando de forma minuciosa, seria a estrutura. Por poucas vezes o filme parece não saber exatamente aquilo que quer contar, se perdendo entre as tecnicalidades complexas e o humor cínico. Mas encaro isto de forma diferente do normal. A meu ver, “A Grande Aposta” tem licença poética para seus mínimos deslizes estruturais. Tratando de um assunto complicado, que machuca o orgulho do capital e da imagem sólida do sistema enquanto mantém seu caráter humorístico, acaba sendo mais que natural recorrer a algumas experimentações. O longa é uma forte e constante brisa de ar fresco, refrescante e corajosa. Por enquanto, “A Grande Aposta” foi o melhor filme que tive o prazer de assistir no cinema em 2016. Independente da temática complexa é cativante pelos motivos mais simples e humanos.

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2015 Re-Cap (Parte Final)

 

Welcome to Me (2014)

Direção: Shira Piven

welcome to meAlice Klieg (Kristen Wiig) é uma mulher mentalmente instável e adoentada, passando por constantes tratamentos e consultas psiquiátricas por toda a sua vida. Encontra uma obsessão nos programas da Oprah Winfrey, assistindo os episódios gravados diariamente. Tendo como figuras próximas sua amiga Gina Selway (Linda Cardellini) e o Doutor Daryl Moffet (Tim Robbins), a personagem tem sérias dificuldades de socialização e passa a maior parte do tempo dentro de sua própria e caótica cabeça. Mas tudo isso muda quando Alice ganha uma quantia milionária na loteria e vai atrás de seu sonho: fazer e apresentar um programa televisionado, assim como a Oprah.

“Welcome to Me” cativa pela premissa original e criativa, tendo diversas aberturas para explorar um humor de extremos. Kristen Wiig consegue, no longa, criar uma figura que proporciona uma variedade intensa de emoções e reações. Seus conflitos psicológicos são tratados como algo cômico da mesma forma que destrutivos. Um dos pontos altos do filme é a constante briga interna dos produtores e executivos, responsáveis pelo canal de televisão, e a moralidade da exposição comprada por Alice, trazendo uma boa dose de realidade para a premissa absurda. “Welcome to Me” tinha tudo para ser só mais um filme de comédia mediano, mas faz um favor a si mesmo ao maturar suas problemáticas em um último e intenso ato. O malabarismo emocional da obra é primoroso. Mesmo sendo predominante uma comédia de absurdos, ainda existe um constante conflito com o real, criando um paralelo com sua instável protagonista. O longa de Shira Piven traz um diferencial para um formato clássico, merecendo tanto um destaque quanto uma recomendação.

The Overnight (2015)

Direção: Patrick Brice

the overnightAcompanhamos o casal Alex (Adam Scott) e Emily (Taylor Schilling), recém-chegados à Los Angeles. Durante um estranho e desconfortável contato sexual, que logo é interrompido, fica bastante claro como ambos tem dificuldades e certa incompatibilidade de satisfazer um ao outro. Bastante preocupados com a adaptação, tanto deles próprios como indivíduos quanto da família, o casal leva RJ, seu filho, para um passeio pelo parque. Após alguns minutos de frustração, Alex e Emily são abordados por Kurt (Jason Schwartzman), pai de outro garoto ali presente, e são convidados para jantar na casa dele e assim se familiarizem melhor com a vizinhança. O resto do filme se passa, quase que exclusivamente, focado no respectivo evento de confraternização. Nossos protagonistas vão aprendendo, aos poucos, que tanto Kurt quanto sua esposa Charlotte (Judith Godrèche) são figuras estranhas e instáveis, fazendo com que a noite tome rumos absurdos e inesperados.

“The Overnight” pode, por vezes, se comportar como uma típica comédia besteirol, fazendo uso de drogas e imagens sexuais como fonte barata de humor, mas logo se aventura por águas mais profundas e densas. Da mesma forma que nossos protagonistas são coagidos a mimetizar o comportamento destrutivo de seus vizinhos, a audiência vai criando um certo distanciamento da narrativa com o passar do tempo, isto para que logo depois sejamos jogados de cabeça contra a verdadeira proposta do filme: exaltar a fragilidade do casamento e o sexo como agente reparador do mesmo. Assim como o filme anterior, “The Overnight” se eleva ao maturar suas fontes de comédia em problemáticas densas e sinceras. Com boas performances e uma narrativa segura, não é difícil se surpreender com a obra.

Maníaco (2012)

Direção: Franck Khalfoun

maniac 2Frank (Elijah Wood) é um assassino em série que possui um peculiar gosto por matar mulheres. Colecionando os escalpos de suas vítimas, o solitário personagem cultiva uma obsessão por usá-los como acessórios em seus manequins. Ao ser abordado por uma jovem fotografa, Anna (Nora Arnezeder), que se interessa pelo seu trabalho como restaurador, Frank inicia uma doentia sequência de perseguição que o leva ao limite de sua loucura.

Remake de um filme homônimo de 1980, o longa é uma perturbadora e íntima visão do doente protagonista sobre o mundo. Frank é muitas vezes vítima de suas próprias alucinações e constantes enxaquecas, que parecem ser o gatilho de seus atos brutais. Pouco sabemos sobre suas motivações, que parecem abstratas também para o personagem, mas é clara a relação entre a preferência que tem por mulheres e algum evento traumático envolvendo sua figura materna. “Maníaco” é filmado do ponto de vista em primeira pessoa, nos fazendo cúmplices dos horrores praticados por Frank. Não são poucas as cenas que embrulham o estômago e beira o nauseante, o filme é terrivelmente (e brilhantemente) cru em sua abordagem da loucura e da violência. A trilha sonora é um componente de peso na obra, colocando-nos na angustiante expectativa do que vem a seguir.

“Maníaco” é um dos poucos filmes que me chocaram de forma sincera e absoluta. Existe muito charme e coragem nas decisões criativas, fazendo deste um dos melhores remakes de um terror clássico. O longa vale muito como experiência, nos levando a vivenciar uma verdadeira catarse esquizofrênica e doentia. O título não é para todos, mas é hipnótico e até mesmo sedutor para os aficionados pelo gênero.

Vamos Falar Sobre: Carol

CarolNão saber muito sobre o filme é, quase sempre, uma boa pedida. A ausência de expectativas somada à possível surpresa, seja pelo formato ou conteúdo, acaba por criar um impacto intenso e uma imersão notável. Com noção prévia das mais simples, foi dessa forma que assisti “Carol” (2015). O novo longa de Todd Haynes é lento em apresentação da mesma forma que é realista, não há dificuldades na inserção de terceiros. Com um foco narrativo simples e ótimas performances, o filme, que se mantém linear, consegue se destacar entre outros que acompanham seu lançamento nacional. Mesmo, pessoalmente, tendo passado por uma péssima sessão, guardo memórias bastante doces da obra.

A história se passa na cidade de Nova Iorque em 1950. Therese Belivet (Rooney Mara) é uma garota introspectiva, confusa sobre seus desejos e estagnada em sua vida. Passa a maior parte de seu tempo divida entre o trabalho, em uma loja de brinquedos, e com seu namorado Richard Semco (Jake Lacy). Durante os turbulentos momentos de véspera natalina, Therese tem sua atenção presa a uma elegante mulher mais velha chamada Carol Aird (Cate Blanchett). Mesmo em posições diferentes (compradora e vendedora em classes sociais distintas) as duas mulheres entram em sintonia de forma simples e agradável. Com a elegante senhora deixando suas luvas para trás, Therese ganha um motivo para iniciar um contato com Carol. Lentamente, as duas mulheres vão se aproximando, ganhando intimidade e confiança. Não tarda para que ambas reconheçam como se sentem e, de forma lenta e cautelosa, iniciem uma relação amorosa. As personagens veem uma na outra alguém que pode suprir as ausências emocionais que sentem.

“Carol” é um filme pautado em grandes interpretações. Com poucos personagens sendo formalmente apresentados, acompanhamos o intenso desenvolvimento da relação das duas protagonistas de forma focada e lenta. Cada pequeno avanço emocional ou problemática tem seu devido tempo para respirar. A versatilidade de Rooney Mara é notável, sua personagem passa por uma intensa transformação durante a narrativa. Ao nos aproximarmos da conclusão, estamos acompanhando uma Therese mais determinada e independente. Cate Blanchett tem alguns dos momentos mais impactantes do filme, levando sua personagem a protagonizar uma ampla variedade de emoções intensas. O mundo burguês de Carol se mostra terrivelmente artificial, onde seu marido, Harge Aird (Kyle Chandler), se recusa a aceitar a sexualidade de sua esposa, sendo incapaz de lidar com a recente separação do casal. Um ponto interessante do longa é a forma como ele utiliza seus personagens masculinos. Não seria exagero dizer que, praticamente, todos os homens do filme têm como objetivo acidentalmente interromper os delicados momentos das duas protagonistas, ter intenções sexuais com alguma delas ou simplesmente representar a opressora conduta normativa da época. Considero este um importante acerto da obra no momento em que somos facilmente convencidos a não confiar plenamente em nenhuma figura masculina, reforçando ainda mais o sentimento empático originário da relação entre Carol e Therese. A depender do personagem, existe ingenuidade nestes comportamentos. Richard, por exemplo, tem seus momentos antagônicos sendo motivados por confusão emocional. Reiterando como os indivíduos e as relações de poder operavam na década representada, ser sexista e homofóbico era o modus operandi.

CAROL

Outra escolha interessante do filme é a sua apresentação. “Carol” tem longas sequências predominantemente esverdeadas, passando uma imagem hiper-realista de Nova Iorque e da década. Da mesma forma, nos pontuais momentos de variação de cor, existe um belo casamento entre as construções visuais e a trilha sonora. O problema é quando estes momentos são escassos e acabamos acompanhando extensas sequências que se aproximam do desagradável e esteticamente cansativo. Destaque para o poético uso de vidros e janelas, compondo brilhantemente o distanciamento emocional que vitima as personagens. O longa é cheio de enquadramentos criativos e inteligentes. Em especial, quando a personagem de Rooney Mara é vista através das limitações de sua pequena gaveta no trabalho.

“Carol” não é um filme simples, muito de seu valor encontra-se para além de sua história. A relação desenvolvida entre Therese e Carol é extremamente sincera e comovente, mas pode parecer cansativa para aqueles desacostumados com um material mais lento. Sendo uma adaptação de uma obra literária homônima (na versão nacional), fico curioso para saber quais as particularidades e diferenças na estrutura narrativa. Independe do gosto pessoal, “Carol” é uma obra feita de forma inteligente. Seus cortes e sobriedade distinta conseguem manter o tom de realismo, enquanto as performances nos entregam uma relação amorosa bonita e forte. O filme não é perfeito, por vezes parece tropeçar em uma ausência de substância. Mas o saldo final é bastante positivo, ou pelo menos o suficiente para que seja fácil relevar seus problemas. Quando possível, pretendo assistir novamente ao longa e tenho certeza de que encontrarei mais em um segundo momento.

2015 Re-Cap (Parte Três)

 

A Viatura (2015)

Direção: Jon Watts

Cop CarTravis (James Freedson-Jackson) e Harrison (Hays Wellford) são dois garotos que decidem “fugir” de casa e se aventurar pelas planícies. Após alguns minutos caminhando a esmo, a dupla encontra uma viatura de polícia vazia em uma locação incomum, tomando o veículo como um achado que, agora, os pertence. Após algumas tentativas frustradas, os garotos conseguem guiar o automóvel da melhor forma possível e seguem em direção à estrada asfaltada. Logo, conhecemos uma sequência alternativa de eventos que nos apresenta ao corrupto xerife Kretzer (Kevin Bacon) e a mesma viatura estacionada no meio do matagal. Com as histórias entrelaçadas, inicia-se uma intensa busca que não pode chegar aos olhos de terceiros. Culminando em uma conclusão surpreendentemente sangrenta. Tanto Travis quando Harrison tem seu momento libertador e infantil jogado em um abismo de violência.

O longa não se esmera em seu roteiro, mas parece se dedicar bastante na criação de tensão e de momentos visualmente bem realizados. Até o fatídico encontro entre o xerife e a dupla, existe distinção clara, na luz e na composição de cena, entre os respectivos momentos de cada seguimento do filme. Vale também destacar as performances dos dois atores mirins, que surpreendem com uma boa variedade de expressões e um bom trabalho corporal. “A Viatura” é, provavelmente, o melhor trabalho de Jon Watts e entrega uma experiência satisfatória. Aqueles que talvez se cansem da lenta primeira metade, vão apreciar uma extensa e catártica sequência final.

Corrente do Mal (2014)

Direção: David Robert Mitchell

it follows film stillJay Height (Maika Monroe) é uma jovem que tem expectativas românticas quanto ao seu primeiro contato sexual. Após um encontro sóbrio, a personagem tem suas expectativas consumadas, quando a vemos distraidamente deitada no carro de seu namorado. Neste momento de vulnerabilidade é, abruptamente, dominada e induzida a um estado de sono. Ao acordar, Jay se vê presa a uma cadeira no meio de um estacionamento abandonado. Naquele momento, seu parceiro revela que ela vai ser perseguida por alguma coisa misteriosa e que deve passar adiante da mesma forma que ele faz, através do contato sexual. Uma figura aparece ao longe durante a explicação, lentamente andando em direção à jovem. Assim tornando clara a aterrorizante realidade do fardo que ela carrega. Desse ponto em diante, acompanhamos Jay e seus amigos em busca de respostas e resoluções enquanto, constantemente, precisam fugir do perseguidor visível somente aos olhos de sua vítima.

“Corrente do Mal” é um terror bastante eficiente e intrigante ao apresentar uma alternativa inteligente para criar situações de desconforto e medo. Somos colocados na mesma situação que os personagens, sem entender ao certo o funcionamento da criatura e as regras que segue. Grande destaque para a direção de arte, fazendo um casamento interessante com as diversas situações tensas ao apresentar uma intensa variedade de tons dentro de um espectro de cor sóbrio. A trilha sonora, composta de sons sintéticos e densos, é um dos componentes mais importantes na construção de expectativa e na consumação do terror. “Corrente do Mal” é um filme flexível, podendo ser visto de forma analítica ou junto com um grupo de amigos, lembrando bastante alguns bons longas de terror de décadas passadas.

Kumiko, a Caçadora de Tesouros (2014)

Direção: David Zellner

kumikoKumiko (Rinko Kikuchi) é uma figura deslocada do resto da cidade de Tóquio. Extremamente introspectiva, passa a maior parte do tempo dentro de seu pequeno e caótico apartamento, junto de seu coelho de estimação, enquanto assiste ao filme “Fargo” (1996) de forma religiosa. A obsessão de Kumiko pela obra, assim como seu profundo desgosto pelas expectativas alheias, é algo fora do comum, ela realmente acredita que o longa de Joel Coen conte uma história real. Assistindo sempre a mesma fita VHS, Kumiko realiza anotações minuciosas sobre a localização final do dinheiro que movimenta a trama do filme. Passando por abusos e estresse em seu trabalho, assim como as constantes ligações de sua mãe, a personagem decide tentar a sorte e ir atrás do que acredita ser o seu destino: encontrar o dinheiro de “Fargo”.

O filme é um drama bastante envolvente, colocando uma figura emocionalmente e psicologicamente perdida como foco empático. Kumiko está sempre em destaque nas multidões de Tóquio, seja pelo corporal ou pelas cores vibrantes de suas roupas. É clara a ideia de que aquele lugar não representa nada para ela além de responsabilidades forçadas e artificiais, por isso somos apresentados a ângulos desconfortáveis e cinzentos da cidade. Tanto os pequenos (e grandes) abandonos necessários para sua empreitada quanto os riscos criminais que corre, reforçam a personagem como alguém desesperada e que, por ímpeto próprio, criou a fantasia sobre o dinheiro enterrado e seu destino. “Kumiko (…)” é uma experiência comovente e com um final poderoso. Talvez um dos filmes mais bonitos que assisti neste último ano.

Vamos Falar Sobre: Spotlight: Segredos Revelados

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Foi de forma despretensiosa que, recentemente, fui assistir “Spotlight: Segredos Revelados” (2015). O motivo é relativamente simples, o novo filme de Tom McCarthy é o clássico longa feito para ganhar premiações. Não me levem a mal, não é como se eu evitasse este tipo de material (afinal, estou bastante empolgado para ver outros que se encaixam na mesma linha), mas costumo ser seletivo com esta “categoria” de filme. “Spotlight” não me surpreendeu por ser bom, já era óbvio que abaixo da média ele não seria, o charme da obra vem de seus pequenos momentos e decisões criativas. A simplicidade é carismática.

No filme, acompanhamos a redação do jornal “The Boston Globe” e as mudanças advindas da chegada do novo chefe, o sóbrio Marty Baron (Liev Schreiber). Uma das alterações significativas que Baron faz no jornal é com a equipe investigativa liderada por Walter Robinson (Michael Keaton), que recebe um pedido formal para investigar um notório caso engavetado de pedofilia envolvendo um padre. Acatando ao pedido, Robinson e sua equipe começam a tirar a poeira por debaixo do tapete da cidade de Boston, descobrindo que o caso possui raízes profundas. O trabalho jornalístico investigativo sincero do quarteto começa a desvelar um dos maiores escândalos de pedofilia já acobertados.

“Spotlight” é uma história real e por isso aprecio a apresentação simples e focada no processo de investigação. A equipe é composta por figuras comuns, não existe glamour ou heroísmo. Este é um dos grandes méritos da narrativa do filme, seus personagens. Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é um dos membros da equipe, talvez o mais idealista e apaixonado dentre eles. Pouco sabemos sobre sua vida pessoal, mas é bastante claro os sacríficos que faz pelo seu trabalho como jornalista. Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) tem uma vida estável com seu marido em Boston. Após a investigação tomar um escopo maior e mais grave que o esperado, os pequenos momentos onde acompanha sua avó à igreja se tornam angustiantes e perturbadores. Matt Carroll (Brian d’Arcy James) é um pai de família que sofre a cada nefasto detalhe descoberto, estressado, graças à empatia que sente pelas famílias destruídas. No final, Matt acaba sendo uma das figuras mais relacionáveis, mesmo tendo menos tempo de tela que seus colegas.

SpotlightAs interpretação contidas são cheias de pequenas sutilezas, em especial as performances de Keaton, Schreiber e Ruffalo. Estes três são protagonistas de momentos cativantes, onde prendem nossa atenção com grande facilidade. O personagem de Stanley Tucci, o advogado Mitchell Garabedian, entrega diálogos poderosos durante todo o longa, forçando o publico a reconhecer aqueles horrores como eles verdadeiramente são. Assim como a trilha sonora de Howard Shore, pontua muito bem o tom pesaroso do filme.

Por mais que sejam ofuscados pela história e os personagens, existem pequenos problemas em “Spotlight”. A passagem de tempo, vital para reconhecermos o árduo trabalho da investigação, é um tanto quanto nebulosa, salvo um determinado momento onde somos relembrados da época onde se passa o longa. A parcial negligência do tempo não chega a falhar com o conjunto da obra, mas deixa um pouco a desejar. O meu maior problema com o filme talvez seja a sua falta de ambição, em especial as composições de cena e trabalho de câmera. Normalmente, este seria um aspecto que relevaria ao se tratar de uma narrativa investigativa clássica, mas fica difícil evitar quando cenas pontuais beiram o genial. Existem determinados momentos durante o longa, momentos de grande peso, onde o trabalho de câmera nos entrega algo refrescante e inteligente. O mesmo vale para as composições de cena, também pontualmente apresentando momentos de grande lirismo. As belíssimas experimentações acabam criando um contraste muito grande com o resto do filme, que acaba por se apresentar de forma genérica e esperada. Não consigo evitar de pensar que “Spotlight” poderia ter sido uma experiência bastante rica se tivesse arriscado mais. Mas vale lembrar que ambos os problemas existem, pois o material está à altura de complicações específicas como estas. Existe mérito por toda parte. “Spotlight” talvez se perca no tempo, mas vale uma recomendação.

2015 Re-Cap (Parte Dois)

 

Boulevard (2015)

Direção: Dito Montiel

BoulevardNolan Mack (Robin Williams) é um calado homem idoso que tem uma rotina bastante banal ao lado de sua esposa Joy (Kathy Baker). Acorda cedo para ir trabalhar no banco, aonde vem sendo cotado para uma promoção, logo em seguida volta para casa, janta e vai dormir em um quarto separado de sua esposa. Nolan é uma figura melancólica que parece se perder em pensamentos ao dirigir pelas ruas noturnas, procurando algo entre seus olhos naturalmente marejados pela idade. Durante um dos rotineiros momentos de introspecção ao dirigir, Nolan decide abordar um jovem garoto de programa chamado Leo (Roberto Aguire). O personagem continua a seguir em passos lentos, se permitindo viver a vida que queria ter tido.

“Boulevard” é um filme mediano em praticamente todos os aspectos, mas acredito existir mérito, neste caso, ao se apoiar em tal mediocridade. A história de um homem idoso se aceitando como homossexual é contada de forma extremamente realista quando clichês e dramas hollywoodianos são evitados, tudo parece palpável e cru. Grande mérito, também, para as interpretações contidas e sinceras de Williams e Baker.  O último trabalho de Robin Williams não eleva o filme, mas é mais do que o suficiente para contar uma boa e simples história.

Sob a Pele (2013)

Direção: Jonathan Glazer

Under The Skin 2O filme começa com uma sequência de imagens que transmite certa estranheza, algo como mecanismos de uma tecnologia abstrata parecem trabalhar. Logo vemos nossa personagem, uma misteriosa e bela mulher (Scarlett Johansson), parada ao lado de uma chorosa e jovem garota paralisada. O espaço que dividem, de brancura infinita e impossível, é inusitadamente desconfortável. A estranha mulher começa a, sistematicamente, simular o comportamento humano, seduzindo homens solitários a segui-la em direção a uma bizarra armadilha. Com o passar do tempo, nossa misteriosa predadora entra em um complexo (e igualmente destrutivo) processo de autoconhecimento.  

Desconforto parece ser o sentimento chave neste longa. O horror abstrato, a frieza da direção e a angustiante trilha sonora fazem deste filme uma experiência singular e memorável. “Sob a Pele” é um claro estudo sobre a figura humana, nosso comportamento e desejos que nos formatam como os seres que somos. O longa é uma lenta composição cruel e contemplativa, sendo parcialmente livre para interpretação enquanto informa o mínimo possível. Scarlett Johansson constrói, neste filme, uma personagem que lentamente é engolida por sua humanidade cosmética. No final, é fácil criar empatia pela predadora e sentir um desconforto crescer dentro de nós mesmos. “Sob a Pele” é primorosamente eficaz em sua proposta.

Palo Alto (2013)

Direção: Gia Coppola

Palo Alto 3Filmes que tratam das relações e dinâmicas da juventude correm o risco de transmitirem uma visão demasiadamente plástica e burguesa. Este costuma ser o meu problema com alguns dos trabalhos de diretores como Richard Linklater e Sophia Coppola, os danos advindos do sacrifício do conteúdo em prol do formato (ou da intencional ausência deste). Se estamos falando sobre as diferentes formatações emocionais de uma juventude, acaba sendo mais interessante investir no desenvolvimento de personagens com problemáticas adversas do que no quão avant-garde seu longa pode ser. “Palo Alto” consegue isto.

Acompanhamos um grupo de jovens, singulares em apresentação e desenvolvimento, enquanto lidam com as diferentes crises que vivem. April (Emma Roberts) é uma garota insegura de sua sexualidade e vê o interesse de seu treinador de futebol, Mr. B (James Franco), por ela como uma oportunidade de passagem em direção à vida adulta. Fred (Nat Wolff) vive uma vida desregrada que cultiva com grande orgulho. Seu comportamento grosseiro e revoltado é claramente uma fachada para esconder uma pessoa insegura e problemática. Teddy (Jack Kilmer) é um jovem de potencial, mas se permite voltar a protagonizar situações destrutivas de forma acidental e irresponsável como se isso o mantivesse emocionalmente seguro. “Palo Alto” veste a carapuça dos pretensiosos filmes adolescentes para contar uma série de histórias interligadas, todas sobre amadurecimento e os medos inconscientes que parasitam nossas cabeças.

Vamos Falar Sobre: Os Oito Odiados

odiadosTenho uma relação bastante positiva com os trabalhos do diretor Quentin Tarantino, desde o singular “Jackie Brown” (1998) até o excessivo “Bastardos Inglórios” (2009). Logo, não é surpresa alguma que seu oitavo filme, “Os Oito Odiados” (2015), também me tenha sido de grande agrado. É interessante ver um Tarantino que trabalha com algumas marcas e vícios de suas primeiras obras, mas com a grandeza de suas produções mais recentes. As densas três horas de filme tornam um tanto quanto complexa a tarefa de tentar discutir este longa, mas aí vai minha tentativa.

Seguimos uma carruagem pela floresta nevada, paisagens colossais e opressoras. A natureza é praticamente infinita, assim como o isolamento que transmite. Temos nosso olhar preso a uma figura de Jesus feita de madeira, parcialmente coberta pela neve. Pouco a pouco cresce a tensa trilha sonora, como se estivéssemos em um filme de terror. A ausência de vida selvagem assim como de Deus é clara, estamos prestes a testemunhar o verdadeiro inferno. Após uma longa e bem construída introdução, vemos Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) na estrada. A carruagem para logo à frente, onde o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) e sua prisioneira, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), decidem, após certa discussão, amparar o homem. Continuamos seguindo a carruagem pelo caminho que vai se tornando cada vez mais tortuoso devido ao clima intenso. Neste meio tempo, conhecemos um pouco mais sobre Warren e seu passado como soldado da União durante a Guerra Civil Americana. Pouco tempo depois, outra figura aparece na estrada. Um homem de sotaque sulista bastante forte chamado Chris Mannix (Walton Goggins), que se apresenta como novo xerife da cidade onde John Ruth planeja ir para entregar sua perigosa prisioneira. Sem muita opção, John é obrigado a também ajuda-lo. Com o improvável quarteto formado, além do cocheiro, vemos a carruagem ser lentamente engolida por uma nevasca, que os faz buscar abrigo em um pequeno estabelecimento. Lá dentro, conhecemos outras figuras que estão presas devido ao clima: Bob (Demián Bichir), o dono substituto do local; Oswaldo Mobray (Tim Roth), o executor da cidade mais próxima; o misterioso Joe Gage (Michael Madsen) e Sandy Smithers (Bruce Dern), velho general que lutou pelos confederados. Não demora muito para tensões se transformarem em violência, engolindo a todos no mortal jogo de suspeitas.

odiados 2“Os Oito Odiados” conta com grandes performances, em espacial os personagens Chris Mannix e Daisy Domergue. Walton Goggins consegue, ao longo do filme, fazer seu personagem racista e de passado duvidoso ser estranhamente cativante, chegando até a ocupar, em alguns momentos, a figura do “mocinho” (muito entre aspas). Jennifer Jason Leigh acaba se tornando a catalisadora de alguns dos momentos mais interessantes do ponto de vista emocional. Sua personagem é constante vítima de agressões brutais, que causam um desconforto real em quem assiste. Isto para que, momentos depois, sejamos relembrados da pessoa terrível que a sua personagem é. Daisy talvez seja uma das figuras femininas mais fortes dos últimos anos, sem precisar criar qualquer empatia ou ter um arco para conseguir isto. Devo admitir ter ficado bastante decepcionado com o desempenho de Tim Roth. Seu personagem, Oswaldo Mobray, acaba repetindo à dinâmica, já desgastada, dos papéis normalmente interpretados por Christoph Waltz em outros trabalhos do mesmo diretor. É cansativo ter, mais uma vez, um personagem de sotaque estrangeiro e extremamente polido sendo autor de respostas “engraçadas”. Fora isso, foi refrescante poder assistir Kurt Russell atuando de forma tão forte e sincera.odiados 6Se existe algum fator que move o longa para frente a todo o momento e que consegue compensar pelos pouquíssimos problemas, é a trilha sonora fantástica de Ennio Morricone. Um dos receios que tinha com a trama era por culpa do diretor Quentin Tarantino. O homem é gênio, em diferentes níveis de apreciação, mas também é verdade que esta é a sua oitava produção e nós o conhecemos. Seus gostos peculiares pela gravação em filme (e não em formato digital) e efeitos práticos gloriosamente exagerados que beiram o cômico. Outra característica marcante de seus filmes é a violência como clímax, o que cria certa previsibilidade em suas tramas. “Os Oito Odiados” é a desculpa perfeita para ter um cenário onde um tiroteio sangrento funciona como única opção para os possíveis desdobramentos. Não me levem a mal, não estou criticando o uso de violência do Tarantino, estou comentando sobre a previsibilidade que vem com esta repetição. Lembra quando, mais duas horas de filme adentro, em “Django Livre” (2013), chegamos à gloriosa sequência do final? Foi incrível, excitante e extremamente bem feita, não foi? Mas todos sabiam que ela estava chegando, mesmo aqueles que evitaram qualquer contato prévio com o material. Como então não ser previsível em um filme como “Os Oito Odiados”, onde a maior parte da história acontece com personagens perigosos confinados no mesmo ambiente? Foi aí que Morricone brilhou. A trilha sonora foge muito do convencional do próprio Tarantino. Desde o começo do longa, somos invadidos por composições pesadas e carregadas de antecipação pelo horror que vem a seguir. O constante uivo do vento da nevasca que isola o ambiente do resto do mundo é um grande criador de tensão. Todo o trabalho de som é excepcional. Ennio Morricone, aqui, opera menos como compositor de trilhas para Velho Oeste e mais como quando trabalhou em “O Enigma de Outro Mundo” (1982). Não é à toa que uma das músicas do filme é uma peça de áudio do clássico de terror de John Carpenter (utilizada três vezes durante o longa). “Os Oito Odiados” compensa pela sua previsibilidade parcial quando se comporta mais como um “terror” e menos como “Cães de Aluguel” (1992).

É bastante óbvio que, neste filme, Tarantino quer comentar sobre a formação dos Estados Unidos como país. Ao ambientar sua obra logo após a Guerra Civil Americana, e forçar personagens de diferentes lados a lidarem uns com os outros, reforça a ideia de uma nação erguida sobre pilares de violência e contradição. A carta do presidente Abraham Lincoln, que Warren carrega, se torna o núcleo de momentos bastante interessantes e destoantes do resto. Problemas pontuais à parte, ele conseguiu o queria e o fez com grande primor. “Os Oito Odiados” pode não ser o melhor filme de Quentin Tarantino, mas é provavelmente um dos mais complexos e bem feitos.

2015 Re-Cap (Parte Um)

2015 foi um ano excepcional para mim. Finalmente pude adiantar alguns projetos (meus dois zines) e começar a correr atrás do atraso dos filmes que havia perdido. Dessa forma, me pareceu natural fazer algumas recomendações do que pude assistir durante o ano. A intenção aqui é falar sobre alguns longas que podem ter circulado por debaixo do radar midiático, não dos melhores filmes dos últimos anos. Mas de qualquer forma, todos aqui listados possuem qualidades interessantes e dignas de nota.

Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014)

Direção: Ana Lily Amirpour

Garota Sombria“Garota Sombria (…)” é um filme interessante do começo ao fim. Somos apresentados a cidade fantasma iraniana chamada “Bad City” e acompanhamos a rotina de seus poucos habitantes. Arash (Arash Marandi) é um jovem que tenta ganhar a vida e lidar com os vícios de seu pai, Hossein (Marshall Manesh). Durante um momento de coragem, ao tentar recuperar seu carro roubado por um notório traficante, Arash acaba cruzando com uma misteriosa garota (Sheila Vand) e com uma bizarra cena de crime. O longa segue pela ótica dos dois, seus respectivos encontros e desenvolvimentos através das noites monocromáticas.

O filme é uma mistura interessante de elementos de Terror, Romance e Velho Oeste e, de alguma forma, consegue trabalhar muito bem as suas limitações dentro dessa proposta. A direção tem grande peso neste malabarismo, as composições visuais e construção de tensão são simples e bem realizadas. Cenas são memoráveis e impactantes da mesma forma que possuem grande apelo artístico intimista. Vale também pontuar o ótimo uso de música. “Bad City” se torna um personagem uma vez que tem seu silêncio colocado em contraste com a trilha sonora eclética.

Lunar (2009)

Direção: Duncan Jones

Moon 3Sam Bell (Sam Rockwell) está há três anos a serviço em uma base de mineração na lua. Seu trabalho é relativamente simples, deve monitorar e reparar os veículos mineradores que percorrem o satélite. O único contato com a Terra se dá através de mensagens gravadas que troca com sua esposa Tess (Dominique McElligot), onde parecem conversar sobre possíveis problemas que tenham tido quando Sam ainda estava em casa. O personagem passa a maior parte do tempo acompanhado pelo robô GERTY (voz de Kevin Spacey), seu único companheiro na solitária missão que logo deve se encerrar. “Lunar” é um daqueles filmes que são complicados de se falar sobre sem estragar algumas surpresas bastante interessantes (e outras que são óbvias e fáceis de telegrafar). De qualquer forma, o longa é uma ficção científica clássica. O ritmo é lento o bastante para criar momentos contemplativos e deixar cada cena respirar, mas dinâmico o suficiente para não ser maçante. A trilha sonora é outra qualidade latente e trabalha muito a favor da obra.

Blue Ruin (2014)

Direção: Jeremy Saulnier

Blue RuinConhecemos um homem misterioso, quieto e melancólico que vive do lixo e dorme no carro. Dwight (Macon Blair) é um homem adulto atormentado, preso em um estágio adolescente desde o assassinato de seus pais. Logo, uma oficial de polícia aparece e gentilmente alerta o personagem de que o homem que arruinou a sua vida vai ser solto, fazendo-o ir atrás do assassino para buscar vingança. Assim começa “Blue Ruin”, um dos meus filmes preferidos.

Dwight é um personagem fraco que possui uma motivação extremamente forte. Ele não só fugiu de sua própria dor como abandonou outros para lidar com ela. Mesmo preparado para levar suas ações às últimas consequências e ser autor de diversas brutalidades durante o filme, sempre existe horror e sofrimento em seu semblante. “Blue Ruin” é um filme sobre vingança e a cruel violência que envolve o ato, não existe glamour ou lição de moral e sentimos a todo o momento como tudo aquilo marca profundamente nosso protagonista e nos afunda junto.