2015 Re-Cap (Parte Final)

 

Welcome to Me (2014)

Direção: Shira Piven

welcome to meAlice Klieg (Kristen Wiig) é uma mulher mentalmente instável e adoentada, passando por constantes tratamentos e consultas psiquiátricas por toda a sua vida. Encontra uma obsessão nos programas da Oprah Winfrey, assistindo os episódios gravados diariamente. Tendo como figuras próximas sua amiga Gina Selway (Linda Cardellini) e o Doutor Daryl Moffet (Tim Robbins), a personagem tem sérias dificuldades de socialização e passa a maior parte do tempo dentro de sua própria e caótica cabeça. Mas tudo isso muda quando Alice ganha uma quantia milionária na loteria e vai atrás de seu sonho: fazer e apresentar um programa televisionado, assim como a Oprah.

“Welcome to Me” cativa pela premissa original e criativa, tendo diversas aberturas para explorar um humor de extremos. Kristen Wiig consegue, no longa, criar uma figura que proporciona uma variedade intensa de emoções e reações. Seus conflitos psicológicos são tratados como algo cômico da mesma forma que destrutivos. Um dos pontos altos do filme é a constante briga interna dos produtores e executivos, responsáveis pelo canal de televisão, e a moralidade da exposição comprada por Alice, trazendo uma boa dose de realidade para a premissa absurda. “Welcome to Me” tinha tudo para ser só mais um filme de comédia mediano, mas faz um favor a si mesmo ao maturar suas problemáticas em um último e intenso ato. O malabarismo emocional da obra é primoroso. Mesmo sendo predominante uma comédia de absurdos, ainda existe um constante conflito com o real, criando um paralelo com sua instável protagonista. O longa de Shira Piven traz um diferencial para um formato clássico, merecendo tanto um destaque quanto uma recomendação.

The Overnight (2015)

Direção: Patrick Brice

the overnightAcompanhamos o casal Alex (Adam Scott) e Emily (Taylor Schilling), recém-chegados à Los Angeles. Durante um estranho e desconfortável contato sexual, que logo é interrompido, fica bastante claro como ambos tem dificuldades e certa incompatibilidade de satisfazer um ao outro. Bastante preocupados com a adaptação, tanto deles próprios como indivíduos quanto da família, o casal leva RJ, seu filho, para um passeio pelo parque. Após alguns minutos de frustração, Alex e Emily são abordados por Kurt (Jason Schwartzman), pai de outro garoto ali presente, e são convidados para jantar na casa dele e assim se familiarizem melhor com a vizinhança. O resto do filme se passa, quase que exclusivamente, focado no respectivo evento de confraternização. Nossos protagonistas vão aprendendo, aos poucos, que tanto Kurt quanto sua esposa Charlotte (Judith Godrèche) são figuras estranhas e instáveis, fazendo com que a noite tome rumos absurdos e inesperados.

“The Overnight” pode, por vezes, se comportar como uma típica comédia besteirol, fazendo uso de drogas e imagens sexuais como fonte barata de humor, mas logo se aventura por águas mais profundas e densas. Da mesma forma que nossos protagonistas são coagidos a mimetizar o comportamento destrutivo de seus vizinhos, a audiência vai criando um certo distanciamento da narrativa com o passar do tempo, isto para que logo depois sejamos jogados de cabeça contra a verdadeira proposta do filme: exaltar a fragilidade do casamento e o sexo como agente reparador do mesmo. Assim como o filme anterior, “The Overnight” se eleva ao maturar suas fontes de comédia em problemáticas densas e sinceras. Com boas performances e uma narrativa segura, não é difícil se surpreender com a obra.

Maníaco (2012)

Direção: Franck Khalfoun

maniac 2Frank (Elijah Wood) é um assassino em série que possui um peculiar gosto por matar mulheres. Colecionando os escalpos de suas vítimas, o solitário personagem cultiva uma obsessão por usá-los como acessórios em seus manequins. Ao ser abordado por uma jovem fotografa, Anna (Nora Arnezeder), que se interessa pelo seu trabalho como restaurador, Frank inicia uma doentia sequência de perseguição que o leva ao limite de sua loucura.

Remake de um filme homônimo de 1980, o longa é uma perturbadora e íntima visão do doente protagonista sobre o mundo. Frank é muitas vezes vítima de suas próprias alucinações e constantes enxaquecas, que parecem ser o gatilho de seus atos brutais. Pouco sabemos sobre suas motivações, que parecem abstratas também para o personagem, mas é clara a relação entre a preferência que tem por mulheres e algum evento traumático envolvendo sua figura materna. “Maníaco” é filmado do ponto de vista em primeira pessoa, nos fazendo cúmplices dos horrores praticados por Frank. Não são poucas as cenas que embrulham o estômago e beira o nauseante, o filme é terrivelmente (e brilhantemente) cru em sua abordagem da loucura e da violência. A trilha sonora é um componente de peso na obra, colocando-nos na angustiante expectativa do que vem a seguir.

“Maníaco” é um dos poucos filmes que me chocaram de forma sincera e absoluta. Existe muito charme e coragem nas decisões criativas, fazendo deste um dos melhores remakes de um terror clássico. O longa vale muito como experiência, nos levando a vivenciar uma verdadeira catarse esquizofrênica e doentia. O título não é para todos, mas é hipnótico e até mesmo sedutor para os aficionados pelo gênero.

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2015 Re-Cap (Parte Três)

 

A Viatura (2015)

Direção: Jon Watts

Cop CarTravis (James Freedson-Jackson) e Harrison (Hays Wellford) são dois garotos que decidem “fugir” de casa e se aventurar pelas planícies. Após alguns minutos caminhando a esmo, a dupla encontra uma viatura de polícia vazia em uma locação incomum, tomando o veículo como um achado que, agora, os pertence. Após algumas tentativas frustradas, os garotos conseguem guiar o automóvel da melhor forma possível e seguem em direção à estrada asfaltada. Logo, conhecemos uma sequência alternativa de eventos que nos apresenta ao corrupto xerife Kretzer (Kevin Bacon) e a mesma viatura estacionada no meio do matagal. Com as histórias entrelaçadas, inicia-se uma intensa busca que não pode chegar aos olhos de terceiros. Culminando em uma conclusão surpreendentemente sangrenta. Tanto Travis quando Harrison tem seu momento libertador e infantil jogado em um abismo de violência.

O longa não se esmera em seu roteiro, mas parece se dedicar bastante na criação de tensão e de momentos visualmente bem realizados. Até o fatídico encontro entre o xerife e a dupla, existe distinção clara, na luz e na composição de cena, entre os respectivos momentos de cada seguimento do filme. Vale também destacar as performances dos dois atores mirins, que surpreendem com uma boa variedade de expressões e um bom trabalho corporal. “A Viatura” é, provavelmente, o melhor trabalho de Jon Watts e entrega uma experiência satisfatória. Aqueles que talvez se cansem da lenta primeira metade, vão apreciar uma extensa e catártica sequência final.

Corrente do Mal (2014)

Direção: David Robert Mitchell

it follows film stillJay Height (Maika Monroe) é uma jovem que tem expectativas românticas quanto ao seu primeiro contato sexual. Após um encontro sóbrio, a personagem tem suas expectativas consumadas, quando a vemos distraidamente deitada no carro de seu namorado. Neste momento de vulnerabilidade é, abruptamente, dominada e induzida a um estado de sono. Ao acordar, Jay se vê presa a uma cadeira no meio de um estacionamento abandonado. Naquele momento, seu parceiro revela que ela vai ser perseguida por alguma coisa misteriosa e que deve passar adiante da mesma forma que ele faz, através do contato sexual. Uma figura aparece ao longe durante a explicação, lentamente andando em direção à jovem. Assim tornando clara a aterrorizante realidade do fardo que ela carrega. Desse ponto em diante, acompanhamos Jay e seus amigos em busca de respostas e resoluções enquanto, constantemente, precisam fugir do perseguidor visível somente aos olhos de sua vítima.

“Corrente do Mal” é um terror bastante eficiente e intrigante ao apresentar uma alternativa inteligente para criar situações de desconforto e medo. Somos colocados na mesma situação que os personagens, sem entender ao certo o funcionamento da criatura e as regras que segue. Grande destaque para a direção de arte, fazendo um casamento interessante com as diversas situações tensas ao apresentar uma intensa variedade de tons dentro de um espectro de cor sóbrio. A trilha sonora, composta de sons sintéticos e densos, é um dos componentes mais importantes na construção de expectativa e na consumação do terror. “Corrente do Mal” é um filme flexível, podendo ser visto de forma analítica ou junto com um grupo de amigos, lembrando bastante alguns bons longas de terror de décadas passadas.

Kumiko, a Caçadora de Tesouros (2014)

Direção: David Zellner

kumikoKumiko (Rinko Kikuchi) é uma figura deslocada do resto da cidade de Tóquio. Extremamente introspectiva, passa a maior parte do tempo dentro de seu pequeno e caótico apartamento, junto de seu coelho de estimação, enquanto assiste ao filme “Fargo” (1996) de forma religiosa. A obsessão de Kumiko pela obra, assim como seu profundo desgosto pelas expectativas alheias, é algo fora do comum, ela realmente acredita que o longa de Joel Coen conte uma história real. Assistindo sempre a mesma fita VHS, Kumiko realiza anotações minuciosas sobre a localização final do dinheiro que movimenta a trama do filme. Passando por abusos e estresse em seu trabalho, assim como as constantes ligações de sua mãe, a personagem decide tentar a sorte e ir atrás do que acredita ser o seu destino: encontrar o dinheiro de “Fargo”.

O filme é um drama bastante envolvente, colocando uma figura emocionalmente e psicologicamente perdida como foco empático. Kumiko está sempre em destaque nas multidões de Tóquio, seja pelo corporal ou pelas cores vibrantes de suas roupas. É clara a ideia de que aquele lugar não representa nada para ela além de responsabilidades forçadas e artificiais, por isso somos apresentados a ângulos desconfortáveis e cinzentos da cidade. Tanto os pequenos (e grandes) abandonos necessários para sua empreitada quanto os riscos criminais que corre, reforçam a personagem como alguém desesperada e que, por ímpeto próprio, criou a fantasia sobre o dinheiro enterrado e seu destino. “Kumiko (…)” é uma experiência comovente e com um final poderoso. Talvez um dos filmes mais bonitos que assisti neste último ano.

2015 Re-Cap (Parte Dois)

 

Boulevard (2015)

Direção: Dito Montiel

BoulevardNolan Mack (Robin Williams) é um calado homem idoso que tem uma rotina bastante banal ao lado de sua esposa Joy (Kathy Baker). Acorda cedo para ir trabalhar no banco, aonde vem sendo cotado para uma promoção, logo em seguida volta para casa, janta e vai dormir em um quarto separado de sua esposa. Nolan é uma figura melancólica que parece se perder em pensamentos ao dirigir pelas ruas noturnas, procurando algo entre seus olhos naturalmente marejados pela idade. Durante um dos rotineiros momentos de introspecção ao dirigir, Nolan decide abordar um jovem garoto de programa chamado Leo (Roberto Aguire). O personagem continua a seguir em passos lentos, se permitindo viver a vida que queria ter tido.

“Boulevard” é um filme mediano em praticamente todos os aspectos, mas acredito existir mérito, neste caso, ao se apoiar em tal mediocridade. A história de um homem idoso se aceitando como homossexual é contada de forma extremamente realista quando clichês e dramas hollywoodianos são evitados, tudo parece palpável e cru. Grande mérito, também, para as interpretações contidas e sinceras de Williams e Baker.  O último trabalho de Robin Williams não eleva o filme, mas é mais do que o suficiente para contar uma boa e simples história.

Sob a Pele (2013)

Direção: Jonathan Glazer

Under The Skin 2O filme começa com uma sequência de imagens que transmite certa estranheza, algo como mecanismos de uma tecnologia abstrata parecem trabalhar. Logo vemos nossa personagem, uma misteriosa e bela mulher (Scarlett Johansson), parada ao lado de uma chorosa e jovem garota paralisada. O espaço que dividem, de brancura infinita e impossível, é inusitadamente desconfortável. A estranha mulher começa a, sistematicamente, simular o comportamento humano, seduzindo homens solitários a segui-la em direção a uma bizarra armadilha. Com o passar do tempo, nossa misteriosa predadora entra em um complexo (e igualmente destrutivo) processo de autoconhecimento.  

Desconforto parece ser o sentimento chave neste longa. O horror abstrato, a frieza da direção e a angustiante trilha sonora fazem deste filme uma experiência singular e memorável. “Sob a Pele” é um claro estudo sobre a figura humana, nosso comportamento e desejos que nos formatam como os seres que somos. O longa é uma lenta composição cruel e contemplativa, sendo parcialmente livre para interpretação enquanto informa o mínimo possível. Scarlett Johansson constrói, neste filme, uma personagem que lentamente é engolida por sua humanidade cosmética. No final, é fácil criar empatia pela predadora e sentir um desconforto crescer dentro de nós mesmos. “Sob a Pele” é primorosamente eficaz em sua proposta.

Palo Alto (2013)

Direção: Gia Coppola

Palo Alto 3Filmes que tratam das relações e dinâmicas da juventude correm o risco de transmitirem uma visão demasiadamente plástica e burguesa. Este costuma ser o meu problema com alguns dos trabalhos de diretores como Richard Linklater e Sophia Coppola, os danos advindos do sacrifício do conteúdo em prol do formato (ou da intencional ausência deste). Se estamos falando sobre as diferentes formatações emocionais de uma juventude, acaba sendo mais interessante investir no desenvolvimento de personagens com problemáticas adversas do que no quão avant-garde seu longa pode ser. “Palo Alto” consegue isto.

Acompanhamos um grupo de jovens, singulares em apresentação e desenvolvimento, enquanto lidam com as diferentes crises que vivem. April (Emma Roberts) é uma garota insegura de sua sexualidade e vê o interesse de seu treinador de futebol, Mr. B (James Franco), por ela como uma oportunidade de passagem em direção à vida adulta. Fred (Nat Wolff) vive uma vida desregrada que cultiva com grande orgulho. Seu comportamento grosseiro e revoltado é claramente uma fachada para esconder uma pessoa insegura e problemática. Teddy (Jack Kilmer) é um jovem de potencial, mas se permite voltar a protagonizar situações destrutivas de forma acidental e irresponsável como se isso o mantivesse emocionalmente seguro. “Palo Alto” veste a carapuça dos pretensiosos filmes adolescentes para contar uma série de histórias interligadas, todas sobre amadurecimento e os medos inconscientes que parasitam nossas cabeças.

2015 Re-Cap (Parte Um)

2015 foi um ano excepcional para mim. Finalmente pude adiantar alguns projetos (meus dois zines) e começar a correr atrás do atraso dos filmes que havia perdido. Dessa forma, me pareceu natural fazer algumas recomendações do que pude assistir durante o ano. A intenção aqui é falar sobre alguns longas que podem ter circulado por debaixo do radar midiático, não dos melhores filmes dos últimos anos. Mas de qualquer forma, todos aqui listados possuem qualidades interessantes e dignas de nota.

Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014)

Direção: Ana Lily Amirpour

Garota Sombria“Garota Sombria (…)” é um filme interessante do começo ao fim. Somos apresentados a cidade fantasma iraniana chamada “Bad City” e acompanhamos a rotina de seus poucos habitantes. Arash (Arash Marandi) é um jovem que tenta ganhar a vida e lidar com os vícios de seu pai, Hossein (Marshall Manesh). Durante um momento de coragem, ao tentar recuperar seu carro roubado por um notório traficante, Arash acaba cruzando com uma misteriosa garota (Sheila Vand) e com uma bizarra cena de crime. O longa segue pela ótica dos dois, seus respectivos encontros e desenvolvimentos através das noites monocromáticas.

O filme é uma mistura interessante de elementos de Terror, Romance e Velho Oeste e, de alguma forma, consegue trabalhar muito bem as suas limitações dentro dessa proposta. A direção tem grande peso neste malabarismo, as composições visuais e construção de tensão são simples e bem realizadas. Cenas são memoráveis e impactantes da mesma forma que possuem grande apelo artístico intimista. Vale também pontuar o ótimo uso de música. “Bad City” se torna um personagem uma vez que tem seu silêncio colocado em contraste com a trilha sonora eclética.

Lunar (2009)

Direção: Duncan Jones

Moon 3Sam Bell (Sam Rockwell) está há três anos a serviço em uma base de mineração na lua. Seu trabalho é relativamente simples, deve monitorar e reparar os veículos mineradores que percorrem o satélite. O único contato com a Terra se dá através de mensagens gravadas que troca com sua esposa Tess (Dominique McElligot), onde parecem conversar sobre possíveis problemas que tenham tido quando Sam ainda estava em casa. O personagem passa a maior parte do tempo acompanhado pelo robô GERTY (voz de Kevin Spacey), seu único companheiro na solitária missão que logo deve se encerrar. “Lunar” é um daqueles filmes que são complicados de se falar sobre sem estragar algumas surpresas bastante interessantes (e outras que são óbvias e fáceis de telegrafar). De qualquer forma, o longa é uma ficção científica clássica. O ritmo é lento o bastante para criar momentos contemplativos e deixar cada cena respirar, mas dinâmico o suficiente para não ser maçante. A trilha sonora é outra qualidade latente e trabalha muito a favor da obra.

Blue Ruin (2014)

Direção: Jeremy Saulnier

Blue RuinConhecemos um homem misterioso, quieto e melancólico que vive do lixo e dorme no carro. Dwight (Macon Blair) é um homem adulto atormentado, preso em um estágio adolescente desde o assassinato de seus pais. Logo, uma oficial de polícia aparece e gentilmente alerta o personagem de que o homem que arruinou a sua vida vai ser solto, fazendo-o ir atrás do assassino para buscar vingança. Assim começa “Blue Ruin”, um dos meus filmes preferidos.

Dwight é um personagem fraco que possui uma motivação extremamente forte. Ele não só fugiu de sua própria dor como abandonou outros para lidar com ela. Mesmo preparado para levar suas ações às últimas consequências e ser autor de diversas brutalidades durante o filme, sempre existe horror e sofrimento em seu semblante. “Blue Ruin” é um filme sobre vingança e a cruel violência que envolve o ato, não existe glamour ou lição de moral e sentimos a todo o momento como tudo aquilo marca profundamente nosso protagonista e nos afunda junto.