Vamos Falar Sobre: Carol

CarolNão saber muito sobre o filme é, quase sempre, uma boa pedida. A ausência de expectativas somada à possível surpresa, seja pelo formato ou conteúdo, acaba por criar um impacto intenso e uma imersão notável. Com noção prévia das mais simples, foi dessa forma que assisti “Carol” (2015). O novo longa de Todd Haynes é lento em apresentação da mesma forma que é realista, não há dificuldades na inserção de terceiros. Com um foco narrativo simples e ótimas performances, o filme, que se mantém linear, consegue se destacar entre outros que acompanham seu lançamento nacional. Mesmo, pessoalmente, tendo passado por uma péssima sessão, guardo memórias bastante doces da obra.

A história se passa na cidade de Nova Iorque em 1950. Therese Belivet (Rooney Mara) é uma garota introspectiva, confusa sobre seus desejos e estagnada em sua vida. Passa a maior parte de seu tempo divida entre o trabalho, em uma loja de brinquedos, e com seu namorado Richard Semco (Jake Lacy). Durante os turbulentos momentos de véspera natalina, Therese tem sua atenção presa a uma elegante mulher mais velha chamada Carol Aird (Cate Blanchett). Mesmo em posições diferentes (compradora e vendedora em classes sociais distintas) as duas mulheres entram em sintonia de forma simples e agradável. Com a elegante senhora deixando suas luvas para trás, Therese ganha um motivo para iniciar um contato com Carol. Lentamente, as duas mulheres vão se aproximando, ganhando intimidade e confiança. Não tarda para que ambas reconheçam como se sentem e, de forma lenta e cautelosa, iniciem uma relação amorosa. As personagens veem uma na outra alguém que pode suprir as ausências emocionais que sentem.

“Carol” é um filme pautado em grandes interpretações. Com poucos personagens sendo formalmente apresentados, acompanhamos o intenso desenvolvimento da relação das duas protagonistas de forma focada e lenta. Cada pequeno avanço emocional ou problemática tem seu devido tempo para respirar. A versatilidade de Rooney Mara é notável, sua personagem passa por uma intensa transformação durante a narrativa. Ao nos aproximarmos da conclusão, estamos acompanhando uma Therese mais determinada e independente. Cate Blanchett tem alguns dos momentos mais impactantes do filme, levando sua personagem a protagonizar uma ampla variedade de emoções intensas. O mundo burguês de Carol se mostra terrivelmente artificial, onde seu marido, Harge Aird (Kyle Chandler), se recusa a aceitar a sexualidade de sua esposa, sendo incapaz de lidar com a recente separação do casal. Um ponto interessante do longa é a forma como ele utiliza seus personagens masculinos. Não seria exagero dizer que, praticamente, todos os homens do filme têm como objetivo acidentalmente interromper os delicados momentos das duas protagonistas, ter intenções sexuais com alguma delas ou simplesmente representar a opressora conduta normativa da época. Considero este um importante acerto da obra no momento em que somos facilmente convencidos a não confiar plenamente em nenhuma figura masculina, reforçando ainda mais o sentimento empático originário da relação entre Carol e Therese. A depender do personagem, existe ingenuidade nestes comportamentos. Richard, por exemplo, tem seus momentos antagônicos sendo motivados por confusão emocional. Reiterando como os indivíduos e as relações de poder operavam na década representada, ser sexista e homofóbico era o modus operandi.

CAROL

Outra escolha interessante do filme é a sua apresentação. “Carol” tem longas sequências predominantemente esverdeadas, passando uma imagem hiper-realista de Nova Iorque e da década. Da mesma forma, nos pontuais momentos de variação de cor, existe um belo casamento entre as construções visuais e a trilha sonora. O problema é quando estes momentos são escassos e acabamos acompanhando extensas sequências que se aproximam do desagradável e esteticamente cansativo. Destaque para o poético uso de vidros e janelas, compondo brilhantemente o distanciamento emocional que vitima as personagens. O longa é cheio de enquadramentos criativos e inteligentes. Em especial, quando a personagem de Rooney Mara é vista através das limitações de sua pequena gaveta no trabalho.

“Carol” não é um filme simples, muito de seu valor encontra-se para além de sua história. A relação desenvolvida entre Therese e Carol é extremamente sincera e comovente, mas pode parecer cansativa para aqueles desacostumados com um material mais lento. Sendo uma adaptação de uma obra literária homônima (na versão nacional), fico curioso para saber quais as particularidades e diferenças na estrutura narrativa. Independe do gosto pessoal, “Carol” é uma obra feita de forma inteligente. Seus cortes e sobriedade distinta conseguem manter o tom de realismo, enquanto as performances nos entregam uma relação amorosa bonita e forte. O filme não é perfeito, por vezes parece tropeçar em uma ausência de substância. Mas o saldo final é bastante positivo, ou pelo menos o suficiente para que seja fácil relevar seus problemas. Quando possível, pretendo assistir novamente ao longa e tenho certeza de que encontrarei mais em um segundo momento.

Anúncios

2015 Re-Cap (Parte Três)

 

A Viatura (2015)

Direção: Jon Watts

Cop CarTravis (James Freedson-Jackson) e Harrison (Hays Wellford) são dois garotos que decidem “fugir” de casa e se aventurar pelas planícies. Após alguns minutos caminhando a esmo, a dupla encontra uma viatura de polícia vazia em uma locação incomum, tomando o veículo como um achado que, agora, os pertence. Após algumas tentativas frustradas, os garotos conseguem guiar o automóvel da melhor forma possível e seguem em direção à estrada asfaltada. Logo, conhecemos uma sequência alternativa de eventos que nos apresenta ao corrupto xerife Kretzer (Kevin Bacon) e a mesma viatura estacionada no meio do matagal. Com as histórias entrelaçadas, inicia-se uma intensa busca que não pode chegar aos olhos de terceiros. Culminando em uma conclusão surpreendentemente sangrenta. Tanto Travis quando Harrison tem seu momento libertador e infantil jogado em um abismo de violência.

O longa não se esmera em seu roteiro, mas parece se dedicar bastante na criação de tensão e de momentos visualmente bem realizados. Até o fatídico encontro entre o xerife e a dupla, existe distinção clara, na luz e na composição de cena, entre os respectivos momentos de cada seguimento do filme. Vale também destacar as performances dos dois atores mirins, que surpreendem com uma boa variedade de expressões e um bom trabalho corporal. “A Viatura” é, provavelmente, o melhor trabalho de Jon Watts e entrega uma experiência satisfatória. Aqueles que talvez se cansem da lenta primeira metade, vão apreciar uma extensa e catártica sequência final.

Corrente do Mal (2014)

Direção: David Robert Mitchell

it follows film stillJay Height (Maika Monroe) é uma jovem que tem expectativas românticas quanto ao seu primeiro contato sexual. Após um encontro sóbrio, a personagem tem suas expectativas consumadas, quando a vemos distraidamente deitada no carro de seu namorado. Neste momento de vulnerabilidade é, abruptamente, dominada e induzida a um estado de sono. Ao acordar, Jay se vê presa a uma cadeira no meio de um estacionamento abandonado. Naquele momento, seu parceiro revela que ela vai ser perseguida por alguma coisa misteriosa e que deve passar adiante da mesma forma que ele faz, através do contato sexual. Uma figura aparece ao longe durante a explicação, lentamente andando em direção à jovem. Assim tornando clara a aterrorizante realidade do fardo que ela carrega. Desse ponto em diante, acompanhamos Jay e seus amigos em busca de respostas e resoluções enquanto, constantemente, precisam fugir do perseguidor visível somente aos olhos de sua vítima.

“Corrente do Mal” é um terror bastante eficiente e intrigante ao apresentar uma alternativa inteligente para criar situações de desconforto e medo. Somos colocados na mesma situação que os personagens, sem entender ao certo o funcionamento da criatura e as regras que segue. Grande destaque para a direção de arte, fazendo um casamento interessante com as diversas situações tensas ao apresentar uma intensa variedade de tons dentro de um espectro de cor sóbrio. A trilha sonora, composta de sons sintéticos e densos, é um dos componentes mais importantes na construção de expectativa e na consumação do terror. “Corrente do Mal” é um filme flexível, podendo ser visto de forma analítica ou junto com um grupo de amigos, lembrando bastante alguns bons longas de terror de décadas passadas.

Kumiko, a Caçadora de Tesouros (2014)

Direção: David Zellner

kumikoKumiko (Rinko Kikuchi) é uma figura deslocada do resto da cidade de Tóquio. Extremamente introspectiva, passa a maior parte do tempo dentro de seu pequeno e caótico apartamento, junto de seu coelho de estimação, enquanto assiste ao filme “Fargo” (1996) de forma religiosa. A obsessão de Kumiko pela obra, assim como seu profundo desgosto pelas expectativas alheias, é algo fora do comum, ela realmente acredita que o longa de Joel Coen conte uma história real. Assistindo sempre a mesma fita VHS, Kumiko realiza anotações minuciosas sobre a localização final do dinheiro que movimenta a trama do filme. Passando por abusos e estresse em seu trabalho, assim como as constantes ligações de sua mãe, a personagem decide tentar a sorte e ir atrás do que acredita ser o seu destino: encontrar o dinheiro de “Fargo”.

O filme é um drama bastante envolvente, colocando uma figura emocionalmente e psicologicamente perdida como foco empático. Kumiko está sempre em destaque nas multidões de Tóquio, seja pelo corporal ou pelas cores vibrantes de suas roupas. É clara a ideia de que aquele lugar não representa nada para ela além de responsabilidades forçadas e artificiais, por isso somos apresentados a ângulos desconfortáveis e cinzentos da cidade. Tanto os pequenos (e grandes) abandonos necessários para sua empreitada quanto os riscos criminais que corre, reforçam a personagem como alguém desesperada e que, por ímpeto próprio, criou a fantasia sobre o dinheiro enterrado e seu destino. “Kumiko (…)” é uma experiência comovente e com um final poderoso. Talvez um dos filmes mais bonitos que assisti neste último ano.

Vamos Falar Sobre: Spotlight: Segredos Revelados

S_09159.CR2

Foi de forma despretensiosa que, recentemente, fui assistir “Spotlight: Segredos Revelados” (2015). O motivo é relativamente simples, o novo filme de Tom McCarthy é o clássico longa feito para ganhar premiações. Não me levem a mal, não é como se eu evitasse este tipo de material (afinal, estou bastante empolgado para ver outros que se encaixam na mesma linha), mas costumo ser seletivo com esta “categoria” de filme. “Spotlight” não me surpreendeu por ser bom, já era óbvio que abaixo da média ele não seria, o charme da obra vem de seus pequenos momentos e decisões criativas. A simplicidade é carismática.

No filme, acompanhamos a redação do jornal “The Boston Globe” e as mudanças advindas da chegada do novo chefe, o sóbrio Marty Baron (Liev Schreiber). Uma das alterações significativas que Baron faz no jornal é com a equipe investigativa liderada por Walter Robinson (Michael Keaton), que recebe um pedido formal para investigar um notório caso engavetado de pedofilia envolvendo um padre. Acatando ao pedido, Robinson e sua equipe começam a tirar a poeira por debaixo do tapete da cidade de Boston, descobrindo que o caso possui raízes profundas. O trabalho jornalístico investigativo sincero do quarteto começa a desvelar um dos maiores escândalos de pedofilia já acobertados.

“Spotlight” é uma história real e por isso aprecio a apresentação simples e focada no processo de investigação. A equipe é composta por figuras comuns, não existe glamour ou heroísmo. Este é um dos grandes méritos da narrativa do filme, seus personagens. Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é um dos membros da equipe, talvez o mais idealista e apaixonado dentre eles. Pouco sabemos sobre sua vida pessoal, mas é bastante claro os sacríficos que faz pelo seu trabalho como jornalista. Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) tem uma vida estável com seu marido em Boston. Após a investigação tomar um escopo maior e mais grave que o esperado, os pequenos momentos onde acompanha sua avó à igreja se tornam angustiantes e perturbadores. Matt Carroll (Brian d’Arcy James) é um pai de família que sofre a cada nefasto detalhe descoberto, estressado, graças à empatia que sente pelas famílias destruídas. No final, Matt acaba sendo uma das figuras mais relacionáveis, mesmo tendo menos tempo de tela que seus colegas.

SpotlightAs interpretação contidas são cheias de pequenas sutilezas, em especial as performances de Keaton, Schreiber e Ruffalo. Estes três são protagonistas de momentos cativantes, onde prendem nossa atenção com grande facilidade. O personagem de Stanley Tucci, o advogado Mitchell Garabedian, entrega diálogos poderosos durante todo o longa, forçando o publico a reconhecer aqueles horrores como eles verdadeiramente são. Assim como a trilha sonora de Howard Shore, pontua muito bem o tom pesaroso do filme.

Por mais que sejam ofuscados pela história e os personagens, existem pequenos problemas em “Spotlight”. A passagem de tempo, vital para reconhecermos o árduo trabalho da investigação, é um tanto quanto nebulosa, salvo um determinado momento onde somos relembrados da época onde se passa o longa. A parcial negligência do tempo não chega a falhar com o conjunto da obra, mas deixa um pouco a desejar. O meu maior problema com o filme talvez seja a sua falta de ambição, em especial as composições de cena e trabalho de câmera. Normalmente, este seria um aspecto que relevaria ao se tratar de uma narrativa investigativa clássica, mas fica difícil evitar quando cenas pontuais beiram o genial. Existem determinados momentos durante o longa, momentos de grande peso, onde o trabalho de câmera nos entrega algo refrescante e inteligente. O mesmo vale para as composições de cena, também pontualmente apresentando momentos de grande lirismo. As belíssimas experimentações acabam criando um contraste muito grande com o resto do filme, que acaba por se apresentar de forma genérica e esperada. Não consigo evitar de pensar que “Spotlight” poderia ter sido uma experiência bastante rica se tivesse arriscado mais. Mas vale lembrar que ambos os problemas existem, pois o material está à altura de complicações específicas como estas. Existe mérito por toda parte. “Spotlight” talvez se perca no tempo, mas vale uma recomendação.

2015 Re-Cap (Parte Dois)

 

Boulevard (2015)

Direção: Dito Montiel

BoulevardNolan Mack (Robin Williams) é um calado homem idoso que tem uma rotina bastante banal ao lado de sua esposa Joy (Kathy Baker). Acorda cedo para ir trabalhar no banco, aonde vem sendo cotado para uma promoção, logo em seguida volta para casa, janta e vai dormir em um quarto separado de sua esposa. Nolan é uma figura melancólica que parece se perder em pensamentos ao dirigir pelas ruas noturnas, procurando algo entre seus olhos naturalmente marejados pela idade. Durante um dos rotineiros momentos de introspecção ao dirigir, Nolan decide abordar um jovem garoto de programa chamado Leo (Roberto Aguire). O personagem continua a seguir em passos lentos, se permitindo viver a vida que queria ter tido.

“Boulevard” é um filme mediano em praticamente todos os aspectos, mas acredito existir mérito, neste caso, ao se apoiar em tal mediocridade. A história de um homem idoso se aceitando como homossexual é contada de forma extremamente realista quando clichês e dramas hollywoodianos são evitados, tudo parece palpável e cru. Grande mérito, também, para as interpretações contidas e sinceras de Williams e Baker.  O último trabalho de Robin Williams não eleva o filme, mas é mais do que o suficiente para contar uma boa e simples história.

Sob a Pele (2013)

Direção: Jonathan Glazer

Under The Skin 2O filme começa com uma sequência de imagens que transmite certa estranheza, algo como mecanismos de uma tecnologia abstrata parecem trabalhar. Logo vemos nossa personagem, uma misteriosa e bela mulher (Scarlett Johansson), parada ao lado de uma chorosa e jovem garota paralisada. O espaço que dividem, de brancura infinita e impossível, é inusitadamente desconfortável. A estranha mulher começa a, sistematicamente, simular o comportamento humano, seduzindo homens solitários a segui-la em direção a uma bizarra armadilha. Com o passar do tempo, nossa misteriosa predadora entra em um complexo (e igualmente destrutivo) processo de autoconhecimento.  

Desconforto parece ser o sentimento chave neste longa. O horror abstrato, a frieza da direção e a angustiante trilha sonora fazem deste filme uma experiência singular e memorável. “Sob a Pele” é um claro estudo sobre a figura humana, nosso comportamento e desejos que nos formatam como os seres que somos. O longa é uma lenta composição cruel e contemplativa, sendo parcialmente livre para interpretação enquanto informa o mínimo possível. Scarlett Johansson constrói, neste filme, uma personagem que lentamente é engolida por sua humanidade cosmética. No final, é fácil criar empatia pela predadora e sentir um desconforto crescer dentro de nós mesmos. “Sob a Pele” é primorosamente eficaz em sua proposta.

Palo Alto (2013)

Direção: Gia Coppola

Palo Alto 3Filmes que tratam das relações e dinâmicas da juventude correm o risco de transmitirem uma visão demasiadamente plástica e burguesa. Este costuma ser o meu problema com alguns dos trabalhos de diretores como Richard Linklater e Sophia Coppola, os danos advindos do sacrifício do conteúdo em prol do formato (ou da intencional ausência deste). Se estamos falando sobre as diferentes formatações emocionais de uma juventude, acaba sendo mais interessante investir no desenvolvimento de personagens com problemáticas adversas do que no quão avant-garde seu longa pode ser. “Palo Alto” consegue isto.

Acompanhamos um grupo de jovens, singulares em apresentação e desenvolvimento, enquanto lidam com as diferentes crises que vivem. April (Emma Roberts) é uma garota insegura de sua sexualidade e vê o interesse de seu treinador de futebol, Mr. B (James Franco), por ela como uma oportunidade de passagem em direção à vida adulta. Fred (Nat Wolff) vive uma vida desregrada que cultiva com grande orgulho. Seu comportamento grosseiro e revoltado é claramente uma fachada para esconder uma pessoa insegura e problemática. Teddy (Jack Kilmer) é um jovem de potencial, mas se permite voltar a protagonizar situações destrutivas de forma acidental e irresponsável como se isso o mantivesse emocionalmente seguro. “Palo Alto” veste a carapuça dos pretensiosos filmes adolescentes para contar uma série de histórias interligadas, todas sobre amadurecimento e os medos inconscientes que parasitam nossas cabeças.

Vamos Falar Sobre: Os Oito Odiados

odiadosTenho uma relação bastante positiva com os trabalhos do diretor Quentin Tarantino, desde o singular “Jackie Brown” (1998) até o excessivo “Bastardos Inglórios” (2009). Logo, não é surpresa alguma que seu oitavo filme, “Os Oito Odiados” (2015), também me tenha sido de grande agrado. É interessante ver um Tarantino que trabalha com algumas marcas e vícios de suas primeiras obras, mas com a grandeza de suas produções mais recentes. As densas três horas de filme tornam um tanto quanto complexa a tarefa de tentar discutir este longa, mas aí vai minha tentativa.

Seguimos uma carruagem pela floresta nevada, paisagens colossais e opressoras. A natureza é praticamente infinita, assim como o isolamento que transmite. Temos nosso olhar preso a uma figura de Jesus feita de madeira, parcialmente coberta pela neve. Pouco a pouco cresce a tensa trilha sonora, como se estivéssemos em um filme de terror. A ausência de vida selvagem assim como de Deus é clara, estamos prestes a testemunhar o verdadeiro inferno. Após uma longa e bem construída introdução, vemos Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) na estrada. A carruagem para logo à frente, onde o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) e sua prisioneira, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), decidem, após certa discussão, amparar o homem. Continuamos seguindo a carruagem pelo caminho que vai se tornando cada vez mais tortuoso devido ao clima intenso. Neste meio tempo, conhecemos um pouco mais sobre Warren e seu passado como soldado da União durante a Guerra Civil Americana. Pouco tempo depois, outra figura aparece na estrada. Um homem de sotaque sulista bastante forte chamado Chris Mannix (Walton Goggins), que se apresenta como novo xerife da cidade onde John Ruth planeja ir para entregar sua perigosa prisioneira. Sem muita opção, John é obrigado a também ajuda-lo. Com o improvável quarteto formado, além do cocheiro, vemos a carruagem ser lentamente engolida por uma nevasca, que os faz buscar abrigo em um pequeno estabelecimento. Lá dentro, conhecemos outras figuras que estão presas devido ao clima: Bob (Demián Bichir), o dono substituto do local; Oswaldo Mobray (Tim Roth), o executor da cidade mais próxima; o misterioso Joe Gage (Michael Madsen) e Sandy Smithers (Bruce Dern), velho general que lutou pelos confederados. Não demora muito para tensões se transformarem em violência, engolindo a todos no mortal jogo de suspeitas.

odiados 2“Os Oito Odiados” conta com grandes performances, em espacial os personagens Chris Mannix e Daisy Domergue. Walton Goggins consegue, ao longo do filme, fazer seu personagem racista e de passado duvidoso ser estranhamente cativante, chegando até a ocupar, em alguns momentos, a figura do “mocinho” (muito entre aspas). Jennifer Jason Leigh acaba se tornando a catalisadora de alguns dos momentos mais interessantes do ponto de vista emocional. Sua personagem é constante vítima de agressões brutais, que causam um desconforto real em quem assiste. Isto para que, momentos depois, sejamos relembrados da pessoa terrível que a sua personagem é. Daisy talvez seja uma das figuras femininas mais fortes dos últimos anos, sem precisar criar qualquer empatia ou ter um arco para conseguir isto. Devo admitir ter ficado bastante decepcionado com o desempenho de Tim Roth. Seu personagem, Oswaldo Mobray, acaba repetindo à dinâmica, já desgastada, dos papéis normalmente interpretados por Christoph Waltz em outros trabalhos do mesmo diretor. É cansativo ter, mais uma vez, um personagem de sotaque estrangeiro e extremamente polido sendo autor de respostas “engraçadas”. Fora isso, foi refrescante poder assistir Kurt Russell atuando de forma tão forte e sincera.odiados 6Se existe algum fator que move o longa para frente a todo o momento e que consegue compensar pelos pouquíssimos problemas, é a trilha sonora fantástica de Ennio Morricone. Um dos receios que tinha com a trama era por culpa do diretor Quentin Tarantino. O homem é gênio, em diferentes níveis de apreciação, mas também é verdade que esta é a sua oitava produção e nós o conhecemos. Seus gostos peculiares pela gravação em filme (e não em formato digital) e efeitos práticos gloriosamente exagerados que beiram o cômico. Outra característica marcante de seus filmes é a violência como clímax, o que cria certa previsibilidade em suas tramas. “Os Oito Odiados” é a desculpa perfeita para ter um cenário onde um tiroteio sangrento funciona como única opção para os possíveis desdobramentos. Não me levem a mal, não estou criticando o uso de violência do Tarantino, estou comentando sobre a previsibilidade que vem com esta repetição. Lembra quando, mais duas horas de filme adentro, em “Django Livre” (2013), chegamos à gloriosa sequência do final? Foi incrível, excitante e extremamente bem feita, não foi? Mas todos sabiam que ela estava chegando, mesmo aqueles que evitaram qualquer contato prévio com o material. Como então não ser previsível em um filme como “Os Oito Odiados”, onde a maior parte da história acontece com personagens perigosos confinados no mesmo ambiente? Foi aí que Morricone brilhou. A trilha sonora foge muito do convencional do próprio Tarantino. Desde o começo do longa, somos invadidos por composições pesadas e carregadas de antecipação pelo horror que vem a seguir. O constante uivo do vento da nevasca que isola o ambiente do resto do mundo é um grande criador de tensão. Todo o trabalho de som é excepcional. Ennio Morricone, aqui, opera menos como compositor de trilhas para Velho Oeste e mais como quando trabalhou em “O Enigma de Outro Mundo” (1982). Não é à toa que uma das músicas do filme é uma peça de áudio do clássico de terror de John Carpenter (utilizada três vezes durante o longa). “Os Oito Odiados” compensa pela sua previsibilidade parcial quando se comporta mais como um “terror” e menos como “Cães de Aluguel” (1992).

É bastante óbvio que, neste filme, Tarantino quer comentar sobre a formação dos Estados Unidos como país. Ao ambientar sua obra logo após a Guerra Civil Americana, e forçar personagens de diferentes lados a lidarem uns com os outros, reforça a ideia de uma nação erguida sobre pilares de violência e contradição. A carta do presidente Abraham Lincoln, que Warren carrega, se torna o núcleo de momentos bastante interessantes e destoantes do resto. Problemas pontuais à parte, ele conseguiu o queria e o fez com grande primor. “Os Oito Odiados” pode não ser o melhor filme de Quentin Tarantino, mas é provavelmente um dos mais complexos e bem feitos.

2015 Re-Cap (Parte Um)

2015 foi um ano excepcional para mim. Finalmente pude adiantar alguns projetos (meus dois zines) e começar a correr atrás do atraso dos filmes que havia perdido. Dessa forma, me pareceu natural fazer algumas recomendações do que pude assistir durante o ano. A intenção aqui é falar sobre alguns longas que podem ter circulado por debaixo do radar midiático, não dos melhores filmes dos últimos anos. Mas de qualquer forma, todos aqui listados possuem qualidades interessantes e dignas de nota.

Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014)

Direção: Ana Lily Amirpour

Garota Sombria“Garota Sombria (…)” é um filme interessante do começo ao fim. Somos apresentados a cidade fantasma iraniana chamada “Bad City” e acompanhamos a rotina de seus poucos habitantes. Arash (Arash Marandi) é um jovem que tenta ganhar a vida e lidar com os vícios de seu pai, Hossein (Marshall Manesh). Durante um momento de coragem, ao tentar recuperar seu carro roubado por um notório traficante, Arash acaba cruzando com uma misteriosa garota (Sheila Vand) e com uma bizarra cena de crime. O longa segue pela ótica dos dois, seus respectivos encontros e desenvolvimentos através das noites monocromáticas.

O filme é uma mistura interessante de elementos de Terror, Romance e Velho Oeste e, de alguma forma, consegue trabalhar muito bem as suas limitações dentro dessa proposta. A direção tem grande peso neste malabarismo, as composições visuais e construção de tensão são simples e bem realizadas. Cenas são memoráveis e impactantes da mesma forma que possuem grande apelo artístico intimista. Vale também pontuar o ótimo uso de música. “Bad City” se torna um personagem uma vez que tem seu silêncio colocado em contraste com a trilha sonora eclética.

Lunar (2009)

Direção: Duncan Jones

Moon 3Sam Bell (Sam Rockwell) está há três anos a serviço em uma base de mineração na lua. Seu trabalho é relativamente simples, deve monitorar e reparar os veículos mineradores que percorrem o satélite. O único contato com a Terra se dá através de mensagens gravadas que troca com sua esposa Tess (Dominique McElligot), onde parecem conversar sobre possíveis problemas que tenham tido quando Sam ainda estava em casa. O personagem passa a maior parte do tempo acompanhado pelo robô GERTY (voz de Kevin Spacey), seu único companheiro na solitária missão que logo deve se encerrar. “Lunar” é um daqueles filmes que são complicados de se falar sobre sem estragar algumas surpresas bastante interessantes (e outras que são óbvias e fáceis de telegrafar). De qualquer forma, o longa é uma ficção científica clássica. O ritmo é lento o bastante para criar momentos contemplativos e deixar cada cena respirar, mas dinâmico o suficiente para não ser maçante. A trilha sonora é outra qualidade latente e trabalha muito a favor da obra.

Blue Ruin (2014)

Direção: Jeremy Saulnier

Blue RuinConhecemos um homem misterioso, quieto e melancólico que vive do lixo e dorme no carro. Dwight (Macon Blair) é um homem adulto atormentado, preso em um estágio adolescente desde o assassinato de seus pais. Logo, uma oficial de polícia aparece e gentilmente alerta o personagem de que o homem que arruinou a sua vida vai ser solto, fazendo-o ir atrás do assassino para buscar vingança. Assim começa “Blue Ruin”, um dos meus filmes preferidos.

Dwight é um personagem fraco que possui uma motivação extremamente forte. Ele não só fugiu de sua própria dor como abandonou outros para lidar com ela. Mesmo preparado para levar suas ações às últimas consequências e ser autor de diversas brutalidades durante o filme, sempre existe horror e sofrimento em seu semblante. “Blue Ruin” é um filme sobre vingança e a cruel violência que envolve o ato, não existe glamour ou lição de moral e sentimos a todo o momento como tudo aquilo marca profundamente nosso protagonista e nos afunda junto.

Vamos Falar Sobre: The Lobster

The Lobster 3Filmes focados em relações humanas tem um charme especial. Existe algo que consegue emergir acima dos possíveis problemas presentes no longa e deixar uma impressão intensa em quem assiste. Alguns dos meus filmes preferidos se encaixam, com facilidade, nessa descrição. Mas hoje não vamos de um dos meus favoritos, vamos falar de um filme que consegue trazer tantas coisas novas que acaba por compensar seus problemas. “The Lobster” (2015) de Yorgos Lanthimos.

Não sou um grande conhecedor da estrutura avant-garde no cinema, mas acredito ter a capacidade de apreciar qualquer obra, desde que esta possua visão e estilo. Originalidade é palavra. “The Lobster” é um filme com voz própria, da narrativa à estrutura. O longa nos apresenta um futuro distópico não tão distante onde solteiros são colocados em um hotel e forçados a, em quarenta e cinco dias, encontrar um parceiro. Aqueles que falham nessa tarefa são transformados no animal de sua escolha e jogados na natureza. David (Colin Farrell) é trocado por sua parceira na cidade e acaba por ser mandado para um hotel no meio da selva. Todos os pobres coitados, presos com ele, são reduzidos a nomes descritivos, criando uma clara ideia de ausência de profundidade em prol da afirmação superficial do arquétipo. A rotina é sempre muito regrada e limitadora, liberdades como escolha do vestuário, ir e vir, masturbação e contato com o mundo exterior são extintas. O único momento em que David e os outros podem se sentir vivos é quando são colocados para caçar os solitários que escaparam do sistema e agora vivem na selva, cada captura dá direito a mais dias na seleção em busca de um parceiro. É interessante notar que os solteiros são muito enfáticos na busca por traços de semelhança nos outros candidatos, o “Homem Que Manca de Uma Perna” (Ben Whishaw) vive decepcionado por ser o único solteiro com essa característica marcante. O filme faz questão de nos apresentar cada um dessa forma, para assim ressaltar que, enquanto arquétipos, todos ainda são tragicamente únicos e sozinhos.

A sátira social é clara durante todo o filme. Cada diálogo robótico e desconfortável está ali para pontuar algo sobre o homem em sociedade. Este é um ponto bastante positivo do longa, seu humor negro muito sincero. O hotel é a normatividade exigindo do individuo que siga padrões de conduta plásticos e burocráticos: encontre um parceiro em quarenta e cinco dias, passem duas semanas juntos, tiveram problemas ou brigas? Um filho será designado para amenizar, voltem para a cidade e vivam dessa forma.

Existe sutil deslocamento na fotografia e na trilha sonora que ajuda a tornar ainda mais visual o discurso e as temáticas. David é um homem emocionalmente expatriado e obrigado a fingir o contrário. Tudo se move a um ritmo interessante e estável, nos deixando na metade do filme com o equivalente a três atos bastante satisfatórios e até mesmo um final que seria corajoso por sua simplicidade, mas só chegamos à metade do longa e aí moram os problemas.

The Lobster 4A segunda parte de “The Lobster” vem dizer, de novo, tudo aquilo que já sabemos. É justo dar mérito ao que merece, algumas das melhores cenas estão nesses minutos de filme, mas a falta de substância é latente e quase criminosa com o ritmo outrora dinâmico. Personagens interessantes como “Líder dos Solitários” (Léa Seydoux) e “Mulher com Problema de Visão” (Rachel Weisz) são desperdiçados, deixados de fora do grande desenvolvimento temático da primeira metade. As interpretações são bastante boas durante todo o filme, mas parecem ganhar um espaço maior, uma vez que a selva se torna o cenário principal. Talvez essa mudança de ângulo e tom tenha sido intencional, a ideia aqui pode ser desenvolver melhor as relações interpessoais de cada um, fazendo do filme, até aquele ponto, somente uma construção para ser possível, mais tarde, fazer um detalhado estudo de personagem. O curioso é que o longa continua sendo extremamente interessante e incrivelmente bem feito quando assumimos ou não esse “talvez” como verdade, mas  em algum ponto no meio do caminho se perde o equilíbrio entre o palatável e o experimental.

“The Lobster” tem muito a seu favor, até mesmo seus problemas. Se você tem dificuldades com estruturas não convencionais, ainda vai tirar grande proveito das sátiras e das interpretações. Caso você seja um pouco mais aberto a diferentes olhares e goste quando tem suas pretensões correspondidas, vai encontrar no filme uma experiência original e bastante memorável. Qualquer que seja sua cabeça, o título comunica muito bem sua mensagem da forma mais estranha e sincera possível.

Vamos Falar Sobre: Denis Villeneuve

PRISONERSEste texto surgiu da vontade de falar sobre os temas e decisões criativas de Denis Villeneuve como diretor, após ter assistido e adorado “Sicario: Terra de Ninguém” (2015). Villeneuve tem uma filmografia relativamente extensa. É possível encontrar créditos onde é listado como diretor desde 1988. Quero então reforçar que falarei apenas dos filmes dos quais estou familiarizado, mas sinta-se livre para pontuar qualquer outro trabalho dele nos comentários

Tive minha primeira surpresa com Denis Villeneuve dois anos atrás enquanto assistia “Os Suspeitos” (2013). Filme simples e bastante focado em criar e alimentar uma atmosfera de desconforto, da qual sou um aficionado. Conhecemos Keller Dover (Hugh Jackman), homem de família, pacato que tem sua filha sequestrada. Os dias após o desaparecimento suspeito da criança seguem de forma tensa e melancólica. A família de Keller é jogada em um desespero infernal de onde fraquezas internalizadas começam a emergir, todas como forma de fuga da dor e da perda quase certa. Detetive Loki (Jake Gyllenhaal), jovem de carreira impecável, assume o caso que segue lento e bizarro. Desacreditado e tomado por suspeitas pouco sólidas, Keller decide investigar ilegalmente o caso da filha. Loki, que pouco a pouco vai descobrindo uma ferida profunda envolvendo casos de crianças desaparecidas ao longo dos anos, e Keller, que resolve tomar uma abordagem mais direta: capturar e torturar o estranho jovem de que suspeita. O longa tem seus três atos muito bem definidos, onde parecemos estar indo em direção a um verdadeiro inferno coletivo.

“Os Suspeitos” consegue sintetizar exatamente aquilo que sinto vendo o trabalho de cena, corte e composição do diretor. Denis Villeneuve parece ressignificar a atmosfera comum em seus filmes. A pequena cidade chuvosa é mostrada em tons frios de cinza, azul e marrom, enquanto as cenas de interiores variam entre o extremamente claro e a total escuridão. As tomadas são claustrofóbicas, mesmo se tratando de um horizonte florestado, podemos sentir o isolamento emocional de cada personagem. O desconforto do filme vem dessas decisões estéticas. Dessa forma, fazendo de uma premissa básica de thriller policial, um terror psicológico. “Os Suspeitos” é um filme pesado e muito bem feito, simples em forma e denso na apresentação.

Meu segundo encontro com Villeneuve foi em “O Homem Duplicado” (2013).enemy 2

“O Homem Duplicado” é consideravelmente mais complexo e pretencioso do que os outros trabalhos do diretor. Vemos uma Toronto doente, amarelada e cansada, assim como nosso principal, Adam Bell (Jake Gyllenhaal). Professor de história em uma universidade, o personagem é um homem preso em uma rotina tão genérica quanto sua personalidade. Assistindo a um filme com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), Adam nota um homem, um ator, fisicamente idêntico a ele. Logo nasce uma obsessão. O personagem de Gyllenhaal ganha vida ao mesmo tempo em que cresce sua curiosidade por seu sósia, Anthony. O filme segue por direções mais densas e viscerais, nos levando a duvidar se tudo aquilo é real ou parte de um conflito psicológico de Adam em busca de conexão e unificação. Aí existe o brilho do filme, dentro de suas ligações temáticas e visuais.

Assim como em “Os Suspeitos”, Villeneuve nos apresenta uma ideia velha sob uma nova faceta. Os personagens cheios de desejo, obsessão e confusão são refletidos pela própria Toronto abatida, assim como pela constante aparição surreal de criaturas semelhantes a aranhas. “O Homem Duplicado” dança entre cenas de profundo desconforto e momentos de impacto. Todo o processo é uma catarse que acaba por nos levar a um lugar bastante distante de onde estávamos no início, um lugar além daquela cidade amarela doente. O final do filme é o verdadeiro toque necessário para compreendermos melhor a natureza daquele mundo visto através olhos de Adam. É normal encontrar quem desmereça esse filme. No fundo, é o tipo de narrativa e estilo que transmite uma atração quase alienígena a audiências bastante específicas. Tanto o estilo febril quanto o desconforto agudo comunicam algo muito sincero sobre a natureza humana. Não por acaso, “O Homem Duplicado” é baseado no livro homônimo de Saramago (2002).

Para aqueles que já assistiram o longa, e foram pegos de surpresa pelo final, deixo uma lembrança do próprio filme, uma que talvez sirva mais do que qualquer análise: Caos é ordem ainda não decifrado.

Segundo informações um tanto quanto datadas (e o próprio IMDB), Denis Villeneuve será o diretor de um projeto ainda sem título de Blade Runner. Vendo como a transição de Villeneuve para os grandes orçamentos, com “Sicario”, se deu de forma elegante e respeitosa com as decisões criativas dele, fico empolgado pelo que virá do canadense. De resto ficam fortes recomendações sobre todos os filmes aqui comentados.

Vamos Falar Sobre: Call Me Lucky

Call Me Lucky 2Bobcat Goldthwait sempre me pareceu um diretor interessante, com filmes como “O Melhor Pai do Mundo” (2009) sendo simples e engraçados, até as estranhezas e falta de originalidade de “Willow Creek” (2013). De qualquer forma, independente dos altos e baixos, Goldthwait é, em essência, uma figura sincera e de grande potencial. Poucas horas atrás dei uma chance para o mais recente trabalho do diretor, dessa vez um documentário sobre alguém chamado Barry Crimmins. Esse texto não estava planejado e vai acabar servindo como uma postagem surpresa (até mesmo para o meu calendário), mas fico contente se pelo menos um de vocês também acabar por dar uma chance ao inconsistente Bobcat Goldthwait.

Tenho uma relação complicada com documentários focados em indivíduos. Esses, normalmente, são prolongadas sessões de elogios e sempre acabam deixando um gosto de previsibilidade. O filme acaba e eu me sinto saído de uma aula, não sou muito de didatismos. Felizmente, esse não é o caso com “Call Me Lucky” (2015). O longa é uma montanha russa emocional que deixa um gosto bastante complexo. Somos apresentados a Barry Crimmins, grande comediante dos anos 80 que tem um apurado senso crítico para comentário políticos. Crimmins é elevado a níveis superiores por vários colegas de profissão e pelo próprio diretor, que tem suas participações em cena como mais um entrevistado. Por mais que exista certa repetição no teor e contexto dos elogios, a simplicidade visual e os cortes inteligentes do documentário deixam o ritmo dinâmico e instigante. Conhecemos o personagem através das histórias contadas em cada entrevista, criando assim uma empatia cúmplice e sincera pelo homem.

Barry Crimmins era (e ainda é) uma figura complicada. Faz uso de sua pouca paciência para enaltecer a comédia e as críticas em seus shows, foi inimigo declarado dos governos de Ronald Reagan e George H. W. Bush e da forma reacionária como eles operavam. Em suas apresentações, Crimmins possuía uma aura mística de singularidade. Fundou o que veio a ser considerado o melhor grupo de comédia dos Estados Unidos da América e chegou a militar em diversos movimentos políticos, sempre de forma ácida e brutal. Bebendo muito e fumando durante suas apresentações, Barry era como a própria encarnação do stress, a fúria dos justos em uma época perigosamente bélica e doutrinária. Mas sempre parece faltar algo, talvez um detalhe ou acontecimento que é cortado ou mascarado na edição dos depoimentos. É aí que mora todo charme e amadurecimento do filme, em sua segunda metade. Assim como disse um dos entrevistados: quando conhecemos algo tão profundo e terrível sobre o passado de alguém somos forçados a reavaliar o quanto sabemos sobre aquela pessoa. Barry Crimmins é um individuo notável, que é perfeitamente digno da louvação que recebe de seus colegas e que teve muita sorte de ter se tornado quem é.

Toda a jornada apresentada durante o documentário fez com que me sentisse contente por, agora, conhecer Barry Crimmins. “Call Me Lucky” é uma peça interessante, desde sua simples e efetiva parte técnica até a complexidade emocional que proporciona, faz desse o melhor trabalho desse estranho diretor.

Vamos Falar Sobre: A Vida Marinha com Steve Zissou

Steve Zissou 3Não sou crítico de cinema, nem mesmo sei se consigo escrever algo que possa ser considerado uma “crítica válida”, mas vou dar uma chance para mim mesmo e desde já peço desculpas para a alta cúpula dos “opineiros” de cinema.

Ontem, tive o prazer de finalmente assistir “A Vida Marinha com Steve Zissou” (2004) do diretor Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste). Sou um grande amante da estética “falsa” do diretor e de sua equipe criativa, onde cenários ocos são desvelados de forma bidimensional em tomadas longas e suaves. Os vícios do Wes Anderson podem, quase sempre, permanecer os mesmos, mas o quão predominante é o uso desse estilo, é algo que varia bastante a depender do projeto. Em “A Vida Marinha com Steve Zissou”, somos apresentados a uma realidade onde os trejeitos e marcas visuais do diretor são extrapolados. Todo o ecossistema marinho é surreal em forma e cor, mas simples em realização. Foi uma surpresa bastante agradável aos olhos, já que assim integra muito bem os pontos narrativos.

Steve Zissou (Bill Murray), agora velho e esnobado pelo grande circuito científico, é um oceanógrafo que construiu uma carreira na indústria dos documentários sobre a vida marinha. Em sua mais recente produção, ele e seu parceiro de longa data, Esteban (Seymour Cassel), são atacados por uma misteriosa criatura que o próprio Steve nomeia de Tubarão Jaguar. Esse episódio acaba por custar à vida de seu parceiro e criar grande sofrimento ao personagem. O plano para a segunda parte do documentário é simples, caçar a criatura que ninguém acredita existir. Steve, atormentado pela perda de seu amigo e desmerecido pelo público, luta para conseguir financiamento para sua empreitada, enquanto descobre que talvez possua um filho já adulto, Ned Plimpton (Owen Wilson). A caçada por uma criatura que somente os olhos do já perturbado personagem capturaram, a relação complicada e disfuncional entre Ned e Steve, os problemas com a tripulação e as péssimas tomadas de decisão do capitão, nos contam uma história sobre aceitação da perda e a união desse grupo de figuras problemáticas. Steve Zissou é um velho tentando provar que ainda pode ser bom, tentando viver para cumprir as expectativas que os outros, e ele mesmo, criaram em cima dele.

Assim como em “Grande Hotel Budapeste” e “A Viagem para Darjeeling”, Wes Anderson nos encanta com uma trágica história que une seus personagens com base no sofrimento comum. É interessante pensar em como essa fórmula coloca o público numa postura de grande afeição por todas aquelas figuras improváveis. “A Vida Marinha com Steve Zissou” nos faz ver o mundo pela ótica do personagem do Bill Murray e facilmente emociona com seu final encantador. Somos mais um membro da tripulação, dentro daquele pequeno submarino amarelo nos perguntando “será que ele se lembra de mim?”.