Vamos Falar Sobre: A Apreciação de Filmes B

b movie 3De acordo com os conceitos clássicos, na Era de Ouro de Hollywood, um filme B era aquele que completava a segunda metade de uma sessão de exibição. Normalmente se tratava de uma produção barata, permeada por clichês e com personagens recorrentes. Após a prática da dupla exibição entrar em desuso por volta de 1950, o termo passou a ser mais abrangente, podendo definir uma variedade de materiais. As primeiras produções de velho oeste deram lugar à ficção cientifica de aventura e ao terror teatral. A evolução, tanto do termo quanto do produto, passou por sua transformação mais drástica nos anos oitenta, com o nascimento de tecnologias de captação mais baratas e do VHS. Filmes de “exploitation” (aqui em inglês por falta de uma tradução que melhor contemple o termo), visando quase que exclusivamente o lucro, fundaram o que hoje é amplamente considerada uma época de exageros precários e do fracasso artístico absoluto, redefinindo o conceito do filme B. Qualidade à parte, acredito que exista um poderoso valor histórico nesta subindústria de produção cinematográfica, títulos que hoje vêm sendo redescobertos como tentativas que resultaram em brilhantes acidentes cômicos e pequenas pérolas escondidas por entre o entulho.

A Inesperada Virtude do Fracasso Alheio

Assim como tipografia e música, existe temperatura no cinema, algo sinestésico e metafísico que transcende a forma aparente. É esta notável abstração que diferencia produções como “Kung Fury” (2015) de “Turbo Kid” (2015), obras que dividem tanto a época que foram feitas quanto o momento histórico cultural que referenciam. Um filme que se esforça para criar algo interessante exige trabalho e visão de seus criadores, algo que funcione como assinatura própria. Um bom filme ruim é aquele que é concebido com a intenção de ser bom. “Turbo Kid” foge um pouco da regra do “fracasso artístico total” porque consegue, objetivamente, entreter não por seus erros, mas por seus acertos ao referenciar os anos oitenta. O pouco orçamento e temática é que o colocam nesta categoria. É interessante notar como as indústrias de produção tentaram, ao longo dos anos, invadir esta subcultura. Títulos como “Sharknado” (2013) falham exatamente naquilo que o longa antes citado acerta, a latente ausência de temperatura e carisma fazem da peça de 2013 uma falha conceitual, uma vez que é concebida com o intuito de ser um filme propositalmente ruim.

O entretenimento por trás de filmes como “Samurai Cop” (1991) e “The Galaxy Invader” (1985), é extremamente flexível. As confusas decisões de roteiro que levam a situações constrangedoras e inexplicáveis são terrivelmente engraçadas e memoráveis, mas existe algo além. Mesmo estas notáveis aberrações cinematográficas foram produzidas na tentativa de fazer algo bem feito. Seus criadores, basicamente, realizaram uma caótica colagem dos elementos que compunham os respectivos gêneros. Como adolescentes com uma câmera na mão, mimetizaram aquilo que já haviam observado em obras mais famosas e bem conceituadas, dando origem a um produto final que possui um charme alienígena dos mais sinceros e empáticos. O verdadeiro deleite por trás da apreciação de filmes B existe na possibilidade real e prática daquilo na tela poder ser feito por qualquer um. É quase como uma declaração de amor ao ato de criar, mesmo vindo de projeções que visam apenas o lucro como objetivo final.

Notáveis Produções

Xtro (1983)

b movie 10Um dos títulos mais interessantes que o lado B do cinema pode oferecer é “Xtro”. Uma verdadeira surpresa, o longa é uma das ficções científicas mais ousadas e sinceras que já tive o prazer de assistir, balanceando perfeitamente o charme de seu baixo orçamento com construções visuais engenhosas e criativas. O roteiro de “Xtro” é outro deleite à parte, sendo coeso e simples, a narrativa do terror cósmico entrega momentos legitimamente perturbadores. Nada vem gratuitamente, cada grande sequência é resultado de uma situação arquitetada anteriormente, criando uma confortável sensação de progressão dinâmica ao filme. Assim como “Turbo Kid”, é quase bom demais para ser citado neste texto.

Things (1989)

b movie 8“Things” é uma experiência para poucos, conseguindo ser, ao mesmo tempo, um longa intrigante e frustrante, ambos resultado da obtusa e confusa apresentação do filme. Sendo uma cópia de “A Morte do Demônio” (1981), acompanhamos homens de meia idade, que se apresentam como jovens, enquanto passeiam de forma confusa e caótica por uma cabana na floresta. Logo, obviamente, pequenas criaturas de borracha sem articulação os atacam, levando a uma série de situações onde fica ainda mais inevitável não notar as múltiplas referências e cenas imitadas. A parte mais interessante de “Things” é imaginar o seu processo de produção, desde o áudio que tem um dos piores ADR já feitos até o confuso e perdido roteiro. O longa é como algo feito por alienígenas.

Miami Connection (1987)

b movie 9Assinando o roteiro, a direção e o papel principal, o orador motivacional Y. K. Kim criou uma verdadeira aberração dos filmes de arte marcial. Conflitos entre bandas que lutam diferentes estilos, uma gangue de ninjas que acaba interferindo em uma grande transação ilegal de narcóticos e a busca por uma figura paterna há muito perdida, “Miami Connection” é absurdamente caótico. O título, assim como “Samurai Cop”, é a visão de um diretor estrangeiro dos filmes de ação americanos oitentistas, tornando-o um verdadeiro estudo antropológico. O bizarro desenrolar do filme entrega uma confusa experiência catártica, que acontece de forma tão súbita quanto contraditória. No fim, “Miami Connection” se torna uma das peças mais singulares e notáveis do nicho, criando comicidade de forma completamente acidental.

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Vamos Falar Sobre: A Bruxa

bruxa 3O terror é um gênero que vem enfrentando um grande problema nos últimos anos, o público. Feito de sutilezas e tensões, o estilo que se desenvolve diretamente da literatura é extremamente complexo. Assim como qualquer outro gênero, o terror vive em constante reformulação, sendo cobaia das indústrias de produção. Simplificando, as lentas narrativas cósmicas de H.P. Lovecraft deram origem aos filmes “Slasher” dos anos oitenta, assim como o respectivo subgênero de décadas passadas veio a se tornar a febre das produções de “Found Footage” dos últimos anos. Seguindo os princípios da evolução das espécies, nem sempre mudança quer dizer melhora, ainda mais na produção cinematográfica. Não sou saudosista, acredito que cada reformulação do gênero (mesmo quando preguiçosa) é válida por questões singulares e específicas, mas se existe um grande problema na progressiva simplificação do terror, este é a plateia. Acostumado com a narrativa repetitiva dos sustos baratos, é difícil para o público mediano encontrar empatia em uma construção lenta e lírica do gênero. Esta foi exatamente a reação que pude observar ao assistir “A Bruxa” (2015), onde as pessoas parecem não saber o que sentir e acabam se voltando para o tédio e a frustração. Entretanto, independente da inequação condicionada do público, o longa é belíssimo e acerta em cheio aquilo que mais pesa em uma narrativa clássica de terror, a construção de uma atmosfera desconfortável e impactante.

Acompanhamos uma família de protestantes ingleses, residentes nas Américas em meados de 1630, ao serem exilados do vilarejo onde viviam. Instalando-se no limiar da floresta densa e fechada, o grupo inicia seu processo de adaptação ao isolamento. Após um terrível e macabro evento acometer uma criança de colo, o mais jovem dos cinco irmãos, a fervorosa família tem sua fé e união questionada pela presença de uma bruxa na floresta. Pouco a pouco, todo o grupo, dos mais jovens aos mais velhos, se torna vítima da traiçoeira e diabólica entidade – e uns dos outros.

Logo nos imponentes ângulos dos minutos iniciais do longa, temos Thomasin (Anya Taylor-Joy), a filha mais velha, como protagonista. Desde o perceptível desgosto de sua mãe por ela, até os olhares de desejo de seu irmão mais jovem, Caleb (Harvey Scrimshaw), a jovem é a pária da fé como agente destrutivo, algo que o filme explora bastante. Thomasin, mesmo dentro das condutas religiosas que segue, se revela para além de sua inocência aparente, guiando a narrativa para lugares mais complexos e intrigantes. O patriarca da família, William (Ralph Ineson), funciona de forma interessante, sendo tanto uma figura de intensa pregação quanto se acovardando (ou omitindo-se) nos momentos críticos. William é a face do pensamento religioso fervoroso, exigindo que os outros paguem por fraquezas que o próprio comete. Katherine (Kate Dickie) é uma mãe amargurada por todas as mazelas que os cercam, passando por um processo enlouquecedor ao longo da obra. Os olhares desgostosos que dirige a sua filha mais velha podem ser traduzidos como inveja, seja da beleza carnal da juventude ou da pretensão da pureza, algo que vai contra sua postura fanática religiosa. Os personagens principais são terrivelmente anacrônicos, representando a falência da fé e de Deus. Não é à toa que em determinado momento um dos personagens faz a comparação do exílio que sofreram com o encontro bíblico com o diabo, algo que se traduz belissimamente na conclusão do filme.

bruxa 6Um dos grandes méritos do longa é a sua fotografia e direção, seja pelo uso inteligente de luz ou pelas composições visuais intensas. Ao anoitecer, a utilização de velas como fonte de iluminação indireta cria um belo jogo de luz e sombra, envolvendo os personagens na escuridão que predomina espacialmente na tela. É clara a ideia das trevas e do macabro dominando a família, tornando a vastidão selvagem claustrofóbica e estática. Uma vez dentro da floresta fechada, existe uso das incontáveis árvores secas contorcidas sobrepostas aos personagens, funcionando como uma opressora gaiola de espinhos. Logo, a simples imagem do limiar entre os riachos e a floresta se torna desconfortável, transformando a paisagem natural em uma visão dantesca. Os animais, selvagens e da pequena fazenda da família, são desprovidos de qualquer beleza romântica, quase sempre de pelos eriçados e olhos vidrados. Esta apresentação da vida selvagem consegue transfigurar a imagem de uma pequena e esguia lebre em um presságio maldito, com requintes de ritualismo pagão (sem falar do bode da família, é claro). Para completar a composição primorosamente acertada do longa, vale pontuar como a trilha sonora vem para dizer o indizível e nos manter sempre em desconforto. Desde composições mais clássicas até o chacoalhar ritualístico que compõe um determinado (e memorável) momento, o trabalho é surpreendente.

“A Bruxa” é um terror simples e efetivo, resgatando uma das “criaturas” mais simbólicas do gênero. Todo o filme se comporta como uma narrativa mítica (como pontua o subtítulo original), os elementos são cruelmente relacionáveis e trazem a consciência da obra na forma dos desfechos individuais. O longa desconstrói a ideia do estreitamento dos laços sanguíneos através da fé, colocando os personagens em cheque ao personificar a bruxa a partir de suas tentações, desejos, obsessões e pecados. O filme é um deleite para os aficionados pela arte de contar histórias macabras, trabalhando com conceitos e elementos imagéticos clássicos enquanto, ao mesmo tempo, desenvolve e cria seus próprios. “A Bruxa” não é para todo mundo, é necessária a completa dissociação do medo com o susto. O filme é como história sendo contada na fogueira, fazendo muito com muito pouco. Em minha opinião, o título consegue entrar no seleto e eclético grupo das grandes obras do terror moderno.

Vamos Falar Sobre: A Garota Dinamarquesa

danish 2Existe um constante problema dentro da prática (profissional ou não) da crítica de filmes. Cada vez mais pessoas parecem confundir a qualidade do tema com o êxito cinematográfico da obra. Longas que apresentam temáticas simples e cotidianas, mas trazem algo novo e ousado em sua estrutura e técnica, são taxados como “satisfatórios” e reduzidos de forma injusta. Do lado mais tóxico do problema, existem filmes que são extremamente preguiçosos em sua visão artística, mas arrematam o público médio (e até parte da crítica especializada) por culpa do tema discutido. Exemplos notáveis estão por toda parte, desde filmes como “As Sufragistas” (2015), que mais parece uma série televisiva de baixo orçamento, até o mais novo longa do Tom Hooper, “A Garota Dinamarquesa” (2015). Relutei bastante sobre fazer ou não este texto, mas acabei cedendo depois de certa ponderação. Nada mais justo do que ser sincero sobre um título que encarna perfeitamente algumas de minhas frustrações sobre o cenário cinematográfico atual.

Acompanhamos a relação de um casal de pintores residentes em Copenhague em 1926. Einer Wegener (Eddie Redmayne) é um notório artista de paisagens, retratando repetidamente os cenários selvagens de sua cidade natal. Sendo, claramente, o indivíduo mais fragilizado da relação, Einer acompanha sua esposa Gerda (Alicia Vikander) em seus esforços por reconhecimento dentro da comunidade artística. Após um atraso por parte da modelo de um retrato inacabado de Gerda, Einer é convencido por sua esposa a vestir-se à caráter e posar para ela. Logo reascende um desejo a muito enterrado no passado do personagem, o pintor começa a sentir-se mais confortável e real quando dentro da sua persona, Lili. Assim começa a jornada de descobrimento de Einer como transgênero, algo, tristemente, ainda visto como uma patologia hoje em dia.

O primeiro ato de “A Garota Dinamarquesa” consegue tanto contar uma boa história quanto criar signos visuais interessantes. Logo na introdução do longa, uma sequência de paisagens selvagens (as mesmas retratadas por Einer) servem como compasso emocional e signo da “transgressão” de gênero do personagem. Dentro do apartamento do casal, Einer tem suas telas e materiais encolhidos em um dos cantos do cômodo, enquanto Gerda se apresenta sempre bastante próxima da tela e com a predominância espacial, desde o início pontuando os papéis exercidos por cada um na relação. O trabalho corporal de Eddie Redmayne também ajuda a desenvolver seu personagem, cheio de pequenos gestos delicados e contrastando com outras figuras masculinas. Alicia Vikander, por sua vez, nos apresenta uma mulher forte e independente, tomando as rédeas tanto das relações sexuais quanto dos ambientes sociais que divide com seu marido. Tudo parece correr relativamente bem até que, aos trinta minutos de filme, todo o esforço criativo e sincero simplesmente desaparece, nos deixando nas mãos de momentos bregas e piegas que seguem firmes até os minutos finais.

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O longa, constantemente, parece apressar o próprio ritmo, tentando encaixar o máximo possível de situações “emocionais” ao invés de deixar as mesmas respirarem e se desenvolverem dentro da temática. Além de tornar a obra terrivelmente enfadonha, a afobação acaba por transfigurar a atuação intensa e expressiva de Redmayne em algo teatral. Não exige muita ponderação para se concluir o óbvio, Tom Hooper tentou tanto nos fazer chorar que conseguiu (mais uma vez) fazer um filme que dança entre momentos legitimamente tristes e bizarramente circinais. A personagem mais interessante na tela, vivida por Alicia Vikander, consegue elevar os dramas paralelos que transcorrem internamente em Gerda, nos fazendo querer acompanhar mais dela do que a monótona e exagerada narrativa protagonizada por seu companheiro. Por fim, a conclusão do principal arco de desenvolvimento, assim como da transformação de Einer Wegener para Lili Elbe, resulta em uma das sequências mais, não intencionalmente, cômicas dos últimos tempos. Além de forçar uma ambientação que tornasse o momento mais doce, Hooper ainda é capaz de nos deixar com uma construção visual preguiçosa como ápice dramático. Em um último e triste esforço para nos fazer sentir algo, os momentos finais do filme voltam a trazer elementos do primeiro ato, criando uma noção transcendental e bela, que, mais uma vez, é estragada pelo roteiro medíocre.

“A Garota Dinamarquesa” é um filme que satisfaz por suas atuações intensas e temática das mais importantes, mas consegue transparecer o verdadeiro exercício de auto sabotagem que transcorre por detrás do drama. Não escrevo este tipo de texto com satisfação alguma, tanto que normalmente nem mesmo me daria o trabalho de fazê-lo, mas me incomoda muito ver infinitas avaliações e críticas serem cúmplices deste tipo de material. Praticamente todos que tem bom senso reconhecem a importância da temática apresentada e desenvolvida, ainda mais vindo de grandes estúdios e sendo amplamente distribuída, é fantástico. Mas nada disso faz de qualquer filme melhor do que ele realmente é. Existe mais no cinema do que temática. No fim do dia, “A Garota Dinamarquesa” falha naquilo que realmente importa, elevar o material de forma lírica e sincera.

Vamos Falar Sobre: A Grande Aposta

a grande aposta“A Grande Aposta” (2015), do diretor Adam McKay, é um filme que esperei ansiosamente desde suas primeiras peças publicitárias. O elenco de peso e as assinaturas da direção já pareciam uma receita pronta para algo com personalidade, mas foi o tema do longa que me colocou ainda mais em expectativa. McKay, apesar de dominar e reafirmar pontualmente seu domínio sobre a comédia, traz uma história complexa, dependente e permeada por termos e noções técnicas bastante específicas. Mesmo que ainda ansioso, foi com certa cautela que comecei a minha experiência com o filme. O prazer foi grande, fui conquistado logo de cara.

Michael Burry (Christian Bale) é uma figura estranha dentro do setor financeiro, normalmente vestindo-se de forma despojada e agindo com certa imprevisibilidade. Como se descobrisse uma falha singular e notável, o genial executivo começa a formatar uma terrível previsão lógica sobre o que viria a ser a crise imobiliária de 2008. Narrando os acontecimentos do longa, o ganancioso banqueiro Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe as bizarras movimentações financeiras de Burry e passa a montar um esquema para lucrar com o previsto desastre. Dentre aqueles que também acreditam na previsão e decidem apostar contra um dos mercados mais sólidos do país, está o irascível e idealista Mark Baum (Steve Carell) e sua equipe. De forma acidental e em menor escala, Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), dois jovens peixes pequenos recém-chegados em Wall Street, também começam a ir contra o mercado de habitação enquanto são aconselhados pelo experiente e sóbrio Ben Rickert (Brad Pitt). Com enormes quantias em risco, envolvendo um possível lucro ainda maior, acompanhamos os personagens durante seus conflitos financeiros, emocionais e éticos pelo período, previsto por Burry, de dois anos.

“A Grande Aposta” traz o humor cínico de Adam McKay (uma de suas marcas) somado a uma edição inteligente e bastante original. A câmera é um personagem por onde comentários, por vezes, são direcionados ao publico, seja para acrescentar ou desmentir pequenas liberdades poéticas dos acontecimentos. Nosso olhar, registrado pelo uso de câmera, é documental. A quarta parede parece existir quando é conveniente, da mesma forma que é quebrada quando o momento é ideal. Por mais que a narrativa se concentre em indivíduos gananciosos e de índole duvidosa (em sua maioria), sempre existe um elemento humano na inserção de fotografias de pessoas comuns em situações cotidianas. O longa sabe até onde levar suas piadas, respeitando o teor do tema. O filme é marcado, de forma pontual, por citações que conseguem enaltecer determinados momentos ou o tom humanizado destes (também deixando agudos momentos de calmaria onde é possível respirar e absorver a grande quantidade de informação que é constantemente despejada), passando por Mark Twain até Haruki Murakami. Quando os personagens se encontram discutindo termos e complicações específicas demais para o publico médio, o filme simplesmente engasga por um momento, quase sempre de súbito, e um convidado (novamente quebrando a quarta parede) aparece para explicar da melhor forma possível o que aquilo significa. Estes momentos podem parecer partir da pretensão da ignorância de quem assiste, mas o próprio longa faz questão de pontuar que aquele vocabulário existe para que as figuras de Wall Street se separem do resto, é artificialmente complexo e exagerado. Durante as devidas explicações existem pequenos erros de continuidade, que reforçam ainda mais a ideia da visão documental do filme. Toda a parte técnica de “A Grande Aposta” é carrega de personalidade e humor distinto, brincando com a noção comum de ficção e narrativa.

a grande aposta 2O longa se mantém focado no desenvolvimento e nas relações de poder durante os meses que antecedem a crise, mas ainda existem pequenos momentos onde mergulhamos, mesmo que de forma breve, nos personagens. Com o decorrer do filme, acabamos conhecendo um pouco do essencial de cada um. Sempre de forma cautelosa, evitando tornar-se uma narrativa puramente dramática e dependente do prolongado e constante desenvolvimento destes. O desempenho de Steve Carell parece caricato de inicio, mas logo entendemos a dinâmica de extremos por trás de sua interpretação. Seu personagem, Mark Baum, convence como compasso moral e emocional, sendo responsável por entregar sentenças poderosas e cheias de ideologias. Vale também elogiar a interpretação contida de Christian Bale, que mesmo tendo seu arco narrativo devidamente completo deixa um gosto amargo na garganta. Queria tê-lo por mais tempo na tela. Uma vez que a crise é consumada, ficamos totalmente dependentes dos personagens e de suas reações quanto ao terrível cenário catastrófico, obrigando o filme a amadurecer por completo. “A Grande Aposta” começa com tons de “O Lobo de Wall Street” (2013) e termina cruelmente trágico e realista.

Se existe algum problema que realmente chamou a atenção, estando eu procurando de forma minuciosa, seria a estrutura. Por poucas vezes o filme parece não saber exatamente aquilo que quer contar, se perdendo entre as tecnicalidades complexas e o humor cínico. Mas encaro isto de forma diferente do normal. A meu ver, “A Grande Aposta” tem licença poética para seus mínimos deslizes estruturais. Tratando de um assunto complicado, que machuca o orgulho do capital e da imagem sólida do sistema enquanto mantém seu caráter humorístico, acaba sendo mais que natural recorrer a algumas experimentações. O longa é uma forte e constante brisa de ar fresco, refrescante e corajosa. Por enquanto, “A Grande Aposta” foi o melhor filme que tive o prazer de assistir no cinema em 2016. Independente da temática complexa é cativante pelos motivos mais simples e humanos.

2015 Re-Cap (Parte Três)

 

A Viatura (2015)

Direção: Jon Watts

Cop CarTravis (James Freedson-Jackson) e Harrison (Hays Wellford) são dois garotos que decidem “fugir” de casa e se aventurar pelas planícies. Após alguns minutos caminhando a esmo, a dupla encontra uma viatura de polícia vazia em uma locação incomum, tomando o veículo como um achado que, agora, os pertence. Após algumas tentativas frustradas, os garotos conseguem guiar o automóvel da melhor forma possível e seguem em direção à estrada asfaltada. Logo, conhecemos uma sequência alternativa de eventos que nos apresenta ao corrupto xerife Kretzer (Kevin Bacon) e a mesma viatura estacionada no meio do matagal. Com as histórias entrelaçadas, inicia-se uma intensa busca que não pode chegar aos olhos de terceiros. Culminando em uma conclusão surpreendentemente sangrenta. Tanto Travis quando Harrison tem seu momento libertador e infantil jogado em um abismo de violência.

O longa não se esmera em seu roteiro, mas parece se dedicar bastante na criação de tensão e de momentos visualmente bem realizados. Até o fatídico encontro entre o xerife e a dupla, existe distinção clara, na luz e na composição de cena, entre os respectivos momentos de cada seguimento do filme. Vale também destacar as performances dos dois atores mirins, que surpreendem com uma boa variedade de expressões e um bom trabalho corporal. “A Viatura” é, provavelmente, o melhor trabalho de Jon Watts e entrega uma experiência satisfatória. Aqueles que talvez se cansem da lenta primeira metade, vão apreciar uma extensa e catártica sequência final.

Corrente do Mal (2014)

Direção: David Robert Mitchell

it follows film stillJay Height (Maika Monroe) é uma jovem que tem expectativas românticas quanto ao seu primeiro contato sexual. Após um encontro sóbrio, a personagem tem suas expectativas consumadas, quando a vemos distraidamente deitada no carro de seu namorado. Neste momento de vulnerabilidade é, abruptamente, dominada e induzida a um estado de sono. Ao acordar, Jay se vê presa a uma cadeira no meio de um estacionamento abandonado. Naquele momento, seu parceiro revela que ela vai ser perseguida por alguma coisa misteriosa e que deve passar adiante da mesma forma que ele faz, através do contato sexual. Uma figura aparece ao longe durante a explicação, lentamente andando em direção à jovem. Assim tornando clara a aterrorizante realidade do fardo que ela carrega. Desse ponto em diante, acompanhamos Jay e seus amigos em busca de respostas e resoluções enquanto, constantemente, precisam fugir do perseguidor visível somente aos olhos de sua vítima.

“Corrente do Mal” é um terror bastante eficiente e intrigante ao apresentar uma alternativa inteligente para criar situações de desconforto e medo. Somos colocados na mesma situação que os personagens, sem entender ao certo o funcionamento da criatura e as regras que segue. Grande destaque para a direção de arte, fazendo um casamento interessante com as diversas situações tensas ao apresentar uma intensa variedade de tons dentro de um espectro de cor sóbrio. A trilha sonora, composta de sons sintéticos e densos, é um dos componentes mais importantes na construção de expectativa e na consumação do terror. “Corrente do Mal” é um filme flexível, podendo ser visto de forma analítica ou junto com um grupo de amigos, lembrando bastante alguns bons longas de terror de décadas passadas.

Kumiko, a Caçadora de Tesouros (2014)

Direção: David Zellner

kumikoKumiko (Rinko Kikuchi) é uma figura deslocada do resto da cidade de Tóquio. Extremamente introspectiva, passa a maior parte do tempo dentro de seu pequeno e caótico apartamento, junto de seu coelho de estimação, enquanto assiste ao filme “Fargo” (1996) de forma religiosa. A obsessão de Kumiko pela obra, assim como seu profundo desgosto pelas expectativas alheias, é algo fora do comum, ela realmente acredita que o longa de Joel Coen conte uma história real. Assistindo sempre a mesma fita VHS, Kumiko realiza anotações minuciosas sobre a localização final do dinheiro que movimenta a trama do filme. Passando por abusos e estresse em seu trabalho, assim como as constantes ligações de sua mãe, a personagem decide tentar a sorte e ir atrás do que acredita ser o seu destino: encontrar o dinheiro de “Fargo”.

O filme é um drama bastante envolvente, colocando uma figura emocionalmente e psicologicamente perdida como foco empático. Kumiko está sempre em destaque nas multidões de Tóquio, seja pelo corporal ou pelas cores vibrantes de suas roupas. É clara a ideia de que aquele lugar não representa nada para ela além de responsabilidades forçadas e artificiais, por isso somos apresentados a ângulos desconfortáveis e cinzentos da cidade. Tanto os pequenos (e grandes) abandonos necessários para sua empreitada quanto os riscos criminais que corre, reforçam a personagem como alguém desesperada e que, por ímpeto próprio, criou a fantasia sobre o dinheiro enterrado e seu destino. “Kumiko (…)” é uma experiência comovente e com um final poderoso. Talvez um dos filmes mais bonitos que assisti neste último ano.

2015 Re-Cap (Parte Dois)

 

Boulevard (2015)

Direção: Dito Montiel

BoulevardNolan Mack (Robin Williams) é um calado homem idoso que tem uma rotina bastante banal ao lado de sua esposa Joy (Kathy Baker). Acorda cedo para ir trabalhar no banco, aonde vem sendo cotado para uma promoção, logo em seguida volta para casa, janta e vai dormir em um quarto separado de sua esposa. Nolan é uma figura melancólica que parece se perder em pensamentos ao dirigir pelas ruas noturnas, procurando algo entre seus olhos naturalmente marejados pela idade. Durante um dos rotineiros momentos de introspecção ao dirigir, Nolan decide abordar um jovem garoto de programa chamado Leo (Roberto Aguire). O personagem continua a seguir em passos lentos, se permitindo viver a vida que queria ter tido.

“Boulevard” é um filme mediano em praticamente todos os aspectos, mas acredito existir mérito, neste caso, ao se apoiar em tal mediocridade. A história de um homem idoso se aceitando como homossexual é contada de forma extremamente realista quando clichês e dramas hollywoodianos são evitados, tudo parece palpável e cru. Grande mérito, também, para as interpretações contidas e sinceras de Williams e Baker.  O último trabalho de Robin Williams não eleva o filme, mas é mais do que o suficiente para contar uma boa e simples história.

Sob a Pele (2013)

Direção: Jonathan Glazer

Under The Skin 2O filme começa com uma sequência de imagens que transmite certa estranheza, algo como mecanismos de uma tecnologia abstrata parecem trabalhar. Logo vemos nossa personagem, uma misteriosa e bela mulher (Scarlett Johansson), parada ao lado de uma chorosa e jovem garota paralisada. O espaço que dividem, de brancura infinita e impossível, é inusitadamente desconfortável. A estranha mulher começa a, sistematicamente, simular o comportamento humano, seduzindo homens solitários a segui-la em direção a uma bizarra armadilha. Com o passar do tempo, nossa misteriosa predadora entra em um complexo (e igualmente destrutivo) processo de autoconhecimento.  

Desconforto parece ser o sentimento chave neste longa. O horror abstrato, a frieza da direção e a angustiante trilha sonora fazem deste filme uma experiência singular e memorável. “Sob a Pele” é um claro estudo sobre a figura humana, nosso comportamento e desejos que nos formatam como os seres que somos. O longa é uma lenta composição cruel e contemplativa, sendo parcialmente livre para interpretação enquanto informa o mínimo possível. Scarlett Johansson constrói, neste filme, uma personagem que lentamente é engolida por sua humanidade cosmética. No final, é fácil criar empatia pela predadora e sentir um desconforto crescer dentro de nós mesmos. “Sob a Pele” é primorosamente eficaz em sua proposta.

Palo Alto (2013)

Direção: Gia Coppola

Palo Alto 3Filmes que tratam das relações e dinâmicas da juventude correm o risco de transmitirem uma visão demasiadamente plástica e burguesa. Este costuma ser o meu problema com alguns dos trabalhos de diretores como Richard Linklater e Sophia Coppola, os danos advindos do sacrifício do conteúdo em prol do formato (ou da intencional ausência deste). Se estamos falando sobre as diferentes formatações emocionais de uma juventude, acaba sendo mais interessante investir no desenvolvimento de personagens com problemáticas adversas do que no quão avant-garde seu longa pode ser. “Palo Alto” consegue isto.

Acompanhamos um grupo de jovens, singulares em apresentação e desenvolvimento, enquanto lidam com as diferentes crises que vivem. April (Emma Roberts) é uma garota insegura de sua sexualidade e vê o interesse de seu treinador de futebol, Mr. B (James Franco), por ela como uma oportunidade de passagem em direção à vida adulta. Fred (Nat Wolff) vive uma vida desregrada que cultiva com grande orgulho. Seu comportamento grosseiro e revoltado é claramente uma fachada para esconder uma pessoa insegura e problemática. Teddy (Jack Kilmer) é um jovem de potencial, mas se permite voltar a protagonizar situações destrutivas de forma acidental e irresponsável como se isso o mantivesse emocionalmente seguro. “Palo Alto” veste a carapuça dos pretensiosos filmes adolescentes para contar uma série de histórias interligadas, todas sobre amadurecimento e os medos inconscientes que parasitam nossas cabeças.