Vamos Falar Sobre: A Apreciação de Filmes B

b movie 3De acordo com os conceitos clássicos, na Era de Ouro de Hollywood, um filme B era aquele que completava a segunda metade de uma sessão de exibição. Normalmente se tratava de uma produção barata, permeada por clichês e com personagens recorrentes. Após a prática da dupla exibição entrar em desuso por volta de 1950, o termo passou a ser mais abrangente, podendo definir uma variedade de materiais. As primeiras produções de velho oeste deram lugar à ficção cientifica de aventura e ao terror teatral. A evolução, tanto do termo quanto do produto, passou por sua transformação mais drástica nos anos oitenta, com o nascimento de tecnologias de captação mais baratas e do VHS. Filmes de “exploitation” (aqui em inglês por falta de uma tradução que melhor contemple o termo), visando quase que exclusivamente o lucro, fundaram o que hoje é amplamente considerada uma época de exageros precários e do fracasso artístico absoluto, redefinindo o conceito do filme B. Qualidade à parte, acredito que exista um poderoso valor histórico nesta subindústria de produção cinematográfica, títulos que hoje vêm sendo redescobertos como tentativas que resultaram em brilhantes acidentes cômicos e pequenas pérolas escondidas por entre o entulho.

A Inesperada Virtude do Fracasso Alheio

Assim como tipografia e música, existe temperatura no cinema, algo sinestésico e metafísico que transcende a forma aparente. É esta notável abstração que diferencia produções como “Kung Fury” (2015) de “Turbo Kid” (2015), obras que dividem tanto a época que foram feitas quanto o momento histórico cultural que referenciam. Um filme que se esforça para criar algo interessante exige trabalho e visão de seus criadores, algo que funcione como assinatura própria. Um bom filme ruim é aquele que é concebido com a intenção de ser bom. “Turbo Kid” foge um pouco da regra do “fracasso artístico total” porque consegue, objetivamente, entreter não por seus erros, mas por seus acertos ao referenciar os anos oitenta. O pouco orçamento e temática é que o colocam nesta categoria. É interessante notar como as indústrias de produção tentaram, ao longo dos anos, invadir esta subcultura. Títulos como “Sharknado” (2013) falham exatamente naquilo que o longa antes citado acerta, a latente ausência de temperatura e carisma fazem da peça de 2013 uma falha conceitual, uma vez que é concebida com o intuito de ser um filme propositalmente ruim.

O entretenimento por trás de filmes como “Samurai Cop” (1991) e “The Galaxy Invader” (1985), é extremamente flexível. As confusas decisões de roteiro que levam a situações constrangedoras e inexplicáveis são terrivelmente engraçadas e memoráveis, mas existe algo além. Mesmo estas notáveis aberrações cinematográficas foram produzidas na tentativa de fazer algo bem feito. Seus criadores, basicamente, realizaram uma caótica colagem dos elementos que compunham os respectivos gêneros. Como adolescentes com uma câmera na mão, mimetizaram aquilo que já haviam observado em obras mais famosas e bem conceituadas, dando origem a um produto final que possui um charme alienígena dos mais sinceros e empáticos. O verdadeiro deleite por trás da apreciação de filmes B existe na possibilidade real e prática daquilo na tela poder ser feito por qualquer um. É quase como uma declaração de amor ao ato de criar, mesmo vindo de projeções que visam apenas o lucro como objetivo final.

Notáveis Produções

Xtro (1983)

b movie 10Um dos títulos mais interessantes que o lado B do cinema pode oferecer é “Xtro”. Uma verdadeira surpresa, o longa é uma das ficções científicas mais ousadas e sinceras que já tive o prazer de assistir, balanceando perfeitamente o charme de seu baixo orçamento com construções visuais engenhosas e criativas. O roteiro de “Xtro” é outro deleite à parte, sendo coeso e simples, a narrativa do terror cósmico entrega momentos legitimamente perturbadores. Nada vem gratuitamente, cada grande sequência é resultado de uma situação arquitetada anteriormente, criando uma confortável sensação de progressão dinâmica ao filme. Assim como “Turbo Kid”, é quase bom demais para ser citado neste texto.

Things (1989)

b movie 8“Things” é uma experiência para poucos, conseguindo ser, ao mesmo tempo, um longa intrigante e frustrante, ambos resultado da obtusa e confusa apresentação do filme. Sendo uma cópia de “A Morte do Demônio” (1981), acompanhamos homens de meia idade, que se apresentam como jovens, enquanto passeiam de forma confusa e caótica por uma cabana na floresta. Logo, obviamente, pequenas criaturas de borracha sem articulação os atacam, levando a uma série de situações onde fica ainda mais inevitável não notar as múltiplas referências e cenas imitadas. A parte mais interessante de “Things” é imaginar o seu processo de produção, desde o áudio que tem um dos piores ADR já feitos até o confuso e perdido roteiro. O longa é como algo feito por alienígenas.

Miami Connection (1987)

b movie 9Assinando o roteiro, a direção e o papel principal, o orador motivacional Y. K. Kim criou uma verdadeira aberração dos filmes de arte marcial. Conflitos entre bandas que lutam diferentes estilos, uma gangue de ninjas que acaba interferindo em uma grande transação ilegal de narcóticos e a busca por uma figura paterna há muito perdida, “Miami Connection” é absurdamente caótico. O título, assim como “Samurai Cop”, é a visão de um diretor estrangeiro dos filmes de ação americanos oitentistas, tornando-o um verdadeiro estudo antropológico. O bizarro desenrolar do filme entrega uma confusa experiência catártica, que acontece de forma tão súbita quanto contraditória. No fim, “Miami Connection” se torna uma das peças mais singulares e notáveis do nicho, criando comicidade de forma completamente acidental.

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Vamos Falar Sobre: Denis Villeneuve

PRISONERSEste texto surgiu da vontade de falar sobre os temas e decisões criativas de Denis Villeneuve como diretor, após ter assistido e adorado “Sicario: Terra de Ninguém” (2015). Villeneuve tem uma filmografia relativamente extensa. É possível encontrar créditos onde é listado como diretor desde 1988. Quero então reforçar que falarei apenas dos filmes dos quais estou familiarizado, mas sinta-se livre para pontuar qualquer outro trabalho dele nos comentários

Tive minha primeira surpresa com Denis Villeneuve dois anos atrás enquanto assistia “Os Suspeitos” (2013). Filme simples e bastante focado em criar e alimentar uma atmosfera de desconforto, da qual sou um aficionado. Conhecemos Keller Dover (Hugh Jackman), homem de família, pacato que tem sua filha sequestrada. Os dias após o desaparecimento suspeito da criança seguem de forma tensa e melancólica. A família de Keller é jogada em um desespero infernal de onde fraquezas internalizadas começam a emergir, todas como forma de fuga da dor e da perda quase certa. Detetive Loki (Jake Gyllenhaal), jovem de carreira impecável, assume o caso que segue lento e bizarro. Desacreditado e tomado por suspeitas pouco sólidas, Keller decide investigar ilegalmente o caso da filha. Loki, que pouco a pouco vai descobrindo uma ferida profunda envolvendo casos de crianças desaparecidas ao longo dos anos, e Keller, que resolve tomar uma abordagem mais direta: capturar e torturar o estranho jovem de que suspeita. O longa tem seus três atos muito bem definidos, onde parecemos estar indo em direção a um verdadeiro inferno coletivo.

“Os Suspeitos” consegue sintetizar exatamente aquilo que sinto vendo o trabalho de cena, corte e composição do diretor. Denis Villeneuve parece ressignificar a atmosfera comum em seus filmes. A pequena cidade chuvosa é mostrada em tons frios de cinza, azul e marrom, enquanto as cenas de interiores variam entre o extremamente claro e a total escuridão. As tomadas são claustrofóbicas, mesmo se tratando de um horizonte florestado, podemos sentir o isolamento emocional de cada personagem. O desconforto do filme vem dessas decisões estéticas. Dessa forma, fazendo de uma premissa básica de thriller policial, um terror psicológico. “Os Suspeitos” é um filme pesado e muito bem feito, simples em forma e denso na apresentação.

Meu segundo encontro com Villeneuve foi em “O Homem Duplicado” (2013).enemy 2

“O Homem Duplicado” é consideravelmente mais complexo e pretencioso do que os outros trabalhos do diretor. Vemos uma Toronto doente, amarelada e cansada, assim como nosso principal, Adam Bell (Jake Gyllenhaal). Professor de história em uma universidade, o personagem é um homem preso em uma rotina tão genérica quanto sua personalidade. Assistindo a um filme com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), Adam nota um homem, um ator, fisicamente idêntico a ele. Logo nasce uma obsessão. O personagem de Gyllenhaal ganha vida ao mesmo tempo em que cresce sua curiosidade por seu sósia, Anthony. O filme segue por direções mais densas e viscerais, nos levando a duvidar se tudo aquilo é real ou parte de um conflito psicológico de Adam em busca de conexão e unificação. Aí existe o brilho do filme, dentro de suas ligações temáticas e visuais.

Assim como em “Os Suspeitos”, Villeneuve nos apresenta uma ideia velha sob uma nova faceta. Os personagens cheios de desejo, obsessão e confusão são refletidos pela própria Toronto abatida, assim como pela constante aparição surreal de criaturas semelhantes a aranhas. “O Homem Duplicado” dança entre cenas de profundo desconforto e momentos de impacto. Todo o processo é uma catarse que acaba por nos levar a um lugar bastante distante de onde estávamos no início, um lugar além daquela cidade amarela doente. O final do filme é o verdadeiro toque necessário para compreendermos melhor a natureza daquele mundo visto através olhos de Adam. É normal encontrar quem desmereça esse filme. No fundo, é o tipo de narrativa e estilo que transmite uma atração quase alienígena a audiências bastante específicas. Tanto o estilo febril quanto o desconforto agudo comunicam algo muito sincero sobre a natureza humana. Não por acaso, “O Homem Duplicado” é baseado no livro homônimo de Saramago (2002).

Para aqueles que já assistiram o longa, e foram pegos de surpresa pelo final, deixo uma lembrança do próprio filme, uma que talvez sirva mais do que qualquer análise: Caos é ordem ainda não decifrado.

Segundo informações um tanto quanto datadas (e o próprio IMDB), Denis Villeneuve será o diretor de um projeto ainda sem título de Blade Runner. Vendo como a transição de Villeneuve para os grandes orçamentos, com “Sicario”, se deu de forma elegante e respeitosa com as decisões criativas dele, fico empolgado pelo que virá do canadense. De resto ficam fortes recomendações sobre todos os filmes aqui comentados.