Vamos Falar Sobre: Zootopia

zootopiaUm dos grandes atrativos em uma fábula é o seu valor de espelhamento da sociedade, levando-nos a observar, com relativo distanciamento, situações que se desenrolam em direção a uma moral aplicável. “Zootopia” (2016) é a evolução natural e literal deste conceito. Desde a animação espetacular até as pequenas soluções gráficas engenhosas, o desenvolvimento e esforço aplicado no longa é bastante transparente e de fácil percepção, sendo, ao mesmo tempo, necessária certa maturidade para apreciar o verdadeiro esforço temático da obra. Sem demonstrar cansaço ou hesitação, “Zootopia” entrega exatamente aquilo que era esperado – e um pouco mais.

Vindo de uma origem humilde, a coelha Judy Hopps (voz de Ginnifer Goodwin) sonha com grandeza, desde filhote, deixando clara suas intenções de desafiar o status quo, almejando se torna a primeira policial coelha e com isso fazer a diferença na vida dos mamíferos. Enfrentando adversidades práticas e os preconceitos do dia a dia, Judy consegue o trabalho de oficial no Departamento Policial de Zootopia, a famosa e caótica metrópole. Após passar por primeiros dias um tanto quanto complicados e emocionalmente desconcertantes, a personagem une forças com uma raposa cínica e sagaz, Nick Wilde (voz de Jason Bateman), visando resolver uma série de casos de predadores desaparecidos. A conspiração velada vem por abrir feridas políticas e sociais dentro da sociedade animal e reafirmar noções de convívio em meio à adversidade.

“Zootopia” é uma afiada representação da sociedade moderna, espelhando e explorando questões de gênero e raça dentro de uma obra extremamente flexível e palatável. A animação não é a primeira a ter múltiplas camadas de compreensão – “Divertida Mente” (2015) sendo outro forte e recente exemplo -, mas faz um habilidoso malabarismo com todas as temáticas disponíveis, deixando pouco de fora do escopo da obra. O crescimento pessoal e profissional de Judy Hopps, vindo do campo para a cidade grande e se tornando a primeira coelha policial, é uma bela alusão ao êxodo profissional e a inserção feminina em campos que outrora eram dominados por homens. A personagem principal é a primeira de uma série de figuras que diariamente se opõe as adversidades, uma luta que nem todos ainda mantêm de cabeça erguida. Nick Wilde, por exemplo, estaria do lado oposto do mesmo espectro, sofrido de forma tão profunda nas mãos do irracional ódio alheio que acabou, conscientemente, se tornando seu estereótipo designado. É constante a inserção de figuras que também correspondem a esta relação de preconceito, servindo de exemplificação para questões terrivelmente atemporais.

zootopia 2A animação também acerta em cheio ao representar as forças políticas e midiáticas como agentes poderosos dentro das relações em sociedade. A oponente, e sempre artificial, apresentação do prefeito é quase cômica, assim como sua clara preocupação com a própria imagem pública, colocando-se para além do bem coletivo. Um dos momentos mais fortes, para mim, é quando a vice-prefeita, uma pequena ovelha, revela a exploração que sofre, afirmando que sua nomeação para o cargo deve ter sido com o único intuito de o prefeito “ganhar os votos de outras ovelhas”. Momentos como este não são raros em “Zootopia”, categoricamente criando situações de subversão emocional, brincando sempre de forma elegante com os principais setores de descontentamento para com as minorias, parodiando-os. Mas a hipocrisia latente não é exclusiva das figuras antagonistas do longa. Todos os personagens possuem algum grau de preconceito e falhas morais que acabam por criar constrangimentos. A diferença, assim como na realidade, está no reconhecimento destas falhas e desconstrução individual, da negação do medo como forma de controle. É uma linha tênue que separa tematicamente os personagens, compondo-os de tons de cinza, o que me faz apreciar ainda mais o trabalho e as intenções do filme.

O humor do longa, por mais que tenha seus momentos de glória, é bastante simplista, podendo por vezes se tornar repetitivo e cansativo. Protagonizando a maioria destas situações cômicas estão alguns dos personagens mais descartáveis do filme, como o policial sempre faminto na recepção do prédio da corporação. Poucos são os meus problemas com o longa, coisas tão pormenores que, acredito, possam ser facilmente relevados, ainda mais se tratando de uma obra destinada ao público infantil. Algo que é interessante e problemático no filme é o seu esforço para desfazer a sensação e os elementos atemporais do próprio, criando trocadilhos e referencias diretas a tecnologias atuais e a cultura pop, servindo tanto como menor denominador cômico quanto acessório de roteiro dispensável que virão, em um futuro próximo, por datar o filme.

“Zootopia” é algo significativo e memorável, surpreendendo por sua trama simples contrastante com uma série de temáticas densas e ousadas decisões artísticas. Além de servir como prova de que ideias originais bem desenvolvidas possuem um charme distinto, a obra cativa por meios humildes e inteligentes, deixando uma confortável sensação após o desenrolar do arco temático da história. Brilhantemente delicado em apresentação e permeado por atuais, e necessárias, mensagens, “Zootopia” é uma incrível fábula que merece todos os louvores que vem recebendo.

Anúncios

Vamos Falar Sobre: O Quarto de Jack

room 6Premiações e indicações à parte, “O Quarto de Jack” (2015) é uma ótima experiência. O novo filme de Lenny Abrahamson funciona como desenvolvimento natural de sua carreira, elevando sua direção simples e linear a novos ápices temáticos e narrativos. É um tanto quanto difícil tentar separar a obra das altas expectativas que a cerca, mas é mais que recomendado. O ponto forte do longa é exatamente sua simplicidade. O resultado é algo notável e que se diferencia das produções mais, tecnicamente, complexas e épicas que também são exibidas nesta época de premiações. Desde os, parcialmente, lentos primeiros minutos ao prolongado e intrigante desenrolar dramático, o longa faz exatamente aquilo que se propõe a fazer e cativa com facilidade.

Jack (Jacob Tremblay) é uma criança que nunca viu o mundo exterior ao pequeno quarto onde nasceu e foi criado por sua mãe (Brie Larson), tendo conflitos para até mesmo entender a lógica por trás da existência de algo além daquele seu singular universo. Acompanhando diretamente sua visão de mundo, logo entendemos que a jovem mulher é vítima de um sequestro que já se estende por sete anos. Assumindo de forma esporádica a função de narrador, Jack, ao longo de seus cinco anos de vida, descreve uma particular e fantasiosa visão daquela terrível realidade, uma que minimiza e requalifica os problemas que enfrenta. Após ser introduzido, por sua mãe, a verdadeira situação de confinamento, o menino age, de forma planejada, como catalizador de uma sequência de momentos que acabam por livrar ambos do cárcere privado. Uma vez livres, mãe e filho enfrentam dificuldades para se reintroduzir na sociedade, um novo universo caótico e emocionalmente problemático para Jack.

A primeira metade do longa, com a dupla ainda em confinamento, explora e desenvolve a percepção do menino sobre seu limitado mundo. Jack encanta ao nos aproximar de sua doce e cuidadosamente construída visão, cheia de pequenas complexidades e justificativas que se completam de forma coesa. Acompanhando os olhos da criança, às vezes de forma literal, inicia-se uma descida em direção aos verdadeiros horrores que parasitam aquele quarto. O raptor, que tem cronogramas parar ir e vir, é uma figura simples e sem grandes traços de sua índole, periodicamente tendo relações sexuais com a personagem de Brie Larson enquanto Jack se encolhe dentro do armário a mando da mesma. Em outros instantes, o garoto tem que lidar com os dias nebulosos de sua mãe, que, em certos momentos, recusa-se a levantar da cama. Por consequência, Jack é extremamente amadurecido em determinados pontos da mesma forma que é subdesenvolvido em outros. Tendo a única e pequena entrada de luz natural, uma claraboia no teto, como explícito signo do além, esta se torna uma constante lembrança do confinamento para ambos (mesmo que exista variação na percepção individual). As relações desenvolvidas entre Jack e sua mãe se diferem por vezes, a depender das vivências e restrições de cada um, mas é inegavelmente e essencialmente bela e sincera.

room 2Um desenvolvimento mais denso acontece após a fuga do confinamento. A mãe do garoto, sequestrada aos dezessete anos, é obrigada a enfrentar a passagem do tempo que perdeu, indo do alívio da liberdade ao sofrimento de um pedaço de sua vida que nunca mais voltará. Brie Larson faz um trabalho espantoso, transformando intensas alterações de humor em gestos e expressões realistas, um verdadeiro e constante soco no estômago. Jack, por outro lado, enfrenta uma intensa desconstrução de tudo aquilo que considerava real. Ainda protagonizando pequenos e belos trechos descritivos de narração, o personagem se torna o farol emocional de sua família e do longa. Jack, por vezes, revela sentir falta do quarto onde ficou confinado, como se a ausência da constante certeza das dimensões do universo o deixassem desconfortável. Aos olhos do garoto, o quarto era maior porque se apresentava de forma constante e completa. É interessante notar que a dupla de protagonistas sai de um confinamento espacial para um emocional, elevando a temática da obra em toda sua sincera e bela crueldade.

“O Quarto de Jack” é um filme focado em sua narrativa, estabelecendo e desenvolvendo esta. Se por um lado a simplicidade técnica enaltece o cerne da obra, por outro pode transformar o longa em algo básico demais para ser memorável. Seria desonesto não prestar os devidos elogios, existe muito empenho em contar uma história extremamente interessante e bem construída. Mas parece faltar algo mais, algo que eleve o material para além de suas limitações, e isto faz falta. “O Quarto de Jack” é incrivelmente coeso e belo, merecendo tanto uma recomendação por minha parte quanto o reconhecimento que vêm recebendo da mídia.

Vamos Falar Sobre: O Regresso

revenantAlejandro González Iñárritu é um diretor de força e personalidade. Mesmo se isolarmos seus últimos dois trabalhos, fica bastante claro o brio e as marcas presente em seus longas. Uma memória que não custo em resgatar é como deixei a sessão de “Birdman” (2014), extremamente leve de um pé e cruelmente firme do outro. A parceria entre Iñárritu e Emmanuel Lubezki (diretor de fotografia) cria uma intensa atração visual, mesmo nos momentos mais simplórios e passivos. Coberto de louvor e carregando uma quantidade enorme de indicações ao Oscar, “O Regresso” (2015) tinha uma tarefa difícil, viver à altura de uma obra antecessora extremamente singular. Não faltam motivos para se alimentar dúvidas, todos parecem se digladiar para exaltar como o novo filme de Iñárritu é “só bom”. Mas a verdade é que, hoje, sinto estar por fora de alguma estranha histeria coletiva. “O Regresso” é uma obra prima.

Acompanhamos Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) e um grupo de homens que se aventuram pelas gélidas florestas americanas de 1820 atrás de peles de animais. Diferente do resto da expedição, Glass possui um passado com uma das populações nativas e um filho mestiço, Hawk (Forrest Goodluck), que o liga ao universo local. Após sofrerem um ataque surpresa, poucos sobreviventes escapam através do rio e perdem o trabalho de toda uma temporada. Logo recai ao civilizado Capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson) tentar liderar sua corja irascível e instável em direção à segurança. Desde cedo é bastante clara a existência de um atrito entre Hugh Glass, alguém que claramente possui ligações com as populações nativas, e John Fitzgerald (Tom Hardy), um homem problemático que foi parcialmente escalpelado no passado. Vítima de um brutal ataque de urso pardo, Glass se torna um fardo para a equipe e logo é deixado para trás nas mãos de voluntários. Não custa para que Fitzgerald se aproveite do isolamento parcial e arquitete contra o ferido, assassinando seu filho e o deixando para morrer. Estripado de seu último pedaço de felicidade, Glass, que sobrevive ao abandono de seus homens, inicia uma árdua jornada de sobrevivência e vingança.

Por mais redundante que seja, sinto-me obrigado a pontuar como “O Regresso” é tecnicamente impecável. A câmera realiza uma dança por entre os elementos de cena, espreitando por de trás da vegetação. Algumas sequências são longas, dotadas de uma extensa e violenta coreografia que consegue elevar a carga dramática. Cada flecha finca, assim como cada corte rasga. O uso de iluminação natural aprimora o jogo de luz e sombra, escondendo e revelando detalhes para expandir determinados momentos e signos visuais. A verticalidade da floresta é explorada à exaustão, uma constante lembrança da intensa redução do controle e de poder que o homem possui naqueles domínios, simulando o sentimento de pequeneza sentido ao adentrar em uma catedral gótica. Acompanhamos a bestialização do homem, que se comporta como mais um elemento vivo do ambiente selvagem. O filme é absurdamente rico em sua apresentação, mesmo trabalhando com uma ambientação predominantemente esterilizada pela brancura da neve. A ideia aqui é manchar o solo com o sangue dos vivos, deixar cicatrizes iguais àquelas que adornam os rostos e corpos dos personagens.

revenant 3“O Regresso” é um filme sobre a relação mística entre a figura de Deus e a morte, a unificação destes, vindo diretamente de conceitos nativo-americanos. Seja dentro dos sonhos surreais do personagem principal ou por representação do comportamento animal selvagem, a conexão é construída e reforçada das formas mais abstratas e poéticas. Esta noção não existe apenas dentro do contexto “místico” do personagem de Leonardo DiCaprio, o próprio Fitzgerald traz consigo o mesmo signo ao compartilhar a história de como seu pai encontrou Deus. A morte na obra é algo trágico e contínuo, algo que não pode ser deturpado pela agressão humana, e sempre é carregada como fardo. A conclusão do conflito central da trama, assim como de Hugh Glass, é carregada de filosofia. Não seria exagero afirmar que a ambição conceitual de “O Regresso” possa passar despercebida quando contrastada com o espetáculo visual, mas acredito ser onde habita o verdadeiro cerne do filme.

Tom Hardy encarna, de forma primorosa, a imagem de um homem endurecido pela vida. John Fitzgerald, com o decorrer do longa, foge do antagonista comum, protagonizando uma variedade de momentos que o humanizam de forma convincente. Por mais que suas ações no último ato sejam dotadas de perversidade e covardia, somos relembrados de seus demônios no momento de sua conclusão e lançados novamente nos tons de cinza que o compõe. Leonardo DiCaprio convence como explorador, levando seu trabalho físico à níveis surpreendentes, mas luta nos poucos momentos onde é necessário entregar uma fala. Por algum motivo, DiCaprio ainda parece preso dentro de suas limitações de uma década atrás. Talvez o “O Regresso” não seja o melhor trabalho do ator de 41 anos, mas é mais que o suficiente para levar adiante a variedade de sequências não verbais que protagoniza. A relação entre Glass e seu filho, Hawk, é sincera e zelosa, deixando a conclusão da mesma ainda mais trágica. Apesar de sua extensa duração, e densidade singular, “O Regresso” consegue desenvolver seus personagens de forma inteligente, elevando-os para além de uma simples narrativa de vingança.

THE REVENANT

As sequências surreais vividas pelo personagem principal têm determinados momentos de brilhantismo, mas podem acabar por interferir no delicado ritmo da obra. As constantes repetições imagéticas são impactantes, mesmo que algumas acabem se comportando como uma alegoria redundante. Apesar da bem amarrada conclusão, as múltiplas cenas, obviamente transcendentais, envolvendo a falecida esposa de Hugh Glass acabam por induzir ao cansaço. Outro ponto negativo seria a incapacidade de Leonardo DiCaprio de reproduzir um sotaque ou um dialeto de época, a discrepância incomoda uma vez que o vemos contracenar ao lado do incrivelmente talentoso Tom Hardy. A narrativa pode, por vezes, parecer sapatear demais ao redor da conclusão, mas acredito que esta seja uma decisão acertada, o saldo final é extremamente positivo graças aos múltiplos pontos de desenvolvimento. Existem eventos paralelos o suficiente para manter um constante ar fresco durante o filme e deixar em suspenção como cada um irá se desenvolver e, por fim, conectar-se.

“O Regresso” possui camadas bastante distintas. Podendo ser assistido como um filme de vingança até uma extensa construção filosófica sobre deus e a morte. Assim como o último filme de Alejandro González Iñárritu, corre o risco de ser porcamente interpretado e preguiçosamente reduzido. Nem toda a obra precisa ser um sucesso unânime, nem todo longa precisa lhe agradar. É essa a beleza de filmes como “O Regresso”, ele traz algo novo para o cardápio. Os problemas estão por aí para quem procurar, mas no fim do dia é difícil não aplaudir o exercício cinematográfico realizado por Iñárritu. É cinema sincero de forma apaixonada. Espero ver mais do diretor mexicano nesta nova e ousada fase de seu trabalho.

Vamos Falar Sobre: Denis Villeneuve

PRISONERSEste texto surgiu da vontade de falar sobre os temas e decisões criativas de Denis Villeneuve como diretor, após ter assistido e adorado “Sicario: Terra de Ninguém” (2015). Villeneuve tem uma filmografia relativamente extensa. É possível encontrar créditos onde é listado como diretor desde 1988. Quero então reforçar que falarei apenas dos filmes dos quais estou familiarizado, mas sinta-se livre para pontuar qualquer outro trabalho dele nos comentários

Tive minha primeira surpresa com Denis Villeneuve dois anos atrás enquanto assistia “Os Suspeitos” (2013). Filme simples e bastante focado em criar e alimentar uma atmosfera de desconforto, da qual sou um aficionado. Conhecemos Keller Dover (Hugh Jackman), homem de família, pacato que tem sua filha sequestrada. Os dias após o desaparecimento suspeito da criança seguem de forma tensa e melancólica. A família de Keller é jogada em um desespero infernal de onde fraquezas internalizadas começam a emergir, todas como forma de fuga da dor e da perda quase certa. Detetive Loki (Jake Gyllenhaal), jovem de carreira impecável, assume o caso que segue lento e bizarro. Desacreditado e tomado por suspeitas pouco sólidas, Keller decide investigar ilegalmente o caso da filha. Loki, que pouco a pouco vai descobrindo uma ferida profunda envolvendo casos de crianças desaparecidas ao longo dos anos, e Keller, que resolve tomar uma abordagem mais direta: capturar e torturar o estranho jovem de que suspeita. O longa tem seus três atos muito bem definidos, onde parecemos estar indo em direção a um verdadeiro inferno coletivo.

“Os Suspeitos” consegue sintetizar exatamente aquilo que sinto vendo o trabalho de cena, corte e composição do diretor. Denis Villeneuve parece ressignificar a atmosfera comum em seus filmes. A pequena cidade chuvosa é mostrada em tons frios de cinza, azul e marrom, enquanto as cenas de interiores variam entre o extremamente claro e a total escuridão. As tomadas são claustrofóbicas, mesmo se tratando de um horizonte florestado, podemos sentir o isolamento emocional de cada personagem. O desconforto do filme vem dessas decisões estéticas. Dessa forma, fazendo de uma premissa básica de thriller policial, um terror psicológico. “Os Suspeitos” é um filme pesado e muito bem feito, simples em forma e denso na apresentação.

Meu segundo encontro com Villeneuve foi em “O Homem Duplicado” (2013).enemy 2

“O Homem Duplicado” é consideravelmente mais complexo e pretencioso do que os outros trabalhos do diretor. Vemos uma Toronto doente, amarelada e cansada, assim como nosso principal, Adam Bell (Jake Gyllenhaal). Professor de história em uma universidade, o personagem é um homem preso em uma rotina tão genérica quanto sua personalidade. Assistindo a um filme com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), Adam nota um homem, um ator, fisicamente idêntico a ele. Logo nasce uma obsessão. O personagem de Gyllenhaal ganha vida ao mesmo tempo em que cresce sua curiosidade por seu sósia, Anthony. O filme segue por direções mais densas e viscerais, nos levando a duvidar se tudo aquilo é real ou parte de um conflito psicológico de Adam em busca de conexão e unificação. Aí existe o brilho do filme, dentro de suas ligações temáticas e visuais.

Assim como em “Os Suspeitos”, Villeneuve nos apresenta uma ideia velha sob uma nova faceta. Os personagens cheios de desejo, obsessão e confusão são refletidos pela própria Toronto abatida, assim como pela constante aparição surreal de criaturas semelhantes a aranhas. “O Homem Duplicado” dança entre cenas de profundo desconforto e momentos de impacto. Todo o processo é uma catarse que acaba por nos levar a um lugar bastante distante de onde estávamos no início, um lugar além daquela cidade amarela doente. O final do filme é o verdadeiro toque necessário para compreendermos melhor a natureza daquele mundo visto através olhos de Adam. É normal encontrar quem desmereça esse filme. No fundo, é o tipo de narrativa e estilo que transmite uma atração quase alienígena a audiências bastante específicas. Tanto o estilo febril quanto o desconforto agudo comunicam algo muito sincero sobre a natureza humana. Não por acaso, “O Homem Duplicado” é baseado no livro homônimo de Saramago (2002).

Para aqueles que já assistiram o longa, e foram pegos de surpresa pelo final, deixo uma lembrança do próprio filme, uma que talvez sirva mais do que qualquer análise: Caos é ordem ainda não decifrado.

Segundo informações um tanto quanto datadas (e o próprio IMDB), Denis Villeneuve será o diretor de um projeto ainda sem título de Blade Runner. Vendo como a transição de Villeneuve para os grandes orçamentos, com “Sicario”, se deu de forma elegante e respeitosa com as decisões criativas dele, fico empolgado pelo que virá do canadense. De resto ficam fortes recomendações sobre todos os filmes aqui comentados.