Vamos Falar Sobre: O Regresso

revenantAlejandro González Iñárritu é um diretor de força e personalidade. Mesmo se isolarmos seus últimos dois trabalhos, fica bastante claro o brio e as marcas presente em seus longas. Uma memória que não custo em resgatar é como deixei a sessão de “Birdman” (2014), extremamente leve de um pé e cruelmente firme do outro. A parceria entre Iñárritu e Emmanuel Lubezki (diretor de fotografia) cria uma intensa atração visual, mesmo nos momentos mais simplórios e passivos. Coberto de louvor e carregando uma quantidade enorme de indicações ao Oscar, “O Regresso” (2015) tinha uma tarefa difícil, viver à altura de uma obra antecessora extremamente singular. Não faltam motivos para se alimentar dúvidas, todos parecem se digladiar para exaltar como o novo filme de Iñárritu é “só bom”. Mas a verdade é que, hoje, sinto estar por fora de alguma estranha histeria coletiva. “O Regresso” é uma obra prima.

Acompanhamos Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) e um grupo de homens que se aventuram pelas gélidas florestas americanas de 1820 atrás de peles de animais. Diferente do resto da expedição, Glass possui um passado com uma das populações nativas e um filho mestiço, Hawk (Forrest Goodluck), que o liga ao universo local. Após sofrerem um ataque surpresa, poucos sobreviventes escapam através do rio e perdem o trabalho de toda uma temporada. Logo recai ao civilizado Capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson) tentar liderar sua corja irascível e instável em direção à segurança. Desde cedo é bastante clara a existência de um atrito entre Hugh Glass, alguém que claramente possui ligações com as populações nativas, e John Fitzgerald (Tom Hardy), um homem problemático que foi parcialmente escalpelado no passado. Vítima de um brutal ataque de urso pardo, Glass se torna um fardo para a equipe e logo é deixado para trás nas mãos de voluntários. Não custa para que Fitzgerald se aproveite do isolamento parcial e arquitete contra o ferido, assassinando seu filho e o deixando para morrer. Estripado de seu último pedaço de felicidade, Glass, que sobrevive ao abandono de seus homens, inicia uma árdua jornada de sobrevivência e vingança.

Por mais redundante que seja, sinto-me obrigado a pontuar como “O Regresso” é tecnicamente impecável. A câmera realiza uma dança por entre os elementos de cena, espreitando por de trás da vegetação. Algumas sequências são longas, dotadas de uma extensa e violenta coreografia que consegue elevar a carga dramática. Cada flecha finca, assim como cada corte rasga. O uso de iluminação natural aprimora o jogo de luz e sombra, escondendo e revelando detalhes para expandir determinados momentos e signos visuais. A verticalidade da floresta é explorada à exaustão, uma constante lembrança da intensa redução do controle e de poder que o homem possui naqueles domínios, simulando o sentimento de pequeneza sentido ao adentrar em uma catedral gótica. Acompanhamos a bestialização do homem, que se comporta como mais um elemento vivo do ambiente selvagem. O filme é absurdamente rico em sua apresentação, mesmo trabalhando com uma ambientação predominantemente esterilizada pela brancura da neve. A ideia aqui é manchar o solo com o sangue dos vivos, deixar cicatrizes iguais àquelas que adornam os rostos e corpos dos personagens.

revenant 3“O Regresso” é um filme sobre a relação mística entre a figura de Deus e a morte, a unificação destes, vindo diretamente de conceitos nativo-americanos. Seja dentro dos sonhos surreais do personagem principal ou por representação do comportamento animal selvagem, a conexão é construída e reforçada das formas mais abstratas e poéticas. Esta noção não existe apenas dentro do contexto “místico” do personagem de Leonardo DiCaprio, o próprio Fitzgerald traz consigo o mesmo signo ao compartilhar a história de como seu pai encontrou Deus. A morte na obra é algo trágico e contínuo, algo que não pode ser deturpado pela agressão humana, e sempre é carregada como fardo. A conclusão do conflito central da trama, assim como de Hugh Glass, é carregada de filosofia. Não seria exagero afirmar que a ambição conceitual de “O Regresso” possa passar despercebida quando contrastada com o espetáculo visual, mas acredito ser onde habita o verdadeiro cerne do filme.

Tom Hardy encarna, de forma primorosa, a imagem de um homem endurecido pela vida. John Fitzgerald, com o decorrer do longa, foge do antagonista comum, protagonizando uma variedade de momentos que o humanizam de forma convincente. Por mais que suas ações no último ato sejam dotadas de perversidade e covardia, somos relembrados de seus demônios no momento de sua conclusão e lançados novamente nos tons de cinza que o compõe. Leonardo DiCaprio convence como explorador, levando seu trabalho físico à níveis surpreendentes, mas luta nos poucos momentos onde é necessário entregar uma fala. Por algum motivo, DiCaprio ainda parece preso dentro de suas limitações de uma década atrás. Talvez o “O Regresso” não seja o melhor trabalho do ator de 41 anos, mas é mais que o suficiente para levar adiante a variedade de sequências não verbais que protagoniza. A relação entre Glass e seu filho, Hawk, é sincera e zelosa, deixando a conclusão da mesma ainda mais trágica. Apesar de sua extensa duração, e densidade singular, “O Regresso” consegue desenvolver seus personagens de forma inteligente, elevando-os para além de uma simples narrativa de vingança.

THE REVENANT

As sequências surreais vividas pelo personagem principal têm determinados momentos de brilhantismo, mas podem acabar por interferir no delicado ritmo da obra. As constantes repetições imagéticas são impactantes, mesmo que algumas acabem se comportando como uma alegoria redundante. Apesar da bem amarrada conclusão, as múltiplas cenas, obviamente transcendentais, envolvendo a falecida esposa de Hugh Glass acabam por induzir ao cansaço. Outro ponto negativo seria a incapacidade de Leonardo DiCaprio de reproduzir um sotaque ou um dialeto de época, a discrepância incomoda uma vez que o vemos contracenar ao lado do incrivelmente talentoso Tom Hardy. A narrativa pode, por vezes, parecer sapatear demais ao redor da conclusão, mas acredito que esta seja uma decisão acertada, o saldo final é extremamente positivo graças aos múltiplos pontos de desenvolvimento. Existem eventos paralelos o suficiente para manter um constante ar fresco durante o filme e deixar em suspenção como cada um irá se desenvolver e, por fim, conectar-se.

“O Regresso” possui camadas bastante distintas. Podendo ser assistido como um filme de vingança até uma extensa construção filosófica sobre deus e a morte. Assim como o último filme de Alejandro González Iñárritu, corre o risco de ser porcamente interpretado e preguiçosamente reduzido. Nem toda a obra precisa ser um sucesso unânime, nem todo longa precisa lhe agradar. É essa a beleza de filmes como “O Regresso”, ele traz algo novo para o cardápio. Os problemas estão por aí para quem procurar, mas no fim do dia é difícil não aplaudir o exercício cinematográfico realizado por Iñárritu. É cinema sincero de forma apaixonada. Espero ver mais do diretor mexicano nesta nova e ousada fase de seu trabalho.

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