Vamos Falar Sobre: A Bruxa

bruxa 3O terror é um gênero que vem enfrentando um grande problema nos últimos anos, o público. Feito de sutilezas e tensões, o estilo que se desenvolve diretamente da literatura é extremamente complexo. Assim como qualquer outro gênero, o terror vive em constante reformulação, sendo cobaia das indústrias de produção. Simplificando, as lentas narrativas cósmicas de H.P. Lovecraft deram origem aos filmes “Slasher” dos anos oitenta, assim como o respectivo subgênero de décadas passadas veio a se tornar a febre das produções de “Found Footage” dos últimos anos. Seguindo os princípios da evolução das espécies, nem sempre mudança quer dizer melhora, ainda mais na produção cinematográfica. Não sou saudosista, acredito que cada reformulação do gênero (mesmo quando preguiçosa) é válida por questões singulares e específicas, mas se existe um grande problema na progressiva simplificação do terror, este é a plateia. Acostumado com a narrativa repetitiva dos sustos baratos, é difícil para o público mediano encontrar empatia em uma construção lenta e lírica do gênero. Esta foi exatamente a reação que pude observar ao assistir “A Bruxa” (2015), onde as pessoas parecem não saber o que sentir e acabam se voltando para o tédio e a frustração. Entretanto, independente da inequação condicionada do público, o longa é belíssimo e acerta em cheio aquilo que mais pesa em uma narrativa clássica de terror, a construção de uma atmosfera desconfortável e impactante.

Acompanhamos uma família de protestantes ingleses, residentes nas Américas em meados de 1630, ao serem exilados do vilarejo onde viviam. Instalando-se no limiar da floresta densa e fechada, o grupo inicia seu processo de adaptação ao isolamento. Após um terrível e macabro evento acometer uma criança de colo, o mais jovem dos cinco irmãos, a fervorosa família tem sua fé e união questionada pela presença de uma bruxa na floresta. Pouco a pouco, todo o grupo, dos mais jovens aos mais velhos, se torna vítima da traiçoeira e diabólica entidade – e uns dos outros.

Logo nos imponentes ângulos dos minutos iniciais do longa, temos Thomasin (Anya Taylor-Joy), a filha mais velha, como protagonista. Desde o perceptível desgosto de sua mãe por ela, até os olhares de desejo de seu irmão mais jovem, Caleb (Harvey Scrimshaw), a jovem é a pária da fé como agente destrutivo, algo que o filme explora bastante. Thomasin, mesmo dentro das condutas religiosas que segue, se revela para além de sua inocência aparente, guiando a narrativa para lugares mais complexos e intrigantes. O patriarca da família, William (Ralph Ineson), funciona de forma interessante, sendo tanto uma figura de intensa pregação quanto se acovardando (ou omitindo-se) nos momentos críticos. William é a face do pensamento religioso fervoroso, exigindo que os outros paguem por fraquezas que o próprio comete. Katherine (Kate Dickie) é uma mãe amargurada por todas as mazelas que os cercam, passando por um processo enlouquecedor ao longo da obra. Os olhares desgostosos que dirige a sua filha mais velha podem ser traduzidos como inveja, seja da beleza carnal da juventude ou da pretensão da pureza, algo que vai contra sua postura fanática religiosa. Os personagens principais são terrivelmente anacrônicos, representando a falência da fé e de Deus. Não é à toa que em determinado momento um dos personagens faz a comparação do exílio que sofreram com o encontro bíblico com o diabo, algo que se traduz belissimamente na conclusão do filme.

bruxa 6Um dos grandes méritos do longa é a sua fotografia e direção, seja pelo uso inteligente de luz ou pelas composições visuais intensas. Ao anoitecer, a utilização de velas como fonte de iluminação indireta cria um belo jogo de luz e sombra, envolvendo os personagens na escuridão que predomina espacialmente na tela. É clara a ideia das trevas e do macabro dominando a família, tornando a vastidão selvagem claustrofóbica e estática. Uma vez dentro da floresta fechada, existe uso das incontáveis árvores secas contorcidas sobrepostas aos personagens, funcionando como uma opressora gaiola de espinhos. Logo, a simples imagem do limiar entre os riachos e a floresta se torna desconfortável, transformando a paisagem natural em uma visão dantesca. Os animais, selvagens e da pequena fazenda da família, são desprovidos de qualquer beleza romântica, quase sempre de pelos eriçados e olhos vidrados. Esta apresentação da vida selvagem consegue transfigurar a imagem de uma pequena e esguia lebre em um presságio maldito, com requintes de ritualismo pagão (sem falar do bode da família, é claro). Para completar a composição primorosamente acertada do longa, vale pontuar como a trilha sonora vem para dizer o indizível e nos manter sempre em desconforto. Desde composições mais clássicas até o chacoalhar ritualístico que compõe um determinado (e memorável) momento, o trabalho é surpreendente.

“A Bruxa” é um terror simples e efetivo, resgatando uma das “criaturas” mais simbólicas do gênero. Todo o filme se comporta como uma narrativa mítica (como pontua o subtítulo original), os elementos são cruelmente relacionáveis e trazem a consciência da obra na forma dos desfechos individuais. O longa desconstrói a ideia do estreitamento dos laços sanguíneos através da fé, colocando os personagens em cheque ao personificar a bruxa a partir de suas tentações, desejos, obsessões e pecados. O filme é um deleite para os aficionados pela arte de contar histórias macabras, trabalhando com conceitos e elementos imagéticos clássicos enquanto, ao mesmo tempo, desenvolve e cria seus próprios. “A Bruxa” não é para todo mundo, é necessária a completa dissociação do medo com o susto. O filme é como história sendo contada na fogueira, fazendo muito com muito pouco. Em minha opinião, o título consegue entrar no seleto e eclético grupo das grandes obras do terror moderno.

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2015 Re-Cap (Parte Três)

 

A Viatura (2015)

Direção: Jon Watts

Cop CarTravis (James Freedson-Jackson) e Harrison (Hays Wellford) são dois garotos que decidem “fugir” de casa e se aventurar pelas planícies. Após alguns minutos caminhando a esmo, a dupla encontra uma viatura de polícia vazia em uma locação incomum, tomando o veículo como um achado que, agora, os pertence. Após algumas tentativas frustradas, os garotos conseguem guiar o automóvel da melhor forma possível e seguem em direção à estrada asfaltada. Logo, conhecemos uma sequência alternativa de eventos que nos apresenta ao corrupto xerife Kretzer (Kevin Bacon) e a mesma viatura estacionada no meio do matagal. Com as histórias entrelaçadas, inicia-se uma intensa busca que não pode chegar aos olhos de terceiros. Culminando em uma conclusão surpreendentemente sangrenta. Tanto Travis quando Harrison tem seu momento libertador e infantil jogado em um abismo de violência.

O longa não se esmera em seu roteiro, mas parece se dedicar bastante na criação de tensão e de momentos visualmente bem realizados. Até o fatídico encontro entre o xerife e a dupla, existe distinção clara, na luz e na composição de cena, entre os respectivos momentos de cada seguimento do filme. Vale também destacar as performances dos dois atores mirins, que surpreendem com uma boa variedade de expressões e um bom trabalho corporal. “A Viatura” é, provavelmente, o melhor trabalho de Jon Watts e entrega uma experiência satisfatória. Aqueles que talvez se cansem da lenta primeira metade, vão apreciar uma extensa e catártica sequência final.

Corrente do Mal (2014)

Direção: David Robert Mitchell

it follows film stillJay Height (Maika Monroe) é uma jovem que tem expectativas românticas quanto ao seu primeiro contato sexual. Após um encontro sóbrio, a personagem tem suas expectativas consumadas, quando a vemos distraidamente deitada no carro de seu namorado. Neste momento de vulnerabilidade é, abruptamente, dominada e induzida a um estado de sono. Ao acordar, Jay se vê presa a uma cadeira no meio de um estacionamento abandonado. Naquele momento, seu parceiro revela que ela vai ser perseguida por alguma coisa misteriosa e que deve passar adiante da mesma forma que ele faz, através do contato sexual. Uma figura aparece ao longe durante a explicação, lentamente andando em direção à jovem. Assim tornando clara a aterrorizante realidade do fardo que ela carrega. Desse ponto em diante, acompanhamos Jay e seus amigos em busca de respostas e resoluções enquanto, constantemente, precisam fugir do perseguidor visível somente aos olhos de sua vítima.

“Corrente do Mal” é um terror bastante eficiente e intrigante ao apresentar uma alternativa inteligente para criar situações de desconforto e medo. Somos colocados na mesma situação que os personagens, sem entender ao certo o funcionamento da criatura e as regras que segue. Grande destaque para a direção de arte, fazendo um casamento interessante com as diversas situações tensas ao apresentar uma intensa variedade de tons dentro de um espectro de cor sóbrio. A trilha sonora, composta de sons sintéticos e densos, é um dos componentes mais importantes na construção de expectativa e na consumação do terror. “Corrente do Mal” é um filme flexível, podendo ser visto de forma analítica ou junto com um grupo de amigos, lembrando bastante alguns bons longas de terror de décadas passadas.

Kumiko, a Caçadora de Tesouros (2014)

Direção: David Zellner

kumikoKumiko (Rinko Kikuchi) é uma figura deslocada do resto da cidade de Tóquio. Extremamente introspectiva, passa a maior parte do tempo dentro de seu pequeno e caótico apartamento, junto de seu coelho de estimação, enquanto assiste ao filme “Fargo” (1996) de forma religiosa. A obsessão de Kumiko pela obra, assim como seu profundo desgosto pelas expectativas alheias, é algo fora do comum, ela realmente acredita que o longa de Joel Coen conte uma história real. Assistindo sempre a mesma fita VHS, Kumiko realiza anotações minuciosas sobre a localização final do dinheiro que movimenta a trama do filme. Passando por abusos e estresse em seu trabalho, assim como as constantes ligações de sua mãe, a personagem decide tentar a sorte e ir atrás do que acredita ser o seu destino: encontrar o dinheiro de “Fargo”.

O filme é um drama bastante envolvente, colocando uma figura emocionalmente e psicologicamente perdida como foco empático. Kumiko está sempre em destaque nas multidões de Tóquio, seja pelo corporal ou pelas cores vibrantes de suas roupas. É clara a ideia de que aquele lugar não representa nada para ela além de responsabilidades forçadas e artificiais, por isso somos apresentados a ângulos desconfortáveis e cinzentos da cidade. Tanto os pequenos (e grandes) abandonos necessários para sua empreitada quanto os riscos criminais que corre, reforçam a personagem como alguém desesperada e que, por ímpeto próprio, criou a fantasia sobre o dinheiro enterrado e seu destino. “Kumiko (…)” é uma experiência comovente e com um final poderoso. Talvez um dos filmes mais bonitos que assisti neste último ano.