Vamos Falar Sobre: Voando Alto

eddieA dinâmica por trás de filmes biográficos sobre atletas é batida, uma velha conhecida que teve seu auge em décadas passadas e hoje se encontra em singular letargia. Um gênero que, até certo ponto, não evoluiu de forma saudável através das produções. Nenhuma formatação dissolve-se por completo, mas assim como qualquer forma de narrativa, pode alcançar um prolongado momento de estagnação, mantendo-o extremamente previsível. Existe a necessidade de reinvenção e experimentação, fazer algo novo e ousado dentro de uma proposta conhecida. “Voando Alto” (2016) consegue sintetizar exatamente este sentimento cansado e saudosista, comportando-se como algo, no mínimo, notável dentro de suas limitações, sejam elas artísticas ou financeiras.

Acompanhamos o jovem Eddie Edwards (Taron Egerton) em sua busca pelo status de olimpiano. Desde a infância até o inicio da vida adulta, o garoto cultiva um futuro que por vezes se mostra inalcançável. Visto como ingênuo pelo seu pai e com problemas motores nas pernas, Eddie usa, inconscientemente, as adversidades como combustível para seus desejos, fazendo de seu crescimento uma serie de momentos baseados na tentativa e erro, sempre em busca de uma prática esportiva que sustente e contemple suas condições. Uma vez livre de impedimentos físicos, Eddie desenvolve uma paixão platônica pelos esportes de inverno e pelo Salto de Esqui, fazendo com que vá à Alemanha em busca de local adequado para treinamento. Esnobado por uma das mais famosas equipes do esporte, Eddie se junta a Bronson Peary (Hugh Jackman), um antigo saltador americano com um passado conflituoso. Uma vez unidos, a dupla inicia seu improvável processo de treino, visando levar Edwards aos Jogos Olímpicos de Inverno.

O primeiro atrativo do longa salta aos olhos logo nos primeiros momentos: a paleta de cor e a sonoplastia evocam a conjuntura presente em uma produção oitentista, funcionando como um filtro para ditar a atmosfera da obra. Indo dos tons mais pastelados até o intenso colorido dos uniformes de esqui, a variedade é agradável e não permite o cansaço visual. A trilha sonora também brilha, tendo peças completamente sintéticas e músicas vindas diretamente da época retratada, fazendo a constante manutenção da atmosfera. “Voando Alto” se destaca por seu valor sinestésico, trabalhando de forma simples dentro de uma variedade bem arquitetada. Talvez o maior problema do filme seja exatamente este, enquanto o esforço dentro dos campos visual e sonoro é claro e sincero, a narrativa, interpretação e direção acabam contrastando de forma negativa, passando uma sensação amarga e desnecessária de preguiça.

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A narrativa começa convincente, deixando transparentes as intenções da obra, fazendo um malabarismo entre contar uma história inusitada e um tanto quanto cômica e “parodiar” o próprio gênero de filmes esportivos – sem perder o esporte em si. Contrário ao que se possa imaginar, “Voando Alto” consegue acertar neste complicado equilíbrio, fazendo-nos comprar a ideia do filme e legitimamente segurar a nossa atenção, mesmo que, no entanto, não exista qualquer risco ou oposição que evoque algum interesse narrativo. A agradável e igualmente passiva progressão discursiva começa a desandar no final do segundo ato, onde o longa simplesmente abre mão do seu valor como “paródia” e decide, por algum motivo, se levar a sério. A narrativa torna-se gratuitamente lenta, o trabalho de som transfigura-se em monotonia, deixando a interpretação cômica de Taron Egerton e a terrível de Hugh Jackman para guiar uma história que, até aquele ponto, não havia exigido maior seriedade dramática. Por mais que nos momentos finais o filme volte ao seu comportamento original, o estrago já foi feito, se tornou outra mensagem brega no meio de tantas outras.

“Voando Alto” não é um filme ruim, longe disso, têm seus charmes e originalidade ainda marcados em minha memória, o problema é a falta de comprometimento com a temperatura proposta. Quando o próprio longa desacredita em seu formato no meio do caminho, a audiência perde qualquer motivo para fazer o contrário e todo o momentum simplesmente tropeça. No final, é uma experiência satisfatória, mas algo que não faço questão de relembrar – tristemente.

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Vamos Falar Sobre: Zootopia

zootopiaUm dos grandes atrativos em uma fábula é o seu valor de espelhamento da sociedade, levando-nos a observar, com relativo distanciamento, situações que se desenrolam em direção a uma moral aplicável. “Zootopia” (2016) é a evolução natural e literal deste conceito. Desde a animação espetacular até as pequenas soluções gráficas engenhosas, o desenvolvimento e esforço aplicado no longa é bastante transparente e de fácil percepção, sendo, ao mesmo tempo, necessária certa maturidade para apreciar o verdadeiro esforço temático da obra. Sem demonstrar cansaço ou hesitação, “Zootopia” entrega exatamente aquilo que era esperado – e um pouco mais.

Vindo de uma origem humilde, a coelha Judy Hopps (voz de Ginnifer Goodwin) sonha com grandeza, desde filhote, deixando clara suas intenções de desafiar o status quo, almejando se torna a primeira policial coelha e com isso fazer a diferença na vida dos mamíferos. Enfrentando adversidades práticas e os preconceitos do dia a dia, Judy consegue o trabalho de oficial no Departamento Policial de Zootopia, a famosa e caótica metrópole. Após passar por primeiros dias um tanto quanto complicados e emocionalmente desconcertantes, a personagem une forças com uma raposa cínica e sagaz, Nick Wilde (voz de Jason Bateman), visando resolver uma série de casos de predadores desaparecidos. A conspiração velada vem por abrir feridas políticas e sociais dentro da sociedade animal e reafirmar noções de convívio em meio à adversidade.

“Zootopia” é uma afiada representação da sociedade moderna, espelhando e explorando questões de gênero e raça dentro de uma obra extremamente flexível e palatável. A animação não é a primeira a ter múltiplas camadas de compreensão – “Divertida Mente” (2015) sendo outro forte e recente exemplo -, mas faz um habilidoso malabarismo com todas as temáticas disponíveis, deixando pouco de fora do escopo da obra. O crescimento pessoal e profissional de Judy Hopps, vindo do campo para a cidade grande e se tornando a primeira coelha policial, é uma bela alusão ao êxodo profissional e a inserção feminina em campos que outrora eram dominados por homens. A personagem principal é a primeira de uma série de figuras que diariamente se opõe as adversidades, uma luta que nem todos ainda mantêm de cabeça erguida. Nick Wilde, por exemplo, estaria do lado oposto do mesmo espectro, sofrido de forma tão profunda nas mãos do irracional ódio alheio que acabou, conscientemente, se tornando seu estereótipo designado. É constante a inserção de figuras que também correspondem a esta relação de preconceito, servindo de exemplificação para questões terrivelmente atemporais.

zootopia 2A animação também acerta em cheio ao representar as forças políticas e midiáticas como agentes poderosos dentro das relações em sociedade. A oponente, e sempre artificial, apresentação do prefeito é quase cômica, assim como sua clara preocupação com a própria imagem pública, colocando-se para além do bem coletivo. Um dos momentos mais fortes, para mim, é quando a vice-prefeita, uma pequena ovelha, revela a exploração que sofre, afirmando que sua nomeação para o cargo deve ter sido com o único intuito de o prefeito “ganhar os votos de outras ovelhas”. Momentos como este não são raros em “Zootopia”, categoricamente criando situações de subversão emocional, brincando sempre de forma elegante com os principais setores de descontentamento para com as minorias, parodiando-os. Mas a hipocrisia latente não é exclusiva das figuras antagonistas do longa. Todos os personagens possuem algum grau de preconceito e falhas morais que acabam por criar constrangimentos. A diferença, assim como na realidade, está no reconhecimento destas falhas e desconstrução individual, da negação do medo como forma de controle. É uma linha tênue que separa tematicamente os personagens, compondo-os de tons de cinza, o que me faz apreciar ainda mais o trabalho e as intenções do filme.

O humor do longa, por mais que tenha seus momentos de glória, é bastante simplista, podendo por vezes se tornar repetitivo e cansativo. Protagonizando a maioria destas situações cômicas estão alguns dos personagens mais descartáveis do filme, como o policial sempre faminto na recepção do prédio da corporação. Poucos são os meus problemas com o longa, coisas tão pormenores que, acredito, possam ser facilmente relevados, ainda mais se tratando de uma obra destinada ao público infantil. Algo que é interessante e problemático no filme é o seu esforço para desfazer a sensação e os elementos atemporais do próprio, criando trocadilhos e referencias diretas a tecnologias atuais e a cultura pop, servindo tanto como menor denominador cômico quanto acessório de roteiro dispensável que virão, em um futuro próximo, por datar o filme.

“Zootopia” é algo significativo e memorável, surpreendendo por sua trama simples contrastante com uma série de temáticas densas e ousadas decisões artísticas. Além de servir como prova de que ideias originais bem desenvolvidas possuem um charme distinto, a obra cativa por meios humildes e inteligentes, deixando uma confortável sensação após o desenrolar do arco temático da história. Brilhantemente delicado em apresentação e permeado por atuais, e necessárias, mensagens, “Zootopia” é uma incrível fábula que merece todos os louvores que vem recebendo.

Vamos Falar Sobre: A Apreciação de Filmes B

b movie 3De acordo com os conceitos clássicos, na Era de Ouro de Hollywood, um filme B era aquele que completava a segunda metade de uma sessão de exibição. Normalmente se tratava de uma produção barata, permeada por clichês e com personagens recorrentes. Após a prática da dupla exibição entrar em desuso por volta de 1950, o termo passou a ser mais abrangente, podendo definir uma variedade de materiais. As primeiras produções de velho oeste deram lugar à ficção cientifica de aventura e ao terror teatral. A evolução, tanto do termo quanto do produto, passou por sua transformação mais drástica nos anos oitenta, com o nascimento de tecnologias de captação mais baratas e do VHS. Filmes de “exploitation” (aqui em inglês por falta de uma tradução que melhor contemple o termo), visando quase que exclusivamente o lucro, fundaram o que hoje é amplamente considerada uma época de exageros precários e do fracasso artístico absoluto, redefinindo o conceito do filme B. Qualidade à parte, acredito que exista um poderoso valor histórico nesta subindústria de produção cinematográfica, títulos que hoje vêm sendo redescobertos como tentativas que resultaram em brilhantes acidentes cômicos e pequenas pérolas escondidas por entre o entulho.

A Inesperada Virtude do Fracasso Alheio

Assim como tipografia e música, existe temperatura no cinema, algo sinestésico e metafísico que transcende a forma aparente. É esta notável abstração que diferencia produções como “Kung Fury” (2015) de “Turbo Kid” (2015), obras que dividem tanto a época que foram feitas quanto o momento histórico cultural que referenciam. Um filme que se esforça para criar algo interessante exige trabalho e visão de seus criadores, algo que funcione como assinatura própria. Um bom filme ruim é aquele que é concebido com a intenção de ser bom. “Turbo Kid” foge um pouco da regra do “fracasso artístico total” porque consegue, objetivamente, entreter não por seus erros, mas por seus acertos ao referenciar os anos oitenta. O pouco orçamento e temática é que o colocam nesta categoria. É interessante notar como as indústrias de produção tentaram, ao longo dos anos, invadir esta subcultura. Títulos como “Sharknado” (2013) falham exatamente naquilo que o longa antes citado acerta, a latente ausência de temperatura e carisma fazem da peça de 2013 uma falha conceitual, uma vez que é concebida com o intuito de ser um filme propositalmente ruim.

O entretenimento por trás de filmes como “Samurai Cop” (1991) e “The Galaxy Invader” (1985), é extremamente flexível. As confusas decisões de roteiro que levam a situações constrangedoras e inexplicáveis são terrivelmente engraçadas e memoráveis, mas existe algo além. Mesmo estas notáveis aberrações cinematográficas foram produzidas na tentativa de fazer algo bem feito. Seus criadores, basicamente, realizaram uma caótica colagem dos elementos que compunham os respectivos gêneros. Como adolescentes com uma câmera na mão, mimetizaram aquilo que já haviam observado em obras mais famosas e bem conceituadas, dando origem a um produto final que possui um charme alienígena dos mais sinceros e empáticos. O verdadeiro deleite por trás da apreciação de filmes B existe na possibilidade real e prática daquilo na tela poder ser feito por qualquer um. É quase como uma declaração de amor ao ato de criar, mesmo vindo de projeções que visam apenas o lucro como objetivo final.

Notáveis Produções

Xtro (1983)

b movie 10Um dos títulos mais interessantes que o lado B do cinema pode oferecer é “Xtro”. Uma verdadeira surpresa, o longa é uma das ficções científicas mais ousadas e sinceras que já tive o prazer de assistir, balanceando perfeitamente o charme de seu baixo orçamento com construções visuais engenhosas e criativas. O roteiro de “Xtro” é outro deleite à parte, sendo coeso e simples, a narrativa do terror cósmico entrega momentos legitimamente perturbadores. Nada vem gratuitamente, cada grande sequência é resultado de uma situação arquitetada anteriormente, criando uma confortável sensação de progressão dinâmica ao filme. Assim como “Turbo Kid”, é quase bom demais para ser citado neste texto.

Things (1989)

b movie 8“Things” é uma experiência para poucos, conseguindo ser, ao mesmo tempo, um longa intrigante e frustrante, ambos resultado da obtusa e confusa apresentação do filme. Sendo uma cópia de “A Morte do Demônio” (1981), acompanhamos homens de meia idade, que se apresentam como jovens, enquanto passeiam de forma confusa e caótica por uma cabana na floresta. Logo, obviamente, pequenas criaturas de borracha sem articulação os atacam, levando a uma série de situações onde fica ainda mais inevitável não notar as múltiplas referências e cenas imitadas. A parte mais interessante de “Things” é imaginar o seu processo de produção, desde o áudio que tem um dos piores ADR já feitos até o confuso e perdido roteiro. O longa é como algo feito por alienígenas.

Miami Connection (1987)

b movie 9Assinando o roteiro, a direção e o papel principal, o orador motivacional Y. K. Kim criou uma verdadeira aberração dos filmes de arte marcial. Conflitos entre bandas que lutam diferentes estilos, uma gangue de ninjas que acaba interferindo em uma grande transação ilegal de narcóticos e a busca por uma figura paterna há muito perdida, “Miami Connection” é absurdamente caótico. O título, assim como “Samurai Cop”, é a visão de um diretor estrangeiro dos filmes de ação americanos oitentistas, tornando-o um verdadeiro estudo antropológico. O bizarro desenrolar do filme entrega uma confusa experiência catártica, que acontece de forma tão súbita quanto contraditória. No fim, “Miami Connection” se torna uma das peças mais singulares e notáveis do nicho, criando comicidade de forma completamente acidental.

Vamos Falar Sobre: A Bruxa

bruxa 3O terror é um gênero que vem enfrentando um grande problema nos últimos anos, o público. Feito de sutilezas e tensões, o estilo que se desenvolve diretamente da literatura é extremamente complexo. Assim como qualquer outro gênero, o terror vive em constante reformulação, sendo cobaia das indústrias de produção. Simplificando, as lentas narrativas cósmicas de H.P. Lovecraft deram origem aos filmes “Slasher” dos anos oitenta, assim como o respectivo subgênero de décadas passadas veio a se tornar a febre das produções de “Found Footage” dos últimos anos. Seguindo os princípios da evolução das espécies, nem sempre mudança quer dizer melhora, ainda mais na produção cinematográfica. Não sou saudosista, acredito que cada reformulação do gênero (mesmo quando preguiçosa) é válida por questões singulares e específicas, mas se existe um grande problema na progressiva simplificação do terror, este é a plateia. Acostumado com a narrativa repetitiva dos sustos baratos, é difícil para o público mediano encontrar empatia em uma construção lenta e lírica do gênero. Esta foi exatamente a reação que pude observar ao assistir “A Bruxa” (2015), onde as pessoas parecem não saber o que sentir e acabam se voltando para o tédio e a frustração. Entretanto, independente da inequação condicionada do público, o longa é belíssimo e acerta em cheio aquilo que mais pesa em uma narrativa clássica de terror, a construção de uma atmosfera desconfortável e impactante.

Acompanhamos uma família de protestantes ingleses, residentes nas Américas em meados de 1630, ao serem exilados do vilarejo onde viviam. Instalando-se no limiar da floresta densa e fechada, o grupo inicia seu processo de adaptação ao isolamento. Após um terrível e macabro evento acometer uma criança de colo, o mais jovem dos cinco irmãos, a fervorosa família tem sua fé e união questionada pela presença de uma bruxa na floresta. Pouco a pouco, todo o grupo, dos mais jovens aos mais velhos, se torna vítima da traiçoeira e diabólica entidade – e uns dos outros.

Logo nos imponentes ângulos dos minutos iniciais do longa, temos Thomasin (Anya Taylor-Joy), a filha mais velha, como protagonista. Desde o perceptível desgosto de sua mãe por ela, até os olhares de desejo de seu irmão mais jovem, Caleb (Harvey Scrimshaw), a jovem é a pária da fé como agente destrutivo, algo que o filme explora bastante. Thomasin, mesmo dentro das condutas religiosas que segue, se revela para além de sua inocência aparente, guiando a narrativa para lugares mais complexos e intrigantes. O patriarca da família, William (Ralph Ineson), funciona de forma interessante, sendo tanto uma figura de intensa pregação quanto se acovardando (ou omitindo-se) nos momentos críticos. William é a face do pensamento religioso fervoroso, exigindo que os outros paguem por fraquezas que o próprio comete. Katherine (Kate Dickie) é uma mãe amargurada por todas as mazelas que os cercam, passando por um processo enlouquecedor ao longo da obra. Os olhares desgostosos que dirige a sua filha mais velha podem ser traduzidos como inveja, seja da beleza carnal da juventude ou da pretensão da pureza, algo que vai contra sua postura fanática religiosa. Os personagens principais são terrivelmente anacrônicos, representando a falência da fé e de Deus. Não é à toa que em determinado momento um dos personagens faz a comparação do exílio que sofreram com o encontro bíblico com o diabo, algo que se traduz belissimamente na conclusão do filme.

bruxa 6Um dos grandes méritos do longa é a sua fotografia e direção, seja pelo uso inteligente de luz ou pelas composições visuais intensas. Ao anoitecer, a utilização de velas como fonte de iluminação indireta cria um belo jogo de luz e sombra, envolvendo os personagens na escuridão que predomina espacialmente na tela. É clara a ideia das trevas e do macabro dominando a família, tornando a vastidão selvagem claustrofóbica e estática. Uma vez dentro da floresta fechada, existe uso das incontáveis árvores secas contorcidas sobrepostas aos personagens, funcionando como uma opressora gaiola de espinhos. Logo, a simples imagem do limiar entre os riachos e a floresta se torna desconfortável, transformando a paisagem natural em uma visão dantesca. Os animais, selvagens e da pequena fazenda da família, são desprovidos de qualquer beleza romântica, quase sempre de pelos eriçados e olhos vidrados. Esta apresentação da vida selvagem consegue transfigurar a imagem de uma pequena e esguia lebre em um presságio maldito, com requintes de ritualismo pagão (sem falar do bode da família, é claro). Para completar a composição primorosamente acertada do longa, vale pontuar como a trilha sonora vem para dizer o indizível e nos manter sempre em desconforto. Desde composições mais clássicas até o chacoalhar ritualístico que compõe um determinado (e memorável) momento, o trabalho é surpreendente.

“A Bruxa” é um terror simples e efetivo, resgatando uma das “criaturas” mais simbólicas do gênero. Todo o filme se comporta como uma narrativa mítica (como pontua o subtítulo original), os elementos são cruelmente relacionáveis e trazem a consciência da obra na forma dos desfechos individuais. O longa desconstrói a ideia do estreitamento dos laços sanguíneos através da fé, colocando os personagens em cheque ao personificar a bruxa a partir de suas tentações, desejos, obsessões e pecados. O filme é um deleite para os aficionados pela arte de contar histórias macabras, trabalhando com conceitos e elementos imagéticos clássicos enquanto, ao mesmo tempo, desenvolve e cria seus próprios. “A Bruxa” não é para todo mundo, é necessária a completa dissociação do medo com o susto. O filme é como história sendo contada na fogueira, fazendo muito com muito pouco. Em minha opinião, o título consegue entrar no seleto e eclético grupo das grandes obras do terror moderno.

Vamos Falar Sobre: A Garota Dinamarquesa

danish 2Existe um constante problema dentro da prática (profissional ou não) da crítica de filmes. Cada vez mais pessoas parecem confundir a qualidade do tema com o êxito cinematográfico da obra. Longas que apresentam temáticas simples e cotidianas, mas trazem algo novo e ousado em sua estrutura e técnica, são taxados como “satisfatórios” e reduzidos de forma injusta. Do lado mais tóxico do problema, existem filmes que são extremamente preguiçosos em sua visão artística, mas arrematam o público médio (e até parte da crítica especializada) por culpa do tema discutido. Exemplos notáveis estão por toda parte, desde filmes como “As Sufragistas” (2015), que mais parece uma série televisiva de baixo orçamento, até o mais novo longa do Tom Hooper, “A Garota Dinamarquesa” (2015). Relutei bastante sobre fazer ou não este texto, mas acabei cedendo depois de certa ponderação. Nada mais justo do que ser sincero sobre um título que encarna perfeitamente algumas de minhas frustrações sobre o cenário cinematográfico atual.

Acompanhamos a relação de um casal de pintores residentes em Copenhague em 1926. Einer Wegener (Eddie Redmayne) é um notório artista de paisagens, retratando repetidamente os cenários selvagens de sua cidade natal. Sendo, claramente, o indivíduo mais fragilizado da relação, Einer acompanha sua esposa Gerda (Alicia Vikander) em seus esforços por reconhecimento dentro da comunidade artística. Após um atraso por parte da modelo de um retrato inacabado de Gerda, Einer é convencido por sua esposa a vestir-se à caráter e posar para ela. Logo reascende um desejo a muito enterrado no passado do personagem, o pintor começa a sentir-se mais confortável e real quando dentro da sua persona, Lili. Assim começa a jornada de descobrimento de Einer como transgênero, algo, tristemente, ainda visto como uma patologia hoje em dia.

O primeiro ato de “A Garota Dinamarquesa” consegue tanto contar uma boa história quanto criar signos visuais interessantes. Logo na introdução do longa, uma sequência de paisagens selvagens (as mesmas retratadas por Einer) servem como compasso emocional e signo da “transgressão” de gênero do personagem. Dentro do apartamento do casal, Einer tem suas telas e materiais encolhidos em um dos cantos do cômodo, enquanto Gerda se apresenta sempre bastante próxima da tela e com a predominância espacial, desde o início pontuando os papéis exercidos por cada um na relação. O trabalho corporal de Eddie Redmayne também ajuda a desenvolver seu personagem, cheio de pequenos gestos delicados e contrastando com outras figuras masculinas. Alicia Vikander, por sua vez, nos apresenta uma mulher forte e independente, tomando as rédeas tanto das relações sexuais quanto dos ambientes sociais que divide com seu marido. Tudo parece correr relativamente bem até que, aos trinta minutos de filme, todo o esforço criativo e sincero simplesmente desaparece, nos deixando nas mãos de momentos bregas e piegas que seguem firmes até os minutos finais.

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O longa, constantemente, parece apressar o próprio ritmo, tentando encaixar o máximo possível de situações “emocionais” ao invés de deixar as mesmas respirarem e se desenvolverem dentro da temática. Além de tornar a obra terrivelmente enfadonha, a afobação acaba por transfigurar a atuação intensa e expressiva de Redmayne em algo teatral. Não exige muita ponderação para se concluir o óbvio, Tom Hooper tentou tanto nos fazer chorar que conseguiu (mais uma vez) fazer um filme que dança entre momentos legitimamente tristes e bizarramente circinais. A personagem mais interessante na tela, vivida por Alicia Vikander, consegue elevar os dramas paralelos que transcorrem internamente em Gerda, nos fazendo querer acompanhar mais dela do que a monótona e exagerada narrativa protagonizada por seu companheiro. Por fim, a conclusão do principal arco de desenvolvimento, assim como da transformação de Einer Wegener para Lili Elbe, resulta em uma das sequências mais, não intencionalmente, cômicas dos últimos tempos. Além de forçar uma ambientação que tornasse o momento mais doce, Hooper ainda é capaz de nos deixar com uma construção visual preguiçosa como ápice dramático. Em um último e triste esforço para nos fazer sentir algo, os momentos finais do filme voltam a trazer elementos do primeiro ato, criando uma noção transcendental e bela, que, mais uma vez, é estragada pelo roteiro medíocre.

“A Garota Dinamarquesa” é um filme que satisfaz por suas atuações intensas e temática das mais importantes, mas consegue transparecer o verdadeiro exercício de auto sabotagem que transcorre por detrás do drama. Não escrevo este tipo de texto com satisfação alguma, tanto que normalmente nem mesmo me daria o trabalho de fazê-lo, mas me incomoda muito ver infinitas avaliações e críticas serem cúmplices deste tipo de material. Praticamente todos que tem bom senso reconhecem a importância da temática apresentada e desenvolvida, ainda mais vindo de grandes estúdios e sendo amplamente distribuída, é fantástico. Mas nada disso faz de qualquer filme melhor do que ele realmente é. Existe mais no cinema do que temática. No fim do dia, “A Garota Dinamarquesa” falha naquilo que realmente importa, elevar o material de forma lírica e sincera.

Vamos Falar Sobre: O Quarto de Jack

room 6Premiações e indicações à parte, “O Quarto de Jack” (2015) é uma ótima experiência. O novo filme de Lenny Abrahamson funciona como desenvolvimento natural de sua carreira, elevando sua direção simples e linear a novos ápices temáticos e narrativos. É um tanto quanto difícil tentar separar a obra das altas expectativas que a cerca, mas é mais que recomendado. O ponto forte do longa é exatamente sua simplicidade. O resultado é algo notável e que se diferencia das produções mais, tecnicamente, complexas e épicas que também são exibidas nesta época de premiações. Desde os, parcialmente, lentos primeiros minutos ao prolongado e intrigante desenrolar dramático, o longa faz exatamente aquilo que se propõe a fazer e cativa com facilidade.

Jack (Jacob Tremblay) é uma criança que nunca viu o mundo exterior ao pequeno quarto onde nasceu e foi criado por sua mãe (Brie Larson), tendo conflitos para até mesmo entender a lógica por trás da existência de algo além daquele seu singular universo. Acompanhando diretamente sua visão de mundo, logo entendemos que a jovem mulher é vítima de um sequestro que já se estende por sete anos. Assumindo de forma esporádica a função de narrador, Jack, ao longo de seus cinco anos de vida, descreve uma particular e fantasiosa visão daquela terrível realidade, uma que minimiza e requalifica os problemas que enfrenta. Após ser introduzido, por sua mãe, a verdadeira situação de confinamento, o menino age, de forma planejada, como catalizador de uma sequência de momentos que acabam por livrar ambos do cárcere privado. Uma vez livres, mãe e filho enfrentam dificuldades para se reintroduzir na sociedade, um novo universo caótico e emocionalmente problemático para Jack.

A primeira metade do longa, com a dupla ainda em confinamento, explora e desenvolve a percepção do menino sobre seu limitado mundo. Jack encanta ao nos aproximar de sua doce e cuidadosamente construída visão, cheia de pequenas complexidades e justificativas que se completam de forma coesa. Acompanhando os olhos da criança, às vezes de forma literal, inicia-se uma descida em direção aos verdadeiros horrores que parasitam aquele quarto. O raptor, que tem cronogramas parar ir e vir, é uma figura simples e sem grandes traços de sua índole, periodicamente tendo relações sexuais com a personagem de Brie Larson enquanto Jack se encolhe dentro do armário a mando da mesma. Em outros instantes, o garoto tem que lidar com os dias nebulosos de sua mãe, que, em certos momentos, recusa-se a levantar da cama. Por consequência, Jack é extremamente amadurecido em determinados pontos da mesma forma que é subdesenvolvido em outros. Tendo a única e pequena entrada de luz natural, uma claraboia no teto, como explícito signo do além, esta se torna uma constante lembrança do confinamento para ambos (mesmo que exista variação na percepção individual). As relações desenvolvidas entre Jack e sua mãe se diferem por vezes, a depender das vivências e restrições de cada um, mas é inegavelmente e essencialmente bela e sincera.

room 2Um desenvolvimento mais denso acontece após a fuga do confinamento. A mãe do garoto, sequestrada aos dezessete anos, é obrigada a enfrentar a passagem do tempo que perdeu, indo do alívio da liberdade ao sofrimento de um pedaço de sua vida que nunca mais voltará. Brie Larson faz um trabalho espantoso, transformando intensas alterações de humor em gestos e expressões realistas, um verdadeiro e constante soco no estômago. Jack, por outro lado, enfrenta uma intensa desconstrução de tudo aquilo que considerava real. Ainda protagonizando pequenos e belos trechos descritivos de narração, o personagem se torna o farol emocional de sua família e do longa. Jack, por vezes, revela sentir falta do quarto onde ficou confinado, como se a ausência da constante certeza das dimensões do universo o deixassem desconfortável. Aos olhos do garoto, o quarto era maior porque se apresentava de forma constante e completa. É interessante notar que a dupla de protagonistas sai de um confinamento espacial para um emocional, elevando a temática da obra em toda sua sincera e bela crueldade.

“O Quarto de Jack” é um filme focado em sua narrativa, estabelecendo e desenvolvendo esta. Se por um lado a simplicidade técnica enaltece o cerne da obra, por outro pode transformar o longa em algo básico demais para ser memorável. Seria desonesto não prestar os devidos elogios, existe muito empenho em contar uma história extremamente interessante e bem construída. Mas parece faltar algo mais, algo que eleve o material para além de suas limitações, e isto faz falta. “O Quarto de Jack” é incrivelmente coeso e belo, merecendo tanto uma recomendação por minha parte quanto o reconhecimento que vêm recebendo da mídia.

Vamos Falar Sobre: O Regresso

revenantAlejandro González Iñárritu é um diretor de força e personalidade. Mesmo se isolarmos seus últimos dois trabalhos, fica bastante claro o brio e as marcas presente em seus longas. Uma memória que não custo em resgatar é como deixei a sessão de “Birdman” (2014), extremamente leve de um pé e cruelmente firme do outro. A parceria entre Iñárritu e Emmanuel Lubezki (diretor de fotografia) cria uma intensa atração visual, mesmo nos momentos mais simplórios e passivos. Coberto de louvor e carregando uma quantidade enorme de indicações ao Oscar, “O Regresso” (2015) tinha uma tarefa difícil, viver à altura de uma obra antecessora extremamente singular. Não faltam motivos para se alimentar dúvidas, todos parecem se digladiar para exaltar como o novo filme de Iñárritu é “só bom”. Mas a verdade é que, hoje, sinto estar por fora de alguma estranha histeria coletiva. “O Regresso” é uma obra prima.

Acompanhamos Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) e um grupo de homens que se aventuram pelas gélidas florestas americanas de 1820 atrás de peles de animais. Diferente do resto da expedição, Glass possui um passado com uma das populações nativas e um filho mestiço, Hawk (Forrest Goodluck), que o liga ao universo local. Após sofrerem um ataque surpresa, poucos sobreviventes escapam através do rio e perdem o trabalho de toda uma temporada. Logo recai ao civilizado Capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson) tentar liderar sua corja irascível e instável em direção à segurança. Desde cedo é bastante clara a existência de um atrito entre Hugh Glass, alguém que claramente possui ligações com as populações nativas, e John Fitzgerald (Tom Hardy), um homem problemático que foi parcialmente escalpelado no passado. Vítima de um brutal ataque de urso pardo, Glass se torna um fardo para a equipe e logo é deixado para trás nas mãos de voluntários. Não custa para que Fitzgerald se aproveite do isolamento parcial e arquitete contra o ferido, assassinando seu filho e o deixando para morrer. Estripado de seu último pedaço de felicidade, Glass, que sobrevive ao abandono de seus homens, inicia uma árdua jornada de sobrevivência e vingança.

Por mais redundante que seja, sinto-me obrigado a pontuar como “O Regresso” é tecnicamente impecável. A câmera realiza uma dança por entre os elementos de cena, espreitando por de trás da vegetação. Algumas sequências são longas, dotadas de uma extensa e violenta coreografia que consegue elevar a carga dramática. Cada flecha finca, assim como cada corte rasga. O uso de iluminação natural aprimora o jogo de luz e sombra, escondendo e revelando detalhes para expandir determinados momentos e signos visuais. A verticalidade da floresta é explorada à exaustão, uma constante lembrança da intensa redução do controle e de poder que o homem possui naqueles domínios, simulando o sentimento de pequeneza sentido ao adentrar em uma catedral gótica. Acompanhamos a bestialização do homem, que se comporta como mais um elemento vivo do ambiente selvagem. O filme é absurdamente rico em sua apresentação, mesmo trabalhando com uma ambientação predominantemente esterilizada pela brancura da neve. A ideia aqui é manchar o solo com o sangue dos vivos, deixar cicatrizes iguais àquelas que adornam os rostos e corpos dos personagens.

revenant 3“O Regresso” é um filme sobre a relação mística entre a figura de Deus e a morte, a unificação destes, vindo diretamente de conceitos nativo-americanos. Seja dentro dos sonhos surreais do personagem principal ou por representação do comportamento animal selvagem, a conexão é construída e reforçada das formas mais abstratas e poéticas. Esta noção não existe apenas dentro do contexto “místico” do personagem de Leonardo DiCaprio, o próprio Fitzgerald traz consigo o mesmo signo ao compartilhar a história de como seu pai encontrou Deus. A morte na obra é algo trágico e contínuo, algo que não pode ser deturpado pela agressão humana, e sempre é carregada como fardo. A conclusão do conflito central da trama, assim como de Hugh Glass, é carregada de filosofia. Não seria exagero afirmar que a ambição conceitual de “O Regresso” possa passar despercebida quando contrastada com o espetáculo visual, mas acredito ser onde habita o verdadeiro cerne do filme.

Tom Hardy encarna, de forma primorosa, a imagem de um homem endurecido pela vida. John Fitzgerald, com o decorrer do longa, foge do antagonista comum, protagonizando uma variedade de momentos que o humanizam de forma convincente. Por mais que suas ações no último ato sejam dotadas de perversidade e covardia, somos relembrados de seus demônios no momento de sua conclusão e lançados novamente nos tons de cinza que o compõe. Leonardo DiCaprio convence como explorador, levando seu trabalho físico à níveis surpreendentes, mas luta nos poucos momentos onde é necessário entregar uma fala. Por algum motivo, DiCaprio ainda parece preso dentro de suas limitações de uma década atrás. Talvez o “O Regresso” não seja o melhor trabalho do ator de 41 anos, mas é mais que o suficiente para levar adiante a variedade de sequências não verbais que protagoniza. A relação entre Glass e seu filho, Hawk, é sincera e zelosa, deixando a conclusão da mesma ainda mais trágica. Apesar de sua extensa duração, e densidade singular, “O Regresso” consegue desenvolver seus personagens de forma inteligente, elevando-os para além de uma simples narrativa de vingança.

THE REVENANT

As sequências surreais vividas pelo personagem principal têm determinados momentos de brilhantismo, mas podem acabar por interferir no delicado ritmo da obra. As constantes repetições imagéticas são impactantes, mesmo que algumas acabem se comportando como uma alegoria redundante. Apesar da bem amarrada conclusão, as múltiplas cenas, obviamente transcendentais, envolvendo a falecida esposa de Hugh Glass acabam por induzir ao cansaço. Outro ponto negativo seria a incapacidade de Leonardo DiCaprio de reproduzir um sotaque ou um dialeto de época, a discrepância incomoda uma vez que o vemos contracenar ao lado do incrivelmente talentoso Tom Hardy. A narrativa pode, por vezes, parecer sapatear demais ao redor da conclusão, mas acredito que esta seja uma decisão acertada, o saldo final é extremamente positivo graças aos múltiplos pontos de desenvolvimento. Existem eventos paralelos o suficiente para manter um constante ar fresco durante o filme e deixar em suspenção como cada um irá se desenvolver e, por fim, conectar-se.

“O Regresso” possui camadas bastante distintas. Podendo ser assistido como um filme de vingança até uma extensa construção filosófica sobre deus e a morte. Assim como o último filme de Alejandro González Iñárritu, corre o risco de ser porcamente interpretado e preguiçosamente reduzido. Nem toda a obra precisa ser um sucesso unânime, nem todo longa precisa lhe agradar. É essa a beleza de filmes como “O Regresso”, ele traz algo novo para o cardápio. Os problemas estão por aí para quem procurar, mas no fim do dia é difícil não aplaudir o exercício cinematográfico realizado por Iñárritu. É cinema sincero de forma apaixonada. Espero ver mais do diretor mexicano nesta nova e ousada fase de seu trabalho.

Vamos Falar Sobre: A Grande Aposta

a grande aposta“A Grande Aposta” (2015), do diretor Adam McKay, é um filme que esperei ansiosamente desde suas primeiras peças publicitárias. O elenco de peso e as assinaturas da direção já pareciam uma receita pronta para algo com personalidade, mas foi o tema do longa que me colocou ainda mais em expectativa. McKay, apesar de dominar e reafirmar pontualmente seu domínio sobre a comédia, traz uma história complexa, dependente e permeada por termos e noções técnicas bastante específicas. Mesmo que ainda ansioso, foi com certa cautela que comecei a minha experiência com o filme. O prazer foi grande, fui conquistado logo de cara.

Michael Burry (Christian Bale) é uma figura estranha dentro do setor financeiro, normalmente vestindo-se de forma despojada e agindo com certa imprevisibilidade. Como se descobrisse uma falha singular e notável, o genial executivo começa a formatar uma terrível previsão lógica sobre o que viria a ser a crise imobiliária de 2008. Narrando os acontecimentos do longa, o ganancioso banqueiro Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe as bizarras movimentações financeiras de Burry e passa a montar um esquema para lucrar com o previsto desastre. Dentre aqueles que também acreditam na previsão e decidem apostar contra um dos mercados mais sólidos do país, está o irascível e idealista Mark Baum (Steve Carell) e sua equipe. De forma acidental e em menor escala, Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), dois jovens peixes pequenos recém-chegados em Wall Street, também começam a ir contra o mercado de habitação enquanto são aconselhados pelo experiente e sóbrio Ben Rickert (Brad Pitt). Com enormes quantias em risco, envolvendo um possível lucro ainda maior, acompanhamos os personagens durante seus conflitos financeiros, emocionais e éticos pelo período, previsto por Burry, de dois anos.

“A Grande Aposta” traz o humor cínico de Adam McKay (uma de suas marcas) somado a uma edição inteligente e bastante original. A câmera é um personagem por onde comentários, por vezes, são direcionados ao publico, seja para acrescentar ou desmentir pequenas liberdades poéticas dos acontecimentos. Nosso olhar, registrado pelo uso de câmera, é documental. A quarta parede parece existir quando é conveniente, da mesma forma que é quebrada quando o momento é ideal. Por mais que a narrativa se concentre em indivíduos gananciosos e de índole duvidosa (em sua maioria), sempre existe um elemento humano na inserção de fotografias de pessoas comuns em situações cotidianas. O longa sabe até onde levar suas piadas, respeitando o teor do tema. O filme é marcado, de forma pontual, por citações que conseguem enaltecer determinados momentos ou o tom humanizado destes (também deixando agudos momentos de calmaria onde é possível respirar e absorver a grande quantidade de informação que é constantemente despejada), passando por Mark Twain até Haruki Murakami. Quando os personagens se encontram discutindo termos e complicações específicas demais para o publico médio, o filme simplesmente engasga por um momento, quase sempre de súbito, e um convidado (novamente quebrando a quarta parede) aparece para explicar da melhor forma possível o que aquilo significa. Estes momentos podem parecer partir da pretensão da ignorância de quem assiste, mas o próprio longa faz questão de pontuar que aquele vocabulário existe para que as figuras de Wall Street se separem do resto, é artificialmente complexo e exagerado. Durante as devidas explicações existem pequenos erros de continuidade, que reforçam ainda mais a ideia da visão documental do filme. Toda a parte técnica de “A Grande Aposta” é carrega de personalidade e humor distinto, brincando com a noção comum de ficção e narrativa.

a grande aposta 2O longa se mantém focado no desenvolvimento e nas relações de poder durante os meses que antecedem a crise, mas ainda existem pequenos momentos onde mergulhamos, mesmo que de forma breve, nos personagens. Com o decorrer do filme, acabamos conhecendo um pouco do essencial de cada um. Sempre de forma cautelosa, evitando tornar-se uma narrativa puramente dramática e dependente do prolongado e constante desenvolvimento destes. O desempenho de Steve Carell parece caricato de inicio, mas logo entendemos a dinâmica de extremos por trás de sua interpretação. Seu personagem, Mark Baum, convence como compasso moral e emocional, sendo responsável por entregar sentenças poderosas e cheias de ideologias. Vale também elogiar a interpretação contida de Christian Bale, que mesmo tendo seu arco narrativo devidamente completo deixa um gosto amargo na garganta. Queria tê-lo por mais tempo na tela. Uma vez que a crise é consumada, ficamos totalmente dependentes dos personagens e de suas reações quanto ao terrível cenário catastrófico, obrigando o filme a amadurecer por completo. “A Grande Aposta” começa com tons de “O Lobo de Wall Street” (2013) e termina cruelmente trágico e realista.

Se existe algum problema que realmente chamou a atenção, estando eu procurando de forma minuciosa, seria a estrutura. Por poucas vezes o filme parece não saber exatamente aquilo que quer contar, se perdendo entre as tecnicalidades complexas e o humor cínico. Mas encaro isto de forma diferente do normal. A meu ver, “A Grande Aposta” tem licença poética para seus mínimos deslizes estruturais. Tratando de um assunto complicado, que machuca o orgulho do capital e da imagem sólida do sistema enquanto mantém seu caráter humorístico, acaba sendo mais que natural recorrer a algumas experimentações. O longa é uma forte e constante brisa de ar fresco, refrescante e corajosa. Por enquanto, “A Grande Aposta” foi o melhor filme que tive o prazer de assistir no cinema em 2016. Independente da temática complexa é cativante pelos motivos mais simples e humanos.

Vamos Falar Sobre: Carol

CarolNão saber muito sobre o filme é, quase sempre, uma boa pedida. A ausência de expectativas somada à possível surpresa, seja pelo formato ou conteúdo, acaba por criar um impacto intenso e uma imersão notável. Com noção prévia das mais simples, foi dessa forma que assisti “Carol” (2015). O novo longa de Todd Haynes é lento em apresentação da mesma forma que é realista, não há dificuldades na inserção de terceiros. Com um foco narrativo simples e ótimas performances, o filme, que se mantém linear, consegue se destacar entre outros que acompanham seu lançamento nacional. Mesmo, pessoalmente, tendo passado por uma péssima sessão, guardo memórias bastante doces da obra.

A história se passa na cidade de Nova Iorque em 1950. Therese Belivet (Rooney Mara) é uma garota introspectiva, confusa sobre seus desejos e estagnada em sua vida. Passa a maior parte de seu tempo divida entre o trabalho, em uma loja de brinquedos, e com seu namorado Richard Semco (Jake Lacy). Durante os turbulentos momentos de véspera natalina, Therese tem sua atenção presa a uma elegante mulher mais velha chamada Carol Aird (Cate Blanchett). Mesmo em posições diferentes (compradora e vendedora em classes sociais distintas) as duas mulheres entram em sintonia de forma simples e agradável. Com a elegante senhora deixando suas luvas para trás, Therese ganha um motivo para iniciar um contato com Carol. Lentamente, as duas mulheres vão se aproximando, ganhando intimidade e confiança. Não tarda para que ambas reconheçam como se sentem e, de forma lenta e cautelosa, iniciem uma relação amorosa. As personagens veem uma na outra alguém que pode suprir as ausências emocionais que sentem.

“Carol” é um filme pautado em grandes interpretações. Com poucos personagens sendo formalmente apresentados, acompanhamos o intenso desenvolvimento da relação das duas protagonistas de forma focada e lenta. Cada pequeno avanço emocional ou problemática tem seu devido tempo para respirar. A versatilidade de Rooney Mara é notável, sua personagem passa por uma intensa transformação durante a narrativa. Ao nos aproximarmos da conclusão, estamos acompanhando uma Therese mais determinada e independente. Cate Blanchett tem alguns dos momentos mais impactantes do filme, levando sua personagem a protagonizar uma ampla variedade de emoções intensas. O mundo burguês de Carol se mostra terrivelmente artificial, onde seu marido, Harge Aird (Kyle Chandler), se recusa a aceitar a sexualidade de sua esposa, sendo incapaz de lidar com a recente separação do casal. Um ponto interessante do longa é a forma como ele utiliza seus personagens masculinos. Não seria exagero dizer que, praticamente, todos os homens do filme têm como objetivo acidentalmente interromper os delicados momentos das duas protagonistas, ter intenções sexuais com alguma delas ou simplesmente representar a opressora conduta normativa da época. Considero este um importante acerto da obra no momento em que somos facilmente convencidos a não confiar plenamente em nenhuma figura masculina, reforçando ainda mais o sentimento empático originário da relação entre Carol e Therese. A depender do personagem, existe ingenuidade nestes comportamentos. Richard, por exemplo, tem seus momentos antagônicos sendo motivados por confusão emocional. Reiterando como os indivíduos e as relações de poder operavam na década representada, ser sexista e homofóbico era o modus operandi.

CAROL

Outra escolha interessante do filme é a sua apresentação. “Carol” tem longas sequências predominantemente esverdeadas, passando uma imagem hiper-realista de Nova Iorque e da década. Da mesma forma, nos pontuais momentos de variação de cor, existe um belo casamento entre as construções visuais e a trilha sonora. O problema é quando estes momentos são escassos e acabamos acompanhando extensas sequências que se aproximam do desagradável e esteticamente cansativo. Destaque para o poético uso de vidros e janelas, compondo brilhantemente o distanciamento emocional que vitima as personagens. O longa é cheio de enquadramentos criativos e inteligentes. Em especial, quando a personagem de Rooney Mara é vista através das limitações de sua pequena gaveta no trabalho.

“Carol” não é um filme simples, muito de seu valor encontra-se para além de sua história. A relação desenvolvida entre Therese e Carol é extremamente sincera e comovente, mas pode parecer cansativa para aqueles desacostumados com um material mais lento. Sendo uma adaptação de uma obra literária homônima (na versão nacional), fico curioso para saber quais as particularidades e diferenças na estrutura narrativa. Independe do gosto pessoal, “Carol” é uma obra feita de forma inteligente. Seus cortes e sobriedade distinta conseguem manter o tom de realismo, enquanto as performances nos entregam uma relação amorosa bonita e forte. O filme não é perfeito, por vezes parece tropeçar em uma ausência de substância. Mas o saldo final é bastante positivo, ou pelo menos o suficiente para que seja fácil relevar seus problemas. Quando possível, pretendo assistir novamente ao longa e tenho certeza de que encontrarei mais em um segundo momento.

Vamos Falar Sobre: Spotlight: Segredos Revelados

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Foi de forma despretensiosa que, recentemente, fui assistir “Spotlight: Segredos Revelados” (2015). O motivo é relativamente simples, o novo filme de Tom McCarthy é o clássico longa feito para ganhar premiações. Não me levem a mal, não é como se eu evitasse este tipo de material (afinal, estou bastante empolgado para ver outros que se encaixam na mesma linha), mas costumo ser seletivo com esta “categoria” de filme. “Spotlight” não me surpreendeu por ser bom, já era óbvio que abaixo da média ele não seria, o charme da obra vem de seus pequenos momentos e decisões criativas. A simplicidade é carismática.

No filme, acompanhamos a redação do jornal “The Boston Globe” e as mudanças advindas da chegada do novo chefe, o sóbrio Marty Baron (Liev Schreiber). Uma das alterações significativas que Baron faz no jornal é com a equipe investigativa liderada por Walter Robinson (Michael Keaton), que recebe um pedido formal para investigar um notório caso engavetado de pedofilia envolvendo um padre. Acatando ao pedido, Robinson e sua equipe começam a tirar a poeira por debaixo do tapete da cidade de Boston, descobrindo que o caso possui raízes profundas. O trabalho jornalístico investigativo sincero do quarteto começa a desvelar um dos maiores escândalos de pedofilia já acobertados.

“Spotlight” é uma história real e por isso aprecio a apresentação simples e focada no processo de investigação. A equipe é composta por figuras comuns, não existe glamour ou heroísmo. Este é um dos grandes méritos da narrativa do filme, seus personagens. Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é um dos membros da equipe, talvez o mais idealista e apaixonado dentre eles. Pouco sabemos sobre sua vida pessoal, mas é bastante claro os sacríficos que faz pelo seu trabalho como jornalista. Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) tem uma vida estável com seu marido em Boston. Após a investigação tomar um escopo maior e mais grave que o esperado, os pequenos momentos onde acompanha sua avó à igreja se tornam angustiantes e perturbadores. Matt Carroll (Brian d’Arcy James) é um pai de família que sofre a cada nefasto detalhe descoberto, estressado, graças à empatia que sente pelas famílias destruídas. No final, Matt acaba sendo uma das figuras mais relacionáveis, mesmo tendo menos tempo de tela que seus colegas.

SpotlightAs interpretação contidas são cheias de pequenas sutilezas, em especial as performances de Keaton, Schreiber e Ruffalo. Estes três são protagonistas de momentos cativantes, onde prendem nossa atenção com grande facilidade. O personagem de Stanley Tucci, o advogado Mitchell Garabedian, entrega diálogos poderosos durante todo o longa, forçando o publico a reconhecer aqueles horrores como eles verdadeiramente são. Assim como a trilha sonora de Howard Shore, pontua muito bem o tom pesaroso do filme.

Por mais que sejam ofuscados pela história e os personagens, existem pequenos problemas em “Spotlight”. A passagem de tempo, vital para reconhecermos o árduo trabalho da investigação, é um tanto quanto nebulosa, salvo um determinado momento onde somos relembrados da época onde se passa o longa. A parcial negligência do tempo não chega a falhar com o conjunto da obra, mas deixa um pouco a desejar. O meu maior problema com o filme talvez seja a sua falta de ambição, em especial as composições de cena e trabalho de câmera. Normalmente, este seria um aspecto que relevaria ao se tratar de uma narrativa investigativa clássica, mas fica difícil evitar quando cenas pontuais beiram o genial. Existem determinados momentos durante o longa, momentos de grande peso, onde o trabalho de câmera nos entrega algo refrescante e inteligente. O mesmo vale para as composições de cena, também pontualmente apresentando momentos de grande lirismo. As belíssimas experimentações acabam criando um contraste muito grande com o resto do filme, que acaba por se apresentar de forma genérica e esperada. Não consigo evitar de pensar que “Spotlight” poderia ter sido uma experiência bastante rica se tivesse arriscado mais. Mas vale lembrar que ambos os problemas existem, pois o material está à altura de complicações específicas como estas. Existe mérito por toda parte. “Spotlight” talvez se perca no tempo, mas vale uma recomendação.