Vamos Falar Sobre: Voando Alto

eddieA dinâmica por trás de filmes biográficos sobre atletas é batida, uma velha conhecida que teve seu auge em décadas passadas e hoje se encontra em singular letargia. Um gênero que, até certo ponto, não evoluiu de forma saudável através das produções. Nenhuma formatação dissolve-se por completo, mas assim como qualquer forma de narrativa, pode alcançar um prolongado momento de estagnação, mantendo-o extremamente previsível. Existe a necessidade de reinvenção e experimentação, fazer algo novo e ousado dentro de uma proposta conhecida. “Voando Alto” (2016) consegue sintetizar exatamente este sentimento cansado e saudosista, comportando-se como algo, no mínimo, notável dentro de suas limitações, sejam elas artísticas ou financeiras.

Acompanhamos o jovem Eddie Edwards (Taron Egerton) em sua busca pelo status de olimpiano. Desde a infância até o inicio da vida adulta, o garoto cultiva um futuro que por vezes se mostra inalcançável. Visto como ingênuo pelo seu pai e com problemas motores nas pernas, Eddie usa, inconscientemente, as adversidades como combustível para seus desejos, fazendo de seu crescimento uma serie de momentos baseados na tentativa e erro, sempre em busca de uma prática esportiva que sustente e contemple suas condições. Uma vez livre de impedimentos físicos, Eddie desenvolve uma paixão platônica pelos esportes de inverno e pelo Salto de Esqui, fazendo com que vá à Alemanha em busca de local adequado para treinamento. Esnobado por uma das mais famosas equipes do esporte, Eddie se junta a Bronson Peary (Hugh Jackman), um antigo saltador americano com um passado conflituoso. Uma vez unidos, a dupla inicia seu improvável processo de treino, visando levar Edwards aos Jogos Olímpicos de Inverno.

O primeiro atrativo do longa salta aos olhos logo nos primeiros momentos: a paleta de cor e a sonoplastia evocam a conjuntura presente em uma produção oitentista, funcionando como um filtro para ditar a atmosfera da obra. Indo dos tons mais pastelados até o intenso colorido dos uniformes de esqui, a variedade é agradável e não permite o cansaço visual. A trilha sonora também brilha, tendo peças completamente sintéticas e músicas vindas diretamente da época retratada, fazendo a constante manutenção da atmosfera. “Voando Alto” se destaca por seu valor sinestésico, trabalhando de forma simples dentro de uma variedade bem arquitetada. Talvez o maior problema do filme seja exatamente este, enquanto o esforço dentro dos campos visual e sonoro é claro e sincero, a narrativa, interpretação e direção acabam contrastando de forma negativa, passando uma sensação amarga e desnecessária de preguiça.

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A narrativa começa convincente, deixando transparentes as intenções da obra, fazendo um malabarismo entre contar uma história inusitada e um tanto quanto cômica e “parodiar” o próprio gênero de filmes esportivos – sem perder o esporte em si. Contrário ao que se possa imaginar, “Voando Alto” consegue acertar neste complicado equilíbrio, fazendo-nos comprar a ideia do filme e legitimamente segurar a nossa atenção, mesmo que, no entanto, não exista qualquer risco ou oposição que evoque algum interesse narrativo. A agradável e igualmente passiva progressão discursiva começa a desandar no final do segundo ato, onde o longa simplesmente abre mão do seu valor como “paródia” e decide, por algum motivo, se levar a sério. A narrativa torna-se gratuitamente lenta, o trabalho de som transfigura-se em monotonia, deixando a interpretação cômica de Taron Egerton e a terrível de Hugh Jackman para guiar uma história que, até aquele ponto, não havia exigido maior seriedade dramática. Por mais que nos momentos finais o filme volte ao seu comportamento original, o estrago já foi feito, se tornou outra mensagem brega no meio de tantas outras.

“Voando Alto” não é um filme ruim, longe disso, têm seus charmes e originalidade ainda marcados em minha memória, o problema é a falta de comprometimento com a temperatura proposta. Quando o próprio longa desacredita em seu formato no meio do caminho, a audiência perde qualquer motivo para fazer o contrário e todo o momentum simplesmente tropeça. No final, é uma experiência satisfatória, mas algo que não faço questão de relembrar – tristemente.

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Vamos Falar Sobre: A Apreciação de Filmes B

b movie 3De acordo com os conceitos clássicos, na Era de Ouro de Hollywood, um filme B era aquele que completava a segunda metade de uma sessão de exibição. Normalmente se tratava de uma produção barata, permeada por clichês e com personagens recorrentes. Após a prática da dupla exibição entrar em desuso por volta de 1950, o termo passou a ser mais abrangente, podendo definir uma variedade de materiais. As primeiras produções de velho oeste deram lugar à ficção cientifica de aventura e ao terror teatral. A evolução, tanto do termo quanto do produto, passou por sua transformação mais drástica nos anos oitenta, com o nascimento de tecnologias de captação mais baratas e do VHS. Filmes de “exploitation” (aqui em inglês por falta de uma tradução que melhor contemple o termo), visando quase que exclusivamente o lucro, fundaram o que hoje é amplamente considerada uma época de exageros precários e do fracasso artístico absoluto, redefinindo o conceito do filme B. Qualidade à parte, acredito que exista um poderoso valor histórico nesta subindústria de produção cinematográfica, títulos que hoje vêm sendo redescobertos como tentativas que resultaram em brilhantes acidentes cômicos e pequenas pérolas escondidas por entre o entulho.

A Inesperada Virtude do Fracasso Alheio

Assim como tipografia e música, existe temperatura no cinema, algo sinestésico e metafísico que transcende a forma aparente. É esta notável abstração que diferencia produções como “Kung Fury” (2015) de “Turbo Kid” (2015), obras que dividem tanto a época que foram feitas quanto o momento histórico cultural que referenciam. Um filme que se esforça para criar algo interessante exige trabalho e visão de seus criadores, algo que funcione como assinatura própria. Um bom filme ruim é aquele que é concebido com a intenção de ser bom. “Turbo Kid” foge um pouco da regra do “fracasso artístico total” porque consegue, objetivamente, entreter não por seus erros, mas por seus acertos ao referenciar os anos oitenta. O pouco orçamento e temática é que o colocam nesta categoria. É interessante notar como as indústrias de produção tentaram, ao longo dos anos, invadir esta subcultura. Títulos como “Sharknado” (2013) falham exatamente naquilo que o longa antes citado acerta, a latente ausência de temperatura e carisma fazem da peça de 2013 uma falha conceitual, uma vez que é concebida com o intuito de ser um filme propositalmente ruim.

O entretenimento por trás de filmes como “Samurai Cop” (1991) e “The Galaxy Invader” (1985), é extremamente flexível. As confusas decisões de roteiro que levam a situações constrangedoras e inexplicáveis são terrivelmente engraçadas e memoráveis, mas existe algo além. Mesmo estas notáveis aberrações cinematográficas foram produzidas na tentativa de fazer algo bem feito. Seus criadores, basicamente, realizaram uma caótica colagem dos elementos que compunham os respectivos gêneros. Como adolescentes com uma câmera na mão, mimetizaram aquilo que já haviam observado em obras mais famosas e bem conceituadas, dando origem a um produto final que possui um charme alienígena dos mais sinceros e empáticos. O verdadeiro deleite por trás da apreciação de filmes B existe na possibilidade real e prática daquilo na tela poder ser feito por qualquer um. É quase como uma declaração de amor ao ato de criar, mesmo vindo de projeções que visam apenas o lucro como objetivo final.

Notáveis Produções

Xtro (1983)

b movie 10Um dos títulos mais interessantes que o lado B do cinema pode oferecer é “Xtro”. Uma verdadeira surpresa, o longa é uma das ficções científicas mais ousadas e sinceras que já tive o prazer de assistir, balanceando perfeitamente o charme de seu baixo orçamento com construções visuais engenhosas e criativas. O roteiro de “Xtro” é outro deleite à parte, sendo coeso e simples, a narrativa do terror cósmico entrega momentos legitimamente perturbadores. Nada vem gratuitamente, cada grande sequência é resultado de uma situação arquitetada anteriormente, criando uma confortável sensação de progressão dinâmica ao filme. Assim como “Turbo Kid”, é quase bom demais para ser citado neste texto.

Things (1989)

b movie 8“Things” é uma experiência para poucos, conseguindo ser, ao mesmo tempo, um longa intrigante e frustrante, ambos resultado da obtusa e confusa apresentação do filme. Sendo uma cópia de “A Morte do Demônio” (1981), acompanhamos homens de meia idade, que se apresentam como jovens, enquanto passeiam de forma confusa e caótica por uma cabana na floresta. Logo, obviamente, pequenas criaturas de borracha sem articulação os atacam, levando a uma série de situações onde fica ainda mais inevitável não notar as múltiplas referências e cenas imitadas. A parte mais interessante de “Things” é imaginar o seu processo de produção, desde o áudio que tem um dos piores ADR já feitos até o confuso e perdido roteiro. O longa é como algo feito por alienígenas.

Miami Connection (1987)

b movie 9Assinando o roteiro, a direção e o papel principal, o orador motivacional Y. K. Kim criou uma verdadeira aberração dos filmes de arte marcial. Conflitos entre bandas que lutam diferentes estilos, uma gangue de ninjas que acaba interferindo em uma grande transação ilegal de narcóticos e a busca por uma figura paterna há muito perdida, “Miami Connection” é absurdamente caótico. O título, assim como “Samurai Cop”, é a visão de um diretor estrangeiro dos filmes de ação americanos oitentistas, tornando-o um verdadeiro estudo antropológico. O bizarro desenrolar do filme entrega uma confusa experiência catártica, que acontece de forma tão súbita quanto contraditória. No fim, “Miami Connection” se torna uma das peças mais singulares e notáveis do nicho, criando comicidade de forma completamente acidental.

Vamos Falar Sobre: A Bruxa

bruxa 3O terror é um gênero que vem enfrentando um grande problema nos últimos anos, o público. Feito de sutilezas e tensões, o estilo que se desenvolve diretamente da literatura é extremamente complexo. Assim como qualquer outro gênero, o terror vive em constante reformulação, sendo cobaia das indústrias de produção. Simplificando, as lentas narrativas cósmicas de H.P. Lovecraft deram origem aos filmes “Slasher” dos anos oitenta, assim como o respectivo subgênero de décadas passadas veio a se tornar a febre das produções de “Found Footage” dos últimos anos. Seguindo os princípios da evolução das espécies, nem sempre mudança quer dizer melhora, ainda mais na produção cinematográfica. Não sou saudosista, acredito que cada reformulação do gênero (mesmo quando preguiçosa) é válida por questões singulares e específicas, mas se existe um grande problema na progressiva simplificação do terror, este é a plateia. Acostumado com a narrativa repetitiva dos sustos baratos, é difícil para o público mediano encontrar empatia em uma construção lenta e lírica do gênero. Esta foi exatamente a reação que pude observar ao assistir “A Bruxa” (2015), onde as pessoas parecem não saber o que sentir e acabam se voltando para o tédio e a frustração. Entretanto, independente da inequação condicionada do público, o longa é belíssimo e acerta em cheio aquilo que mais pesa em uma narrativa clássica de terror, a construção de uma atmosfera desconfortável e impactante.

Acompanhamos uma família de protestantes ingleses, residentes nas Américas em meados de 1630, ao serem exilados do vilarejo onde viviam. Instalando-se no limiar da floresta densa e fechada, o grupo inicia seu processo de adaptação ao isolamento. Após um terrível e macabro evento acometer uma criança de colo, o mais jovem dos cinco irmãos, a fervorosa família tem sua fé e união questionada pela presença de uma bruxa na floresta. Pouco a pouco, todo o grupo, dos mais jovens aos mais velhos, se torna vítima da traiçoeira e diabólica entidade – e uns dos outros.

Logo nos imponentes ângulos dos minutos iniciais do longa, temos Thomasin (Anya Taylor-Joy), a filha mais velha, como protagonista. Desde o perceptível desgosto de sua mãe por ela, até os olhares de desejo de seu irmão mais jovem, Caleb (Harvey Scrimshaw), a jovem é a pária da fé como agente destrutivo, algo que o filme explora bastante. Thomasin, mesmo dentro das condutas religiosas que segue, se revela para além de sua inocência aparente, guiando a narrativa para lugares mais complexos e intrigantes. O patriarca da família, William (Ralph Ineson), funciona de forma interessante, sendo tanto uma figura de intensa pregação quanto se acovardando (ou omitindo-se) nos momentos críticos. William é a face do pensamento religioso fervoroso, exigindo que os outros paguem por fraquezas que o próprio comete. Katherine (Kate Dickie) é uma mãe amargurada por todas as mazelas que os cercam, passando por um processo enlouquecedor ao longo da obra. Os olhares desgostosos que dirige a sua filha mais velha podem ser traduzidos como inveja, seja da beleza carnal da juventude ou da pretensão da pureza, algo que vai contra sua postura fanática religiosa. Os personagens principais são terrivelmente anacrônicos, representando a falência da fé e de Deus. Não é à toa que em determinado momento um dos personagens faz a comparação do exílio que sofreram com o encontro bíblico com o diabo, algo que se traduz belissimamente na conclusão do filme.

bruxa 6Um dos grandes méritos do longa é a sua fotografia e direção, seja pelo uso inteligente de luz ou pelas composições visuais intensas. Ao anoitecer, a utilização de velas como fonte de iluminação indireta cria um belo jogo de luz e sombra, envolvendo os personagens na escuridão que predomina espacialmente na tela. É clara a ideia das trevas e do macabro dominando a família, tornando a vastidão selvagem claustrofóbica e estática. Uma vez dentro da floresta fechada, existe uso das incontáveis árvores secas contorcidas sobrepostas aos personagens, funcionando como uma opressora gaiola de espinhos. Logo, a simples imagem do limiar entre os riachos e a floresta se torna desconfortável, transformando a paisagem natural em uma visão dantesca. Os animais, selvagens e da pequena fazenda da família, são desprovidos de qualquer beleza romântica, quase sempre de pelos eriçados e olhos vidrados. Esta apresentação da vida selvagem consegue transfigurar a imagem de uma pequena e esguia lebre em um presságio maldito, com requintes de ritualismo pagão (sem falar do bode da família, é claro). Para completar a composição primorosamente acertada do longa, vale pontuar como a trilha sonora vem para dizer o indizível e nos manter sempre em desconforto. Desde composições mais clássicas até o chacoalhar ritualístico que compõe um determinado (e memorável) momento, o trabalho é surpreendente.

“A Bruxa” é um terror simples e efetivo, resgatando uma das “criaturas” mais simbólicas do gênero. Todo o filme se comporta como uma narrativa mítica (como pontua o subtítulo original), os elementos são cruelmente relacionáveis e trazem a consciência da obra na forma dos desfechos individuais. O longa desconstrói a ideia do estreitamento dos laços sanguíneos através da fé, colocando os personagens em cheque ao personificar a bruxa a partir de suas tentações, desejos, obsessões e pecados. O filme é um deleite para os aficionados pela arte de contar histórias macabras, trabalhando com conceitos e elementos imagéticos clássicos enquanto, ao mesmo tempo, desenvolve e cria seus próprios. “A Bruxa” não é para todo mundo, é necessária a completa dissociação do medo com o susto. O filme é como história sendo contada na fogueira, fazendo muito com muito pouco. Em minha opinião, o título consegue entrar no seleto e eclético grupo das grandes obras do terror moderno.

2015 Re-Cap (Parte Final)

 

Welcome to Me (2014)

Direção: Shira Piven

welcome to meAlice Klieg (Kristen Wiig) é uma mulher mentalmente instável e adoentada, passando por constantes tratamentos e consultas psiquiátricas por toda a sua vida. Encontra uma obsessão nos programas da Oprah Winfrey, assistindo os episódios gravados diariamente. Tendo como figuras próximas sua amiga Gina Selway (Linda Cardellini) e o Doutor Daryl Moffet (Tim Robbins), a personagem tem sérias dificuldades de socialização e passa a maior parte do tempo dentro de sua própria e caótica cabeça. Mas tudo isso muda quando Alice ganha uma quantia milionária na loteria e vai atrás de seu sonho: fazer e apresentar um programa televisionado, assim como a Oprah.

“Welcome to Me” cativa pela premissa original e criativa, tendo diversas aberturas para explorar um humor de extremos. Kristen Wiig consegue, no longa, criar uma figura que proporciona uma variedade intensa de emoções e reações. Seus conflitos psicológicos são tratados como algo cômico da mesma forma que destrutivos. Um dos pontos altos do filme é a constante briga interna dos produtores e executivos, responsáveis pelo canal de televisão, e a moralidade da exposição comprada por Alice, trazendo uma boa dose de realidade para a premissa absurda. “Welcome to Me” tinha tudo para ser só mais um filme de comédia mediano, mas faz um favor a si mesmo ao maturar suas problemáticas em um último e intenso ato. O malabarismo emocional da obra é primoroso. Mesmo sendo predominante uma comédia de absurdos, ainda existe um constante conflito com o real, criando um paralelo com sua instável protagonista. O longa de Shira Piven traz um diferencial para um formato clássico, merecendo tanto um destaque quanto uma recomendação.

The Overnight (2015)

Direção: Patrick Brice

the overnightAcompanhamos o casal Alex (Adam Scott) e Emily (Taylor Schilling), recém-chegados à Los Angeles. Durante um estranho e desconfortável contato sexual, que logo é interrompido, fica bastante claro como ambos tem dificuldades e certa incompatibilidade de satisfazer um ao outro. Bastante preocupados com a adaptação, tanto deles próprios como indivíduos quanto da família, o casal leva RJ, seu filho, para um passeio pelo parque. Após alguns minutos de frustração, Alex e Emily são abordados por Kurt (Jason Schwartzman), pai de outro garoto ali presente, e são convidados para jantar na casa dele e assim se familiarizem melhor com a vizinhança. O resto do filme se passa, quase que exclusivamente, focado no respectivo evento de confraternização. Nossos protagonistas vão aprendendo, aos poucos, que tanto Kurt quanto sua esposa Charlotte (Judith Godrèche) são figuras estranhas e instáveis, fazendo com que a noite tome rumos absurdos e inesperados.

“The Overnight” pode, por vezes, se comportar como uma típica comédia besteirol, fazendo uso de drogas e imagens sexuais como fonte barata de humor, mas logo se aventura por águas mais profundas e densas. Da mesma forma que nossos protagonistas são coagidos a mimetizar o comportamento destrutivo de seus vizinhos, a audiência vai criando um certo distanciamento da narrativa com o passar do tempo, isto para que logo depois sejamos jogados de cabeça contra a verdadeira proposta do filme: exaltar a fragilidade do casamento e o sexo como agente reparador do mesmo. Assim como o filme anterior, “The Overnight” se eleva ao maturar suas fontes de comédia em problemáticas densas e sinceras. Com boas performances e uma narrativa segura, não é difícil se surpreender com a obra.

Maníaco (2012)

Direção: Franck Khalfoun

maniac 2Frank (Elijah Wood) é um assassino em série que possui um peculiar gosto por matar mulheres. Colecionando os escalpos de suas vítimas, o solitário personagem cultiva uma obsessão por usá-los como acessórios em seus manequins. Ao ser abordado por uma jovem fotografa, Anna (Nora Arnezeder), que se interessa pelo seu trabalho como restaurador, Frank inicia uma doentia sequência de perseguição que o leva ao limite de sua loucura.

Remake de um filme homônimo de 1980, o longa é uma perturbadora e íntima visão do doente protagonista sobre o mundo. Frank é muitas vezes vítima de suas próprias alucinações e constantes enxaquecas, que parecem ser o gatilho de seus atos brutais. Pouco sabemos sobre suas motivações, que parecem abstratas também para o personagem, mas é clara a relação entre a preferência que tem por mulheres e algum evento traumático envolvendo sua figura materna. “Maníaco” é filmado do ponto de vista em primeira pessoa, nos fazendo cúmplices dos horrores praticados por Frank. Não são poucas as cenas que embrulham o estômago e beira o nauseante, o filme é terrivelmente (e brilhantemente) cru em sua abordagem da loucura e da violência. A trilha sonora é um componente de peso na obra, colocando-nos na angustiante expectativa do que vem a seguir.

“Maníaco” é um dos poucos filmes que me chocaram de forma sincera e absoluta. Existe muito charme e coragem nas decisões criativas, fazendo deste um dos melhores remakes de um terror clássico. O longa vale muito como experiência, nos levando a vivenciar uma verdadeira catarse esquizofrênica e doentia. O título não é para todos, mas é hipnótico e até mesmo sedutor para os aficionados pelo gênero.

2015 Re-Cap (Parte Dois)

 

Boulevard (2015)

Direção: Dito Montiel

BoulevardNolan Mack (Robin Williams) é um calado homem idoso que tem uma rotina bastante banal ao lado de sua esposa Joy (Kathy Baker). Acorda cedo para ir trabalhar no banco, aonde vem sendo cotado para uma promoção, logo em seguida volta para casa, janta e vai dormir em um quarto separado de sua esposa. Nolan é uma figura melancólica que parece se perder em pensamentos ao dirigir pelas ruas noturnas, procurando algo entre seus olhos naturalmente marejados pela idade. Durante um dos rotineiros momentos de introspecção ao dirigir, Nolan decide abordar um jovem garoto de programa chamado Leo (Roberto Aguire). O personagem continua a seguir em passos lentos, se permitindo viver a vida que queria ter tido.

“Boulevard” é um filme mediano em praticamente todos os aspectos, mas acredito existir mérito, neste caso, ao se apoiar em tal mediocridade. A história de um homem idoso se aceitando como homossexual é contada de forma extremamente realista quando clichês e dramas hollywoodianos são evitados, tudo parece palpável e cru. Grande mérito, também, para as interpretações contidas e sinceras de Williams e Baker.  O último trabalho de Robin Williams não eleva o filme, mas é mais do que o suficiente para contar uma boa e simples história.

Sob a Pele (2013)

Direção: Jonathan Glazer

Under The Skin 2O filme começa com uma sequência de imagens que transmite certa estranheza, algo como mecanismos de uma tecnologia abstrata parecem trabalhar. Logo vemos nossa personagem, uma misteriosa e bela mulher (Scarlett Johansson), parada ao lado de uma chorosa e jovem garota paralisada. O espaço que dividem, de brancura infinita e impossível, é inusitadamente desconfortável. A estranha mulher começa a, sistematicamente, simular o comportamento humano, seduzindo homens solitários a segui-la em direção a uma bizarra armadilha. Com o passar do tempo, nossa misteriosa predadora entra em um complexo (e igualmente destrutivo) processo de autoconhecimento.  

Desconforto parece ser o sentimento chave neste longa. O horror abstrato, a frieza da direção e a angustiante trilha sonora fazem deste filme uma experiência singular e memorável. “Sob a Pele” é um claro estudo sobre a figura humana, nosso comportamento e desejos que nos formatam como os seres que somos. O longa é uma lenta composição cruel e contemplativa, sendo parcialmente livre para interpretação enquanto informa o mínimo possível. Scarlett Johansson constrói, neste filme, uma personagem que lentamente é engolida por sua humanidade cosmética. No final, é fácil criar empatia pela predadora e sentir um desconforto crescer dentro de nós mesmos. “Sob a Pele” é primorosamente eficaz em sua proposta.

Palo Alto (2013)

Direção: Gia Coppola

Palo Alto 3Filmes que tratam das relações e dinâmicas da juventude correm o risco de transmitirem uma visão demasiadamente plástica e burguesa. Este costuma ser o meu problema com alguns dos trabalhos de diretores como Richard Linklater e Sophia Coppola, os danos advindos do sacrifício do conteúdo em prol do formato (ou da intencional ausência deste). Se estamos falando sobre as diferentes formatações emocionais de uma juventude, acaba sendo mais interessante investir no desenvolvimento de personagens com problemáticas adversas do que no quão avant-garde seu longa pode ser. “Palo Alto” consegue isto.

Acompanhamos um grupo de jovens, singulares em apresentação e desenvolvimento, enquanto lidam com as diferentes crises que vivem. April (Emma Roberts) é uma garota insegura de sua sexualidade e vê o interesse de seu treinador de futebol, Mr. B (James Franco), por ela como uma oportunidade de passagem em direção à vida adulta. Fred (Nat Wolff) vive uma vida desregrada que cultiva com grande orgulho. Seu comportamento grosseiro e revoltado é claramente uma fachada para esconder uma pessoa insegura e problemática. Teddy (Jack Kilmer) é um jovem de potencial, mas se permite voltar a protagonizar situações destrutivas de forma acidental e irresponsável como se isso o mantivesse emocionalmente seguro. “Palo Alto” veste a carapuça dos pretensiosos filmes adolescentes para contar uma série de histórias interligadas, todas sobre amadurecimento e os medos inconscientes que parasitam nossas cabeças.

Vamos Falar Sobre: The Lobster

The Lobster 3Filmes focados em relações humanas tem um charme especial. Existe algo que consegue emergir acima dos possíveis problemas presentes no longa e deixar uma impressão intensa em quem assiste. Alguns dos meus filmes preferidos se encaixam, com facilidade, nessa descrição. Mas hoje não vamos de um dos meus favoritos, vamos falar de um filme que consegue trazer tantas coisas novas que acaba por compensar seus problemas. “The Lobster” (2015) de Yorgos Lanthimos.

Não sou um grande conhecedor da estrutura avant-garde no cinema, mas acredito ter a capacidade de apreciar qualquer obra, desde que esta possua visão e estilo. Originalidade é palavra. “The Lobster” é um filme com voz própria, da narrativa à estrutura. O longa nos apresenta um futuro distópico não tão distante onde solteiros são colocados em um hotel e forçados a, em quarenta e cinco dias, encontrar um parceiro. Aqueles que falham nessa tarefa são transformados no animal de sua escolha e jogados na natureza. David (Colin Farrell) é trocado por sua parceira na cidade e acaba por ser mandado para um hotel no meio da selva. Todos os pobres coitados, presos com ele, são reduzidos a nomes descritivos, criando uma clara ideia de ausência de profundidade em prol da afirmação superficial do arquétipo. A rotina é sempre muito regrada e limitadora, liberdades como escolha do vestuário, ir e vir, masturbação e contato com o mundo exterior são extintas. O único momento em que David e os outros podem se sentir vivos é quando são colocados para caçar os solitários que escaparam do sistema e agora vivem na selva, cada captura dá direito a mais dias na seleção em busca de um parceiro. É interessante notar que os solteiros são muito enfáticos na busca por traços de semelhança nos outros candidatos, o “Homem Que Manca de Uma Perna” (Ben Whishaw) vive decepcionado por ser o único solteiro com essa característica marcante. O filme faz questão de nos apresentar cada um dessa forma, para assim ressaltar que, enquanto arquétipos, todos ainda são tragicamente únicos e sozinhos.

A sátira social é clara durante todo o filme. Cada diálogo robótico e desconfortável está ali para pontuar algo sobre o homem em sociedade. Este é um ponto bastante positivo do longa, seu humor negro muito sincero. O hotel é a normatividade exigindo do individuo que siga padrões de conduta plásticos e burocráticos: encontre um parceiro em quarenta e cinco dias, passem duas semanas juntos, tiveram problemas ou brigas? Um filho será designado para amenizar, voltem para a cidade e vivam dessa forma.

Existe sutil deslocamento na fotografia e na trilha sonora que ajuda a tornar ainda mais visual o discurso e as temáticas. David é um homem emocionalmente expatriado e obrigado a fingir o contrário. Tudo se move a um ritmo interessante e estável, nos deixando na metade do filme com o equivalente a três atos bastante satisfatórios e até mesmo um final que seria corajoso por sua simplicidade, mas só chegamos à metade do longa e aí moram os problemas.

The Lobster 4A segunda parte de “The Lobster” vem dizer, de novo, tudo aquilo que já sabemos. É justo dar mérito ao que merece, algumas das melhores cenas estão nesses minutos de filme, mas a falta de substância é latente e quase criminosa com o ritmo outrora dinâmico. Personagens interessantes como “Líder dos Solitários” (Léa Seydoux) e “Mulher com Problema de Visão” (Rachel Weisz) são desperdiçados, deixados de fora do grande desenvolvimento temático da primeira metade. As interpretações são bastante boas durante todo o filme, mas parecem ganhar um espaço maior, uma vez que a selva se torna o cenário principal. Talvez essa mudança de ângulo e tom tenha sido intencional, a ideia aqui pode ser desenvolver melhor as relações interpessoais de cada um, fazendo do filme, até aquele ponto, somente uma construção para ser possível, mais tarde, fazer um detalhado estudo de personagem. O curioso é que o longa continua sendo extremamente interessante e incrivelmente bem feito quando assumimos ou não esse “talvez” como verdade, mas  em algum ponto no meio do caminho se perde o equilíbrio entre o palatável e o experimental.

“The Lobster” tem muito a seu favor, até mesmo seus problemas. Se você tem dificuldades com estruturas não convencionais, ainda vai tirar grande proveito das sátiras e das interpretações. Caso você seja um pouco mais aberto a diferentes olhares e goste quando tem suas pretensões correspondidas, vai encontrar no filme uma experiência original e bastante memorável. Qualquer que seja sua cabeça, o título comunica muito bem sua mensagem da forma mais estranha e sincera possível.